Thursday, September 10, 2009



quando Bob Dylan fez a cabeça dos Beatles.

* aqui um video de Dylan, com a cara pintada de branco, sinistro, mandando sozinho "Tangled Up In Blues". foda.

Wednesday, September 02, 2009

amanhã

doenças, vícios e outras nhacas

The Rising Storm é um dos melhores sítios que já encontrei para a prática abjeta de baixar canções obscuras de qualidade hipotética. O cara é um grande conhecedor de músicas que podem te levar a pensar em dar cabo na vida. Isso aqui, por exemplo, transforma sua cabeça num travesseiro. Agora, o post dele sobre punk-blues é só paulada, escuta isso ai embaixo e imagine mulheres de bikinis asa delta, empunhando metralhadoras em possantes carros v8, cuspindo bala em velhinhas com pesadas sacolas de supermercado.

"Gun Club” – For the Love of Ivy

antes de dormir

Gláucia era uma criança grande que não gostava de ser amolada. Nem de trabalhar. Gláucia não era chegada em banhos. Nem um pouco. Nem em meias. O tipo de garota negligente que sempre arrebentava a pulseira do relógio. E enquanto andava por ai com sua bocarra aberta para o pavimento irregular, Gláucia sentia como se pudesse engolir o mundo, de uma só vez, apenas para depois defecar uma massa cinzenta na mesma calçada cheia de gente. Positivamente negativa, por opção, claro. Nesta cidade. Gláucia era assim, tinha uma visão bem aguçada e não se deixava levar pelo papo furado. Alguns diziam que ela era louca. Não creio. Nem duvido que me apaixonei por ela. Quando ficava nervosa, Gláucia quebrava coisas e se sentia bem melhor em seguida, dançando com a noite escura e silenciosa uma música que tocava alto em seu jukebox mental. Sem remorsos. Eu ainda penso muito em Gláucia antes de dormir, só que um dos meus irmãos bem que me alertou, “Gláucia se casou com ela mesma, não pense mais nisso, volte ao trabalho”. Soube esses dias que Gláucia foi vista semanas atrás comprando mantimentos enlatados no armazém do seu Pedro. Dizem que ela desapareceu pela interestadual que desce para o Sul. Já não mantinha mais contato com ninguém e sempre fugia quando me via na rua, ou você. Não acredito que Gláucia esteja morta. Gláucia é uma criança grande e aborrecida de olhos vermelhos. Não há nada de errado com isso. Tá tudo certo. Como deixar a porta de casa aberta a noite inteira. Razoável. Para que as lembranças escafedam-se.

Thursday, August 20, 2009

faz tempo que não vejo
a chuva castigar
tanto assim a cidade
como se alguém
muito aborrecido
lá em cima
arremessasse mudanças

mais uma vez

há muito tempo

seguro a respiração


dentro de mim

não faz a menor diferença,

apesar da chuva,

que sempre cai

das velas que se apagam o tempo todo

das janelas que batem

e das árvores semeadas

em calçadas descascadas

que balançam no escuro

sob as luzes elétricas dos postes


sombras dançam

colhidas

talvez eu finja fugir

mais uma vez.

quem sabe,

o sol raie,

como um espírito

dentro de mim

que chantageia

e trava

minha temporada

Tuesday, August 18, 2009



Usain Bolt, crioulo doido do caralho.
ele tá certo,
é preciso tirar onda.

Sunday, August 02, 2009



nesta segunda, discoteco uns rock punk podre no D-Edge. abro a pista por volta das 23hs e vou até umas 2 da madrugada. faz tempo que não faço isso. acho que ainda pode ser divertido. se você quiser aparecer e quiser nome na lista de descontos, me escreva no carloscaraharrobagmail.com.

Friday, July 24, 2009

quieto

estou cansado dessa cloaca aqui. ando sem vontade, sinto-me velho e chateado. quem sabe eu precise de um soco bem dado na fuça para acordar. moscas zumbem ao redor da minha cabeça, talvez seja por causa do fedor que meu podre coração exala. ontem choveu a noite toda. eu passei a madrugada sozinho enfrentando uma folha em branco e escutando Nick Cave, pensava no meu melhor amigo que está no hospital. antes as ruas me magnetizavam, hoje me enclausuro aqui. olha só, eu ando cansado de você. e de você também, pimpão. já não me tolero mais. e sabe, eu não tenho a menor opinião sobre tudo isso. acho que vou dar uma volta. goodbye Joe, me gotta go.

"Don’t Deceive Me" - Screamin’ Jay Hawkins

escute ai, ou foda-se.

Sunday, July 12, 2009


hoje é aniversário do Linguinha. Linguinha da Silva. Preste atenção neste sobrenome, você ainda vai ouvir sua risada. O cara, também conhecido como o Bumbum Guloso de Veludo da Praça Rusivel, é um grande filho da puta. Sacana. Mau caráter, piranhudo, matusquela e o caralho. Gente fina até o limite, isso é, se ele te conhecer. Poeta punheteiro, leitor da Piauí, vagabundo nato. Quando o conheci, quase malhei uma bola de sinuca em sua testa, na maldade, lá no Juke Joint. Ele tentou me arranhar. Safado sem esportiva. Hoje, garanto, que esse arrombado enfrentaria um exército ao meu lado. Um verdadeiro amigo. Truta mesmo esse curitibano, bandefroxo. E isso é mais que o suficiente. Logo mais vai rolar uma festa pro Língua. No Coletivo Galeria, ali na rua dos Pinheiros, 493. O Saco Ratos vai estar lá. E eu vou chegar de vuadora.

Friday, July 03, 2009

HOJE



Efeito Urtigão
Texto e direção : Mário Bortolotto
Com Mário Bortolotto e Paulo de Tharso
Satyros 2 - Praça Roosevelt, 134
Todas as sextas do Mês de julho - Até dia 31/07
Ingressos : R$ 20

e amanhã, sábado, a reestreia.

Curta-Passagem
Texto e Direção : Mário Bortolotto
Com Francisco Eldo Mendes, Guta Ruiz, Carlos Carah, Daniela Dezan e Carla Trombini
Satyros 2 - Praça Roosevelt, 134
Todos os sábados do Mês de Julho
Ingressos : R$ 20

Deliberate Wreckage




minha amiga Bia está produzindo um puta festão em Berlin.
bem que eu queria estar lá, mas participarei daqui mesmo.

valeu, Bia.

Monday, June 29, 2009


"já andei muito por esta estrada, mas hoje ela não me levará para casa"

Igor perdeu no par ou ímpar


Depois daquele atropelamento, todo mundo passou a mão em sua cabeça e o abraçou. Pareciam se preocupar com o garoto. Ele ficou imóvel, com seu pulôver listrado ridículo de gente mais velha e sua calça bege, agora com um novo furo no joelho esquerdo. Um fio de sangue escorria da sua testa. Outro brotava de dentro da blusa, bem no cotovelo, onde sempre se rala nos estabacos, ainda bem que ninguém percebeu. Ele olhava alguns pombos nos fios de alta tensão, alheio a tudo aquilo ao seu redor. Nada acontecera. Apenas o susto do impacto. Agora ele ouvia vozes desafinadas de pessoas que pensavam que ele fosse um bebê-chorão. Vozes de pessoas petulantes que encostavam suas mãos sebentas em seu rosto dizendo que não foi nada não. E não havia sido nada mesmo. Nada. Mesmo. Embora, ali, na calçada em frente à casa da Dona Tânia, surgisse, como se ligassem uma chave, alguma coisa o avisando para ficar longe daquela gente. Longe das pessoas que fingem. Assim, pegou sua BMX e desceu rumo ao gramado, onde estava indo antes daquele palhaço virar sem olhar para os lados. Onde deveria estar, à caça de grilos. Malditos grilos.

Low - "Peanut Butter Toast and American Bandstand"

Sunday, June 28, 2009

o chicote estrala

Friday, June 26, 2009

Me deitei no acostamento. Precisava descansar. Eu tentei. Dormir de olhos estalados. Ela me disse, ontem, que era tarde demais para continuar. E ficou. Talvez eu devesse me preocupar com esses anseios. Era tarde demais. Então, desisti. É. Caminhei sem olhar para trás. E a noite escureceu. Timóteo surgiu das sombras com a garrafa térmica e uma caixa de fósforos. Ele me disse que estávamos bem próximas da divisa. Acendemos uma fogueira e ficamos olhando as estrelas. O dia havia terminado. Uma Kombi passou de faróis apagados. Apenas eu percebi. E a noite escureceu pra valer mesmo. Timóteo dormia encolhido abraçado a mochila. Passei a noite alerta. Uma vela na rodovia. Talvez esperasse. Tão sozinho. Encolhido na escuridão. Me perguntava onde ficaria o norte. Meus olhos pesavam. Eu não dormi. Ainda. De olhos fechados no escuro. Ainda. Preciso descansar. Tarde demais. Para entender o que está acontecendo comigo.

Wednesday, June 24, 2009

troubled times

sabe, a melhor coisa é ignorar.
li isso em algum lugar
livro didático infanto-juvenil gratuito direitista cristão.
coisa de seguidores da comunhão.
para àqueles que tentam ser alguém
me baseio em nunca acreditar no que os outros pensam que sou.
prefiro uma facada a um elogio.
e ficaria satisfeito se tomasse um tiro.
sem esperar ou procurar.
E descobrir, afinal, que sou ninguém.
como você.
deus, às vezes é preciso um tempo enorme para desaparecer.
faz frio.
e as ruas continuam cheias de olhos de peixe.
isso não me significa porra nenhuma.
pelo menos
para ninguém
nenhum
nem
dormi tarde e não escovei os dentes.
você me diz que está ocupada.
uma tempestade entope a cidade.
talvez.
seja verdade.
alguém me contou
ou li
que uivar é coisa de louco
que sente dor
apenas para cantar
au auuuuuu....

"The Things That I Used to Do" - James Brown

Sunday, June 21, 2009

Saturday, June 20, 2009

Hoje eu não volto pra casa. Há horas espero Iranildo. Estou cansado de lidar com a frigideira da ansiedade. Não consigo manter minhas mãos paradas. A noite está quente e venta um pouco. As moscas zumbem ao redor da lâmpada do poste sobre minha cabeça. Nenhum carro passa. Ninguém caminha a essa hora. A cidade fica bem mais atraente quando o azul da noite escurece e a Lua aparece para depois se esconder, lá longe. Todos esvaziam a cabeça em frente à televisão, ou dormem tesos ao lado de pessoas que não gostam. Ninguém parece se interessar por algo que não seja trabalho. Apenas pecadores perambulam e pescam oportunidades por ai. Cães latem para o caminhão de lixo na avenida e o semáforo daquela esquina pisca ininterruptamente no amarelo. A temperatura está ideal e minha carne gruda ainda mais nos ossos. O vento sacode o teto do posto de gasolina do outro lado da rua. A cidade opaca em preto e branco como a tela de uma câmera de segurança. Talvez Vanessa durma, ou lixe as unhas, mas isso não importa, é tarde, e, talvez, hoje eu não volte pra casa. Minha garota anda nervosa. Acho que não me tornei o que ela sonhava, nem a metade e meia disso ou daquilo. Logo, com sangue escorrendo perna abaixo, ela coloca toda culpa do mundo sobre mim, grita e arremessa objetos. Se arranha toda. Puxa, como gosto dessa belezinha. No entanto, sou um homem que não aprende. Sei apenas que as coisas não andam bem pro nosso lado. Tenho quase certeza até. E lamento, com as palmas das mãos no rosto. A rotina descascou nossa história. Afundamos na sorte. Assim, hoje eu não volto pra casa. Hoje só amanhã. Sinto uma forte azia me corroendo por dentro, como um caldo de câmbio, e estou cansado de esperar Iranildo. Cretino. Esperar cansa. Um louco numa trincheira. Qualquer coisa me cansa, até as coisas que gosto me cansam, se eu tiver que esperar por elas. Até você, minha sereia de privada, que penteia suas madeixas e balança o pé, que espera pacientemente seu pescador para em seguida o mandar ficar quieto em seu coral. Você me esgota. Seco. O vinho acabou. Já não espero mais. Levanto e desço sozinho a Consolação para ver o que encontro nas beiradas do centro e na zona de prostituição da cidade.

Wednesday, June 17, 2009

o Pinduca deu a letra:

"Saiu resenha sobre A Musa Chapada no jornal O Estado do Maranhão"

POESIA CHAPADA EM LIVRO

Em A musa chapada, poemas de Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte ilustrados por Carlos Carah apresentam novas possibilidades para a relação poesia e drogas.

POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO



[A musa chapada. Capa. Reprodução]

Não é novidade a relação entre literatura – ou mais especificamente poesia – e drogas. Não é fácil também criar algo novo nessa relação que não cheire – opa! – a apologia barata, as lições de moral da auto-ajuda ou umbiguismo autobiográfico (para o bem ou para o mal e, às vezes, também com lições de moral baratas).

Em A musa chapada [Demônio Negro, 2008, R$ 20,00 em http://www.sebodobac.com], o encontro dos poetas Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e do desenhista Carlos Carah, expande – ops! – o entendimento que se tem sobre o que é “droga” – se à menção do termo você só pensa em maconha, cocaína, crack, merla, heroína, haxixe e similares, que tal acrescentar a TV e alguns de seus programas no drugs hall of fame (principalmente a fé vendida na tela)?: “no canto da sala a TV ligada/ o pastor gritava/ (...)/ o poeta pirava/ “meu deus como pode/ tanta merda enlatada?/ que gente mais troncha/ que vida fodida/ (...)/ o real é a ilusão virtual dos que batem a cara contra o muro””, rima Ademir Assunção em A volta do anjo torto, poema com referências explícitas a Torquato Neto e Raul Seixas, dois malucos geniais.

Dedicado “à memória de Sérgio Sampaio”, e trazendo Itamar Assumpção como epígrafe, o trio dA musa chapada está bem acompanhado. Seja pelos beats, referência obrigatória em se tratando do assunto – e influência confessa dos poetas e do desenhista –, seja pelas personagens que povoam o livro: Lili Maconha, Mister Morfina, a Senhora dos Sonhos, O anjo do ácido elétrico (título de poema de Ademir Assunção), Santa Maria Joana (idem), Johnny Walker e João Bafo de Onça, entre outros, além da música de Miles Davis.

O recado de Antonio Pietroforte é direto em Poligonia do soneto III: “quem diz que a droga mata anda errado/ tampouco, acerta aquele que comenta/ “usuário dá dinheiro a traficante,/ promove, com seu vício, a violência”/ prefiro dar dinheiro pra bandido/ que vende, honestamente, seu produto/ se pago imposto, não recebo nada/ sustento deputado vagabundo/ violenta é a fala da polícia/ que fuça, no meu bolso, feito rato,/ aumenta, com propina, seu salário;/ a erva que se fuma só acalma,/ trabalho mata mais do que cigarro,/ por isso que eu fumo pra caralho!”


[Um dos desenhos de Carlos Carah em A musa chapada. Reprodução]

Nem um nem outro – nem o desenhista – ligam para o que é (ou não) politicamente correto. Dão seus recados sem transformar sua obra num apático manifesto a favor ou contra nada – a legalização das drogas, por exemplo. O que os autores fazem é apresentar a realidade nua e crua – mesmo em poemas ficcionais –, a inegável realidade da São Paulo paisagem dA musa chapada – mas não pensem que é diferente em outros lugares do mundo, bem aí do seu lado deve ter uma boca de fumo, uma “filial” da cracolândia, lugares simplesmente feios e sujos para a maior parte dos olhares conservadores. A vantagem é que ninguém é obrigado a nada.

Entre o lirismo e a ironia, os poemas de Ademir Assunção e Vicente Pietroforte tão bem ilustrados pelas “lentes manuais” de Carlos Carah são verdadeiros clipes de uma sociedade onde puritanismo é (quase) sinônimo de hipocrisia e, num circo de vaidades, (quase) todos se preocupam somente em consumir (drogas, inclusive) e produzir (por obrigação), sem olhar para o lado (leia-se, para os problemas que as/nos rodeiam), obtendo um pseudoprazer que, infelizmente, por vezes as satisfaz. A musa chapada é um tapa seguro e sonoro nesse bom-mocismo, nesse conformismo. Vai encarar?

*ZEMA RIBEIRO escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

[No Alternativo, O Estado do Maranhão, de ontem]