Thursday, November 21, 2024

Últimos dias de imundice:

Meu cachorro não vai mais rolar em carniça. 

Vou deixar a roça

Que fiQue bem claro Que é contra minha vontade

A cidade grande me chama

Ou os preços da alta temporada fizeram um estrago no meu status de pobre premium

Vou pra cidade grande me entupir de drogas boas e companhias ruins

Drogas pesadas Que me fizeram uma pessoa melhor

Vou me encher de dívidas e animar algumas festas

Voltar a ficar socado no meu bunker 

escutando lados B de discos de rock obscuros

Algo elétrico para me fazer esQuecer a porra da roça

Porém antes eu vou encarar a estrada

Toda a rodovia Que me leva embora

Perto de casa distante de longe de tudo

Como tudo isso é cruel.

E me machuca. 

Deixar você pra trás, Shena




Melhores de 2024:

- Manning Fireworks - MJ Lenderman

- I Wanna Run Through Your Hair - Christopher Owens

- Three Bells - Ty Segall

- Cartoon Darkness - Amyl & the Sniffers

-  

Tuesday, November 19, 2024

O retrato de um artista direitista em franca decadência

Eu imagino o braga nety numa cela mal iluminada sendo currado por Tonhão, um trafica pocas ideia de 2m de altura. As unhas do milico raspam o chão de concreto enQuanto ele se contorce e me encara. Não consigo definir se ele está sofrendo ou morrendo de prazer. Sexo é assim. Estou sentado no canto escuro. A luz fraca do ‘boi’ ilumina essa cena grotesca. Como estou sem sono, mantenho meu olhar perdido, sem deixar de perceber a sodomia escrachada Que acontece nessa madrugada. Cachorro Molhado, um detento Que foi preso assaltando um coletivo, dorme profundamente encostado em mim. Somos 49 pessoas num lugar QUe supostamente deveria receber 20. Félix está com HIV e permanece o dia inteiro enrolado em seu cobertor. Dênis tá fumando pedra. Não tem nada pra fazer aQUi. Mas desde QUe o braga nety chegou as coisas mudaram. Entramos numa orgia de sexo e drogas. Sexo fazemos com a bunda pelancuda desse golpista. Drogas, compartilhamos. Diante dessa crise climática sem precedentes, vamos comer o cu desse general golpista para aplacar nossa angústia.

….

Thursday, October 10, 2024

lutas de boxe entre influencers, coachs neocrentistas e jovens de direita. investidores de bets, dançarinos de redes sociais. netanyahu transformando o oriente médio​ num grande estacionamento. ​não sei se consegue ficar pior que isso.

zolpidem, diazepam e clonazepam: nem um coquetel dos três consegue me derrubar em sp. vivo em estado de vigília. os dias escorrem como espectros, manchas brancas na janela suja, tudo se move, como se eu assistisse televisão​ pela janela de um carro em alta velocidade. dizem que a amazônia vira um deserto, o saara está alagado e um furacão chamado milton castigou a flórida. parece que o mundo está além de qualquer esperança.

algumas noites sem dormir. sem os cachorros. mais ansioso e sonolento. com pressa em câmera lenta. a erva daqui é muito mais poderosa​. caminho pra casa com o pôr do sol quase no fim. Subo a cardeal e uma muralha de concreto de edifícios projeta a sombra que encobre a rua. apesar dos prédios novos, as calçadas estão mais esfareladas que a faixa de gaza. anúncios de apartamentos de 24 metros quadrados estão espalhados pela rua como cartazes numa passeata festiva. um SUV prateado sai de uma garagem com um fortão com o braço coberto de tatuagens tristes. Tecnologia e segurança. ele nem olha para os lados. as rodas de liga leve trituram um pouco mais o calçamento. a vizinhança mudou. Os cachorros têm sorte de estarem bem longe daqui. ​a gentrificação é um deus sem piedade.


Wednesday, October 09, 2024

Máquina de moer

 Na dúvida se entro numas de fazer uma expo ainda esse ano. Desovar essas paradas que produzi nos últimos anos. O preço das molduras consegue superar o das paradas que produzi nos últimos anos.

Tuesday, September 17, 2024

Eu poderia alegar um enorme ocaso, um hiato esticado, férias eternas dessa porra, mas o que aconteceu mesmo é que consegui recuperar a senha dessa bagaceira nojenta. Nem ao menos sei se continuo a mesma pessoa das milongas abaixo, nem imagino se realmente vou continuar atualizando. Fica o teste.

Alguns acontecimentos:

Amyl desgraceira.

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Estamos em ação com uma peça de 2012 (se vasculhar aqui deve ter algo sobre). Bons tempos de Frei Caneca, quando meu estômago ainda me tolerava.





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MJ Lenderman deve ser obcecado pelo Jason Molina.

Kurt Vile ainda me dá vontade de beber, porque suas músicas me lembram dos meus amigos suicidas.

Aqui uma playlist de um tempo recente.

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Espero que ninguém leia isso.





Wednesday, February 24, 2016


Wednesday, December 23, 2015

dessa vez eu peço uma trégua. a estrada não me deixa dormir.
o ano foi um trator, um caminhão betoneira. não consigo avaliar nada depois de tanto trabalho loucura e álcool. a frenesi precisa baixar uma hora, seja com álcool, sexo ou um monte de porcaria. a mão pesada da ansiedade me chacoalha como uma garrafa pet cheia de gás. se eu tivesse forças poderia explodir. mas dessa apenas vez peço uma trégua. eu não posso dormir nem parar o formigamento. sleepwalking. a estrada me chama. eu a enxergo quando fecho os olhos e não consigo descansar. dizem que o mundo está acabando. não vejo mal nenhum nisso. quero minha garota no banco do passageiro, a magnolia elétrica, um crivo na canhota. o vento seco do nardeste. o asfalto. eu quero descobrir o tamanho da lua que afunda no céu.

Wednesday, October 01, 2014


assim, esta série não passa de uma desastrosa reunião de momentos solitários e extremamente íntimos e de má sorte expostos sem ressentimentos. enquanto o tráfego começa a mover suas engrenagens. enquanto os coletivos freiam e rangem como lesmas hesitantes na banguela da Cardeal. a vizinha se apronta para chegar à tempo no emprego no hospital. a luz da cozinha muda, as sombras diminuem no assoalho. enquanto tudo nasce eu canto na cozinha com uma caneta cravada num pedaço de papel. minhas costas estão completamente empenadas e na minha frente algo encharcado de tinta está estirado entre meus braços, frascos de aguada, pinceis, garrafas vazias e um cinzeiro transbordando. algo expelido num momento solitário e que está ali para me alertar que outra manhã imunda me aguarda.

Saturday, September 27, 2014


por aí com pinta de fugitivo de hospício. tava apenas pensando no disco novo daquela banda de frisco e nos nomes dos remédios que a gente era apaixonado. juro que não percebi que era mesmo você parada ali na calçada. a cidade toda molhada e brilhando como uma viagem atormentada de ácido. você e os pingos flutuando através da luz elétrica. seu vestido balaçando como uma bandeira branca na borda de uma trincheira. É solitário por esses lados, você me disse. vamos dar uma volta. vamos até aquele bar. onde sempre tem alguém chorando no balcão. aquela paródia de purgatório. onde os cachorros do inferno estraçalham o lixo dos banheiros. eu sei que eu nunca vou conseguir superar a perda da frágil segurança da minha solidão. seus drinques de veneno. seus dentes de leite. seus tênis rabiscados. ri quando você me falou que aquele senhor balança as pernas como uma galinha antes de cagar. caminhamos madrugada adentro num silêncio flamejante. pessoas gritavam das janelas dos edifícios invadidos. foi só quando passamos por baixo do viaduto, sob um intenso brilho vermelho, que eu percebi as lágrimas. um banho de lágrimas encharcando seu rosto com toda a tristeza que existe. as ruas não pareciam nada bem. elas nunca parecem. por isso voltamos sempre para aquele lugar.

Tuesday, March 04, 2014

terminei de ler a biografia do Syd Barrett e, em certo momento da madrugada, eu entrei no UOL e me deparei com uma enxurrada de subcelebridades com dentes de mentex e roupas brilhantes e axilas aparentes e então eu achei melhor colocar as músicas do Madcap e me senti sendo digerido pelo intestino de um cachorro andando perdido em St. Margareth Square e a ideia de ficar em casa sozinho à noite pra sempre nunca me pareceu tão atraente.

Thursday, December 26, 2013

cadeira

deixei spdrama pra trás no começo da madrugada de ontem. a fernão dias escontrava-se movimentada e fluindo como um multiball numa máquina da pinball. caminhonetes e palios surgiam ao redor da minha barca, que tem som estéreo agora, e meus ouvidos estão zunindo como uma pancada num nervo. percebo isso deitado com o peito cheio de catarro na cama do sítio; a janela escancarada por onde entra a luz do sol matutino e as moscas graúdas e ruidosas que brotam no riacho que corre ao lado. estou me procurando nesse primeiro dia de estrada. estava tão ansioso pra isso que hoje acordei aqui na divisa de estado SP/MG e me senti extremamente melancólico. o trajeto de carro ontem foi realmente muito curto. sequer tive certeza que estava mesmo numa BR. tudo ao redor de são paulo ainda parece são paulo. você precisa rodar pelo menos 300km para estar livre da teia da cidade monstra. minha insatisfação com a decadência e o obscurecimento do meu espírito já vinha me atormentando desde a metade do ano. a vontade de cair fora começou a incomodar com uma paranóia. eu vou cair fora, eu pensava todo dia enquanto voltava pra casa transtornado no começo da manhã. Ficar longe durante um breve período para procurar algo que eu nem mesmo sei se ainda existe. esfregar toda sujeira que está incrustada em minha alma. anúncios de outros mundos. Alguns chamam isso de férias. Tá mais pra trégua, distanciamento voluntário. Não sei se preciso enfrentar algo ou me tornar um fugitivo das trevas interiores, à vontade para tomar decisões arriscadas. Quero mais é que tudo se foda lentamente. Tenho apenas a certeza que preciso atravessar estradas secundárias através do nordeste árido brasileiro, onde as árvores são mortas e o asfalto esfarela como uma casca ressequida, até chegar a porra do litoral, onde eu possa me refestelar com muita muita coisa da pesada. Porque a vida deve ser da pesada. a estrada. Um lugar onde eu posso me tornar uma pessoa pior por opção, não por uma necessidade intoxicante. Um lugar sob um céu bravo e o vento que sopra a favor. Onde os caminhões soam como o arroto de deuses. Uma rota com curvas ameaçadoras. Uma música alta nos falantes. Pra depois fugir de novo com meu pé de chumbo no acelerador e um cigarro na canhota. Deixo o mundo me esquecer um pouco. Sei que existe um destino me esperando, mas eu não me importo, pois eu minto, como agora, e eu mudo de planos em qualquer encruzilhada. Quero apenas enfrentar a estrada, o incógnito, a solidão onde começa a vida e onde surge a morte. Eu volto depois. Ou não.

Friday, September 20, 2013

a conta

Um prato cheio de sangue. O mapa de carne crua num planeta de louça branca. Os dentes que dilaceram a fúria de estar com uma garota aprisionada na tela do celular. A valsa solitária do garçom. O tilintar oco submerso de talheres mal afiados. O uivo silencioso do animal morto com uma toalha no colo. Alimento com espinhas que matam o que alimenta.

Monday, September 16, 2013

caixa de sapatos #31

me interesso em saber o número de vítimas de uma tragédia. gosto de ver os familiares de pijamas e suas fotografias em alta resolução com olhos vermelhos e suas bocarras murchas e suas obturações. prefiro celebridades que ganham peso após embucharem. gosto de saber sobre acidentes de trânsito fatais. gosto de ver as fotos. rebeliões em presídios com reféns decapitados e colchões em chamas. gosto do incêndio e suas labaredas. o cheiro de cabelo queimado. acidentes de avião. gosto de ver notícias sobre pessoas sendo enxotadas de suas casas na espanha. tiroteios em escolas primàrias. me lambuso de prazer quando algum atleta mata sua namorada por ciúme. não me reconheço de tanta alegria com atropelamentos e suicídios. velhos esquecidos em bancos de praça. rio dos alertas do dr. dráuzio varela. assisto assassinatos. programas evangélicos com pastores milionários rindo e gesticulando para um bando de fiéis que pedem para levar em seus roscofes sagrados. chacinas em bodegas de periferia. blitz efetivas. coletivos carbonizados. fartura na cracolândia. violência e misérias. doenças venéreas. rios entupidos de merda e produtos químicos e pneus. visualizo sua mãe de quatro cheia de varizes e manias de excesso de realidade e ansiolíticos e fico de pau duro. ataques do coração durante anestesias em clínicas de lipoaspiração. nada me diverte mais do que ver os outros se foderem com tacos e crânios esmagados em estádios de futebol. cachorros de celebridades mortos. famílias desestruturadas. deslizamentos e enchentes. falta de vagas em hospitais. comerciais da tim e da brahma com gente bonita e depilada definitivamente. tombos e estabacos. espancamentos desleais e tortura. agressões homofóbicas na avenida paulista. travestis desfigurados e prostitutas infectadas espalhando vírus. claudia leite. ciclistas de capacete impressos no asfalto. silicones que explodem em silêncio. políticos de terno no verão achando tudo normal. gente legal que não dá certo. germes e berrugas protuberantes. pombos aleijados. cheiro de mijo nas ruas. aguardo ansiosamente por acidentes. sangue fresco. venero a morte. gosto de me imaginar flutuando nela de braços abertos num córrego canalizado. a glória de hoje é assistir à derrota. que se foda bastante e que minhas palmas soem como uma tempestade de granizo num telhado de amianto.

Tuesday, September 03, 2013

any way you choose me we won't be long

"Você sabia como eu me sentia quando fechava a porta do quarto num domingo qualquer. Quando o tempo escorria e girava na sala com o televisor ligado no programa razoável da emissora mor. Enquanto vocês riam do apresentador e suas tiradas. Você sabia como eu me suportava. Eu sou você com outro nome. Até os 14 anos eu me esforcei para ser a pessoa mais desprezível daquele terreno baldio. Ali ninguém me viu dormir encolhido como um pacote numa sombra. Mas você percebia através da sua indiferença que eu morria devagar. Descobri substâncias que acalentavam a minha fúria de existir em lugares onde não deveria estar. Talvez isso fosse um alívio pra você. Eu e meu chiado asmático desafinado. Meu grito inflamável entupido através da noite, esperando pelo seu colo na escada de concreto de escola estadual Eu nunca dormi, mãe. Sempre esperei teu amparo. Eu vi você ir embora. Sempre tive medo e vergonha de admitir ser o que eu sou. O cansaço sempre foi meu estado natural. Meu vício. Uma maneira de me gastar mais depressa para desaparecer antes. Sozinho em tardes secas. Todas as vezes que eu praguejava seu nome em manhãs cinzas eu gritava de pavor. Todas as vezes que eu fugia e procurava amigos que não existiam era uma forma de tentar te encontrar. O desespero pueril de apagar antes de explodir. Eu andava por aí apalpando muros rebocados. Eu sabia no que você pensava: em nada. Éramos tão estranhos. Mas você se vingava. Eu não te conheço apesar de ter sido cuspido do seu ventre. Fui esfregado no cascalho apenas para escutar à verdade de ter sido um acidente que insistia em continuar acontecendo. Eu ainda posso sentir o cheiro daquelas manhãs. Quando ficar na fila da matrícula era algo para ser lamentado em almoços e almoços e almoços. Como deve ter sido difícil. Conceber algo que deveria ter sido expectorado. Uma farsa. Placenta de plástico. Uma charada. Uma vergonha. O garoto nada. Que roubava da sua própria carteira. Que atrapalhava o sossego de quem chegava cansado em casa. De quem chegava em casa. Eu sentia muito medo de quem chegava em casa e vinha em minha direção. Ao contrário dos seus cachorros dóceis, eu não fazia festa quando você chegava em casa. Eu esperava seu vacilo para te roubar. Eu sou um monte de raiva. Um sujeito que usa o amor como se assoasse o nariz num guardanapo transparente de televisão de boteco. Que se apega ao desespero apenas para estilhaçar tudo no final. Eu sou a pessoa que odeia fazer as coisas que gosta. Eu sou a coisa. Que nasceu e cresceu e agora derrete e se olha no reflexo das coisas brilham e se lembra de tudo. Da ausência. Eu sinto esse frio de quem rouba e escapa e que fica drogado e cheio de febre sexual e já não tem mais medo e que não vai mais voltar pra casa e que vai morrer sozinho com os dentes intactos" Lou Barry

Saturday, December 22, 2012

por mais que eu fuja das sombras dos prédios, tudo termina num beco sem saída. numa nuvem escurecida pela nostalgia. na cidade que tem o poder de esmagar um homem que cultiva o ontem, salto no abismo. não me lembro onde tudo isso começou. As mentiras brutais. meus amigos nunca me abandonaram. nem mesmo quando desabei. tem vez que a gente se coíbe. Esse lado obscuro que apenas àqueles que enxergam os ninhos do embuste percebem. o lado perdido. O engano da massa ruminante ávida por sangue coalhado. quando minha origem é um grupo de suicidas massacrados que flutuam de braços abertos num córrego canalizado que escorre rumo à periferia da alma. prefiro a companhia desses fantasmas à falta de sonhos. o fim de tarde sangrento e o trafego nas avenidas principais. o céu nublado torna-se noite. e seguimos. fluímos. em sombras melancólicas. a triste beleza. a calamidade eterna como opção. o nojo da sociabilidade. ando melancólico. vago pelas ruas sozinho numa fusão sofisticada de belos sentimentos contraditórios e profundos. idolatro minha dor. uma mágoa doce. tento prolongá-la. demoro dentro dela. respiro melancolia nesses dias de furacão. e cavo em silêncio o abismo que existe entre mim e a pessoa amada.

Saturday, December 08, 2012

Nessa síndrome de escapismo aceleramos pelas rodovias federais durante 21 horas seguidas. Eu não fazia idéia. Eram cânions. Era o norte. Foda-se. Era ali. Seus olhos em minha cabeça. O melhor hotel barato. Era o posto de gasolina amigável com cerveja gelada. Era calor pra caralho e você bêbada rindo de longe. Depois era onde entrei com o carro no estacionamento de cascalho fino de um motel esmagado pelas intempéries do tempo. Eu tinha uns pensamentos ruins. Meus olhos latejavam dentro da minha caveira e meus dedos estavam rijos de tanto pressionar o arco do volante. Já era noite havia muito tempo. A chuva martelava o teto do carro. Eu tinha uns pensamentos que queria dividir com você. Eu parei o carro e você abriu a porta para mandar um jorro fino de vomito no chão. Fiquei assistindo as gotas da chuva atingindo os cabelos desgrenhados da sua nuca. Você reclamou da náusea sacudindo as mãos como uma mímica. Bebeu mais um gole da garrafa. Na recepção, dois sujeitos assistiam à programação noturna dos canais abertos da televisão. Um deles, prateado, pareceu não nos notar, mas o segundo se levantou e veio nos cumprimentar. Era um senhor magro de sotaque forte. Imaginei que devíamos estar perto do Pará. Queremos um quarto. Precisamos de um quarto e de um chuveiro, você disse. Completamente linda e transtornada. Podem escolher, tem ninguém aqui faz mais de duas semanas, disse ele. Nem amigos passam por aqui mais, completou. Escolhemos um apartamento encardido no fim do corredor do segundo andar. Parecia longe. Talvez o mais distante da recepção. Parecia nosso. Pagamos quatro dias, à vista. Não perguntei sobre o café da manhã. A janela emoldurava a rodovia. O letreiro de neon projetava sua luz azulada. A cama de madeira estava feita. A colcha de retalhos cobria um colchão magro. A televisão de 14 polegadas pendia no suporte ao lado da porta do banheiro. Uma mesa e uma cadeira estavam dispostas próximas à janela. Você correu para o banheiro e fechou a porta. Eu acendi um cigarro e fiquei assistindo a chuva cair no estacionamento. Pelo cone formado pela luz do poste eu podia ver as gotas cintilando como laminas de cristal. Liguei a TV e tirei meus sapatos encharcados. Nessa sua síndrome de escapismo você sequer notava minha presença. Deitei minha cabeça no travesseiro e dormi. Eu queria sonhar com Éden, um lugar onde os rios não fossem de asfalto. Onde o amor nunca morre. Onde o peito não explode. Quando acordei tudo estava vazio. Senti falta de casa. Vi seu corpo esparramado no canto da cama. O letreiro de neon piscando sobre suas veias aniquiladas. Sua boca semiaberta com um cigarro pendendo pregado com baba seca no lábio inferior. Peguei seu braço esquerdo e percebi sua mão retorcida pelo rigor mortis. Seus olhos estavam abertos e encaravam a cabeceira. Eu os fechei delicadamente. Apaguei o abajur. Me levantei e recolhi todos os apetrechos espalhados pelo chão. Conferi o que restou. Era suficiente até uma próxima parada. Eu falando sozinho. Enrolei tudo numa camisa velha que coloquei na mochila. Abri a janela e uma lufada de ar fresco entrou. Não fazia idéia de que horas eram, mas deduzi pelo vespertino. O sol brilhava em partículas, em ondas. Muitos pássaros voejavam ao redor de uma figueira frondosa como a longa cabeleira de uma mulher afogada. Debaixo do chuveiro talvez eu tenha chorado, não posso garantir. Lembro de ter pressionado minha cabeça com as duas mãos num grito mudo. O seu corpo enrijecido na cama. Os músculos pareciam mais soltos. O nó da existência desatado lentamente. Beijei seus lábios secos, a boca, seus seios. Senti vontade de abraçá-la, de fodê-la com toda raiva. Peguei as chaves ao lado cinzeiro de plástico derretido pelos cigarros esquecidos que transbordavam pelo criado-mudo. Da janela do segundo andar me apoiei de frente pra rodovia. Lancei meu corpo e aterrissei no cascalho. Meus sapatos esmerilhavam as pedras enquanto andava até o carro. Notei a TV acesa na recepção. Percebi a silhueta de dois homens no sofá. Entrei no carro e girei a chave. Saí de ré, suave, sem qualquer alarde. Minha síndrome de escapismo. Éden. Engatei a terceira numa curva acentuada. Nem percebi quando o motel sumiu no retrovisor. Eu não pensava em voltar para casa. A vida é uma puta.

Wednesday, November 28, 2012

numa pintura de Edward Hopper. num cisco no olho esquerdo. apoiado no balcão do bar com a cabeça rodeada pela fumaça azul de cigarro. meus cabelos envoltos. numa sala escura de um sobrado desleixado; a TV no mudo ilumina as almofadas manchadas de vomito. eu sou o sujeito que toca as cordas do violão com as unhas manchadas de nicotina. Jeff Buckley fuma ópio em algum lugar do planeta. em paisagens com posto de gasolina abandonado. no meu reflexo no pára-brisa rachado do carro. num continente de plástico. numa ilha. eu vejo Thelonious sozinho atrás do piano. eu ouço Magnólia Electric Co. cheio de afetação. eu me ceguei outro dia. cavei buracos em minhas pálpebras com uma colher. eu estava elétrico. algo coçava dentro do meu olho esquerdo.

Thursday, October 18, 2012

Inda bem que não é tarde demais para recuperar a merda toda. Eu sempre gritei pelo mesmo nome de mulher enquanto cambaleava por uma rua deserta com uma música dentro da cabeça. Talvez a mesma. Nunca enxerguei claramente. Hoje à noite tou à toa cheio de números e estampas pregados na carne. Sou um inseto numa calçada. O31789541376572984637. Eu fujo de terceira. Ricocheteio pelas paredes como um cupim que dança a valsa do idiota e mergulha numa lâmpada. Eu que sempre achei o céu brilhante demais pra mim. Hoje prefiro luzes elétricas e as sombras. Eu moro num canto famigerado da cidade. Mas frequento sempre a cloaca central. Lá me sinto tão confortável como quando estou sozinho trancado em casa. Cheio de eletricidade. Eu preciso da cidade. Tem vezes que eu dirijo por aí. Sempre pelos mesmos lugares. Os mesmos caminhos. Quando eu quero. Eu faço isso. E têm vezes também que eu misturo um monte de coisas e faço tudo ao mesmo tempo. Nas ruas e em casa. E foda-se se alguém acha isso errado. É tudo que tenho. As ruas e a minha casa. Nunca enxerguei claramente. Eu dirijo por aí. Eu não me importo de ouvir a mesma canção repetida um milhão de vezes dentro do carro, sem esperar ela acabar pra começar outra vez. Eu não espero acabar pra começar outra vez. Eu não espero acabar. A mesma merda de música. Acontece agora ainda. Isso sou eu. Um idiota quadrado. Razoavelmente. Bem melhor que você. Sujeito padrão que se acha o máximo. Não mexa comigo. Quando eu for para as montanhas poderemos viver numa boa. Não troca ideia comigo. Não existe nenhum jogo da minha parte. Apenas mantenha distância. Eu preciso da cidade para dançar minha última valsa idiota. Quando eu for pras montanhas então haverá paz.