Wednesday, May 07, 2008

encontre-me na cidade


"filho, os malucos sem náipe pegam muito mais mulher"

Uma coisa leva à outra. Cheguei na Fat Possum procurando vinils do Black Keys, mas antes andei pesquisando sobre o tipo de porcaria que esses caras mastigaram para chegarem ao que se tornaram. Descobri numa entrevista na net que a principal coisa que eles ouviam enquanto faziam a lição de casa era Junior Kimbrough - eles lançaram até um EP só com músicas do negão casca-grossa. Até 2 semanas atrás, nunca tinha escutado bulhufas desse bluesman, agora seu som não sai da minha cabeça. Nascido em 1930 no norte do Mississippi, longe das margens do Delta e das plantações de algodão, aos 8 anos teve seu primeiro coma alcoólico e aprendeu a tocar guitarra sozinho. Como todo bluesman que se preze, o cara tem uma história incômoda como dor de dente no frio. Aquelas velhas mazelas dos resquícios da escravidão, o abandono dos pais, a miséria e a necessidade e, lógico, o forte amor pela música. Pelo que pesquisei, em 1954, Kimbrough ruma para Chicago numas de tentar a sorte, arruma uma caralhada de subempregos e tenta gravar uma música com Sam Phillips, o chefão da Sun Records. A tentativa foi em vão. Logo ele pega sua suitcase e volta pro Mississippi, senta na beira do rio, toma um trago e decide abrir uma juke joint, um desses barracões onde os negões faziam festas com som ao vivo e era uma diversão do caralho. Ele tenta gravar novamente por outro selo e... nada, de novo, por isso dedica-se ao seu humilde pub, onde pode tocar pra quem quiser ouvir e pau no cu do mundo.
Somente em 1979, um professor de música da Universidade de Memphis, que havia visto Kimbrough tocando em sua espelunca, convida-o, junto com Jessie Mae Hemphil e R.L. Burnside (se liga na nata) para gravar algo para um selo que ele estava inaugurando, o tal do Fat Possum, que na época era voltado para um blues mais tosco, de poucos acordes, muito groove e bateria simples e marcada, fugindo do que estava acontecendo com o gênero naquele momento, aquelas fusões grotescas de rock bosta e blues cheios de solos da moléstia e total falta de postura. Essas gravações ficaram encalhadas até 1992, quando um tal de Robert Palmer, que estava fazendo um documentário sobre o blues do Norte de Mississippi Hill - um canto do estado onde o gênero e seus músicos eram pouco conhecidos apenas por puro desalinho - bateu de frente com o som de Junior Kimbrough e gravou seu primeiro albúm "Do The Rump", que fica mais uma vez encalhado e esquecido. Esses dias, eu, tentando prestar atenção na música, ao invés de apenas aproveitar, dentro do carro de madruga onde o som alastra minha mente, percebi que o blues de Kimbrough é um tanto estranho por natureza, algo que ele buscou nos primórdios não tão distantes de seus irmãos de sangue que empunhavam suas violas em cadeiras de balanço nas varandas de madeira podre com vista para as plantações, de Blind Blake e Skip James e Furry Lewis, na sua levada hipnótica e sonolenta como um barato forte, como o som de uma tribo africana em chorosos cânticos fúnebres. Eu tive essa impressão. Não, na verdade, eu vi isso, caralho.
Quando o filme foi lançado e apresentou o estilo de Kimbrough ao mundo, ele já fazia aquilo havia mais de 40 anos. Somente assim seu primeiro álbum foi lançado e as pessoas o perceberam. Daí a revista de mauricinhos maquiados Rolling Stones o considerou o melhor disco de blues da década. Daí Junior Kimbrough caiu nos braços dos roqueiros, daí sua juke joint passou a ser freqüentada pelos Rollings Stones que pagavam drinks para todo mundo e sorriam; e o Sonic Youth; daí o boca-de-subaco Bono Vox também costumava mostrar sua bunda mole por lá; Jon Spencer ficava no balcão em silêncio, martelando sua bota no piso no mesmo ritmo.
Nessa época, Kimbrough já se encontrava bastante judiado pela idade, não podendo mais encarar uma turnê, embora não faltassem convites. Ainda assim, Iggy Pop o convenceu a fazer uma canja em seus shows pelos EUA. Em 1998, Junior morreu de ataque cardíaco assistindo TV no sofá de casa. Seus filhos continuaram cuidando de sua juke joint, até que um dia, no ano 2000, ela foi consumida por um incêndio premeditado que levou tudo, discos, equipamentos, gravações raras e pôsteres originais. A única coisa que sobrou mesmo foi sua música, que vaga por ai e atinge uns otários como eu, que estou aqui agora, novamente, sendo castigado por uma noite mal dormida e pela voz de trovão desse desgramado. Até aqui tudo bem. “I Feel Allright”. (baixa essa, eu tô mandando, ou vá se foder)
Na fissura de vasculhar algum arquivo do maluco no rapidshare, sem querer encontrei um tributo ao cara, lançado em 2005, seis anos após sua morte, que possui um absurdo de companheiros fazendo versões igualmente absurdas. Tem lá Blues Explosion, Iggy Pop & The Stooges em 2 versões porretas de “You Better Run”, The Fiery Furnances fazendo miséria em “I’m Leaving”, e Mark Lannegan, pra citar os mais conhecidos. Ah, não tem o Bono não. Vai na fé.
*esse texto foi revisado bem por sima.


"God Knows I Tried" - Junior Kimbrough (rapidshare)
1. You're Gonna Find Your Mistake
2. How Do You Feel
3. I Gotta Try You Girl
4. I'm In Love With You
5. I Cried Last Night
6. Keep On Braggin'
7. Tramp
8. All Night Long (instrumental)





1. You Better Run Version #1 - Iggy and the Stooges
2. Sad Days Lonely Nights - Spiritualized
3. Meet Me In The City - Blues Explosion
4. Done Got Old - Heartless Bastards
5. My Mind Is Ramblin' - The Black Keys
6. I Feel Good Again - Pete Yorn
7. Do The Romp - Entrance and Cat Power
8. I'm Leaving - The Fiery Furnaces
9. All Night Long - Mark Lanegan
10. Release Me - Thee Shams
11. Done Got Old - Jim White
12. Lord Have Mercy On Me - Outrageous Cherry
13. Pull Your Clothes Off - Whitey Kirst
14. I'm In Love With You - Jack Oblivian
15. Burn In Hell - The Ponys
16. You Better Run Version #2 - Iggy and the Stooges

deus, tenha misericórdia

Pai do céu. Fudeu. Descobri uma porcaria que vai rasgar meus fundilhos. Olha essa porra de selo. Só têm desgraça. E em vinil ainda por cima. Desses pra dar uma orelhada segurando a capa com um sorriso que vara a cara. Sozinho em casa. Cola até uns encostos pra escutar junto. Vá lá conhecer a lendária Fat Possum, gravadora que abriu as portas em 1979 e logo de cara lançou R.L. Burnside, Jessie Mae Hemphill e Junior Kimbrough, tirou os caras de suas escondidas juke joints e os colocou nos ouvidos do mundo. Hoje o cast oferece coisas mais recentes como os malucos do Black Keys, Fiery Furnance, Dinossauro Jr. E aproveite que eles disponibilizam uma caralhada de MP3s para baixar, como esses aqui:

“Old Black Mattie” – RL Burnside (direito, salvar destino como...)

“Hard Row” – The Black Keys

Monday, May 05, 2008

COYOTE


Coyote espreita Codrescu, Bolaño & cia em novo número


Entre os destaque da revista de literatura e artes estão dossiê com o escritor, poeta e ensaísta Andrei Codrescu (Romênia, 1946), poemas do chileno Roberto Bolaño, mais conhecido como prosador, a poesia de Fernando Karl e Veludo negro, uma mini-antologia com seis jovens poetas brasileiras. Também traz o desenho de Carlos Carah, traduções de Gertrude Stein e as prosas à margem de Carlos Carlaccio e Rubens K , entre outros

"A ironia me parece um poderoso artefato para desativar a realidade. Agora vejamos, o que acontece quando vemos algo que tínhamos visto, por exemplo, numa fotografia e de repente vemos de verdade? É possível ironizar sobre a realidade, não crer nela, quando estamos vendo algo que é verdade?". É sob o espírito desta citação de Enrique Vila-Matas, editorial do número 17, que Coyote, revista de literatura e arte editada em Londrina (PR), chega a seu décimo-sétimo número, depois de ter publicado quase duzentos autores (escritores, fotógrafos, ensaístas, tradutores do Brasil e de diversas partes do mundo). Em seus cinco anos de atividade, completados com o número 15, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, além de resgatar e apresentar nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, incitando à reflexão e à criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina.

Um dos destaques do número é o dossiê "Caçador de Diferenças", com o escritor Andrei Codrescu (Romênia, 1946), inédito no Brasil, em entrevista feita a Rodrigo Garcia Lopes, além da tradução de quatro capítulos de seu livro (prosa) Zoombification, traduzidos por Kátia Hanna. Como escreveu Lawrence Ferlinghetti, "Codrescu sempre dá um jeito de criar um desejo ardente pelo que é subversivo — algo extremamente necessário nesses tempos de 'fascismo amistoso'".

Coyote 17 também apresenta os poemas do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), mais conhecido como prosador. Sua carreira meteórica foi marcada pela fundação do movimento mexicano infrarrealista nos anos 70. Apesar de mais conhecido como romancista (Os Detetives Selvagens, 2666, De Noite no Chile, entre outros), Bolaño era uma espécie de poeta da prosa, tendo publicado dois volumes de poesia: Los Perros Románticos e La Universidad Desconocida.


A nova ficção brasileira também está presente no número com os textos de Rubens K. E Ricardo Carlaccio.


A modernista norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) traduzida e apresentada por Luci Collin, é também um dos carros-chefes do número, que traz ainda a antologia Veludo Negro: uma seção que mostra a força poética de seis jovens autoras brasileiras: Ana Rüsche, Bruna Beber, Izabela Leal, Lígia Dabul, Luana Vignon e Monica Berger,


O desenhista Carlos Carah também mostra seus traços, num número que tem ainda poesia visual de Vinícius Lima e poemas de Fernando Karl. Na Contracapa, o Movimento Contra a Lei Seca.


COYOTE é uma publicação da Coyote Edições, editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras. Tiragem de 1 mil exemplares.

COYOTE 17 // Outono 2008 // 52 pgs. // R$ 10 Uma publicação da Coyote Edições.
Vendas em livrarias de todo o país ou pelo site: http://www.iluminuras.com.br/
email: revistacoyote@uol.com.br e rgarcialopes@gmail.com Fone: (43) 3334-3299 – Londrina.: revistacote@uol.com.br


PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA (PR)

hoje


Jezebelle

Talvez eu ainda encontre aquela garota. Que desceu do meu carro no meio do escuro da estrada. Berrando como uma louca em dia de visita no hospício. Inventando mentiras desconexas em balbucios ininterruptos. Talvez eu ainda encontre aquela garota. Que rodopiava no meio da 14 Bis toda mijada. Segurando rosas murchas e abraçando estranhos na calçada. Às 4:53 da madrugada. Talvez eu ainda encontre aquela garota. Com os lábios descascados pela secura do ar. O corpo coberto de hematomas como uma dálmata mestiça sem lar. Pedindo um trocado para comer rochas que brilham no escuro na porta do bar.

Tuesday, April 29, 2008



Ontem li na Folha de SP a opinião de um playboy babão sobre a Virada Cultural – que uma amiga apelidou de Cambalhota Cultural. Nela, o sujeito, um tal de Gustavo Piqueira, reclama que um ‘mar de mijo’ invadiu as ruas do centro. Pimpão. Acho que ele só havia dado umas pernadas por aquelas bandas através do Google Earth. Ficaria impressionado se ele dissesse que o centro cheira à Jasmim. Hoje mesmo, fui até lá com o motoboy aqui do trampo. Engolindo monóxido de carbono descemos a Consolação no regaço pelo corredor de ônibus. Daí paramos num prédio ali na 7 de Abril e ele subiu pra protocolar uma papelada. Eu fiquei ali fumando um cigarro e andando em círculos até que pisei na merda de um cara, ao lado de uma árvore. Limpei a bota raspando a sola num poste, sob os olhares de um velhinho sentado naqueles bancos anti-mendigos. Não pude deixar de rir. Não é todo dia que se pisa numa bosta humana. Depois, Piqueira, o indignadinho, crítica a molecada que ‘turbina garrafas PET com birita’ num evento gratuito com música ao vivo no centro. Francamente, esse cara deve ter nojo de buceta. “Ai, que fedor!” Quê que ele quer? Tacinhas? O engraçado é o último parágrafo, onde ele questiona e responde as próprias perguntas. Parece uma tia.

o estalo do chicote

A banda CICRANO - dos camaradas Cabeça, Gui e Andrezão - faz hoje sua primeira apresentação ao vivo.

Monday, April 28, 2008

é o diabo aqui ao meu lado

Descobri agora, lá no Pitchfork, que Bonnie ‘Prince’ Billy lança um álbum novo só de inéditas no dia 19 de maio. Logo logo. Colocaram até o link para uma versão demo de uma das músicas do disco*, e o de um vídeo bem babaca. Agora, aproveitando o ensejo, coloco aqui o link do clipe de uma das minhas músicas favoritas do barba-ruiva. “Horses” foi gravada pelo Palace Brothers há um bom tempo atrás. Quando viajei para o Chile de carro há quase um ano, ouvia essa porra o tempo todo, tinha tudo a ver com as paisagens. Ela é daquelas músicas que quando toca no carro, naqueles estradões de meu deus, ninguém abre a boca, mesmo não a conhecendo, fica ali rodopiando no ar enquanto a estrada é percorrida e uma daquelas scanias gigantescas de 10 toneladas cruza o sentido contrário. Foi engraçado descobrir esse vídeo, uma espécie de road-clipe irmão caminhoneiros Shell na neve, com um cachorro husky na boléia e uma pá de caminhoneiros rednecks.

* “So Everyone” – Bonnie ‘Prince’ Billy


A Pixel colocou à venda o 5º volume do Preacher “Guerra ao Sol”.


dá uma olhada nas fotos que Hunter S Thompson tirou entre os anos 50 e 70.

aqui.
Furei. Bebi água. O Mário me descolou uma carteira na classe dos fodões, na Jam Session de quadrinhos que rolou ontem na HQMIX pela Virada Cultural, ali na Praça Roosevelt. No entanto, por motivos de uma força bem maior - como kriptonita - fugi de São Paulo e do escarcéu que foi esse final de semana na capital. Pelo line up da bagaça, creio que não fiz falta alguma, só espero não ter cauterizado meu filme com o simpático organizador.
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Fui assistir “Aos Ossos que tanto doem no inverno” na sexta. Puta que o pariu, hein, Sérgio Mello. Tu é um desgraçado. Apelão. Primeiro por ter escrito aquilo ali. Logo na primeira peça já chega mostrando adagas enferrujadas. Depois, por ter juntado no mesmo engradado essa equipe: Mário, Nelsinho, Marcelo Montenegro e a Soledad, que não conheço, mas que pela direção, só pode ser uma grande pessoa. Apareci no Ruth Escobar um tanto esmerilhado pela noite anterior, mesmo assim, comprei um Toddynho e um pão de queijo e me sentei no boteco ao lado. Daí o Sérgio apareceu e ficamos jogando palitinhos até o início da peça. Então, eu entro naquela salinha claustrofóbica, noto uma figura perturbada segurando uma espingarda, minha mente já pensa “lá vem”. E veio. Eu sabia. Algo que aconteceu numa pequena cidade industrial. Que me fez matutar sobre o fato de muitas pessoas nunca terem encontrado paz na Terra. Sobre causos que arrancam uma risada inquieta do ouvinte. Sobre como lavar a roupa suja sem sabão, e a saudade que esfrega teu rosto chão. Gritos abafados pelo escuro do quarto. Sobre uma revanche que se transforma em redenção. Eu sabia. Pouca gente deve saber.
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Wednesday, April 23, 2008

façam melhor

Riam, matraqueiem, babies asnos. Pensem sobre não ter filhos. Antes cretino que otário. Pode ser tarde. Para aqueles que bravam e pisam na tal da merda. Sobre quem não sabe o que fazer. Peguem seus atalhos acarpetados, felizbertos. Apenas fujam de mim. Posso fazer-lhes de churrasquinho. E enterrá-los no cascalho de seus flácidos arbítrios. Dos tolos que crêem no que Eles dizem. Amém. SARAVÁ.

Thursday, April 17, 2008

Eu não tenho pra fazer, além da falta de apetite e do mau humor. Passei a maior parte do dia como de costume, sentado na varanda olhando o casal de patos desenhando na lagoa. Ontem, acertei a merda do meu polegar com o martelo e estilhacei a unha em várias partes. Eu estava tentando fixar a prateleira que desabou com todos meus pratos. Calculei mal. Doeu pra caralho na hora, agora parece que tem um bicho dentro querendo sair pelas beiradas. Hoje almocei na panela como se raspasse a lama incrustada em minha bota. Fui até o pasto, mas Pintado não respondeu meus chamados e assobios, por isso decidi, após soltar todas as pragas retumbantes contra o mundo, que não vou descer até a cidade para comprar presunto. Não estou com fome mesmo. A noite chega e as cigarras se esgoelam cada vez menos, dando lugar aos sapos que gorgolejam cada vez mais alto no brejo. Juvenilson apareceu visivelmente perturbado na hora do almoço. Me viu de cueca comendo na panela. Riu como uma hiena com aquele cabelo imundo entrando em sua boca. Eu peguei a espingarda e apontei. Ele continuou rindo, se contorceu pra frente e caiu no chão como um saco de merda. Está lá roncando até agora.

logo mais

tem show do DEBATE, às 23 horas, no Milo Garagem.

Rua Minas Gerais, 203a, São Paulo, São Paulo Custo : R$ 10

Wednesday, April 16, 2008

vida chata



Li “Sangue de Bairro” na Animal no começo dos anos 90. Lembro que fui na casa de um grande amigo que tinha um pai colecionador de HQs. Ele arremessou o exemplar no meu colo e me disse para ler. Passei a tarde no quintal dele, sentado numa cadeira enferrujada, acarinhando o cão com a sola do tênis, entre um baseado e outro, devorando uma das histórias em quadrinhos que mais me marcaram a vida. Fiquei impressionado com o traço econômico e cheio de estilo do espanhol Jaime Martin. Ontem fui ao Mercearia e o Marquinhos me mostrou a edição que a Conrad lançou esses dias. Nem imaginava que se tratava de “Sangre de Barrio” - eles colocaram o péssimo nome de “Vida Louca” - mas folheando ele ali no bar delirei, foi como escutar de novo aquela música esquecida favorita da adolescência. Garanti o meu. Essa edição é completa, eu nunca tinha lido a história inteira que tem 3 partes. Passei a tarde fazendo isso hoje. O quadrinho de Jaime Martin conta a história de um moleque novo num bairro na periferia de Barcelona. A primeira parte mostra sua chegada, seu envolvimento com a gangue, pequenos furtos, drogas e bebedeiras, noitadas e roubadas, o "Rumble Fish" dos quadrinhos. Tudo no embalo das bandas undergrounds espanholas da época. A cena de Vince bolando um beque e fumando na janela do quarto enquanto rola um som e ele se prepara pra cair no rolê é muito foda, aquilo ali é poesia, truta. As duas últimas partes que eu não conhecia seguem um pouco monótonas perto da primeira que é uma pedrada, mesmo assim, não deixam de ser empolgantes. O que bateu mesmo, como na primeira vez que li há quase 20 anos atrás, é a tristeza que essa história carrega. É como aqueles finais de tarde de domingo, que você fica andando pelo bairro sozinho, sentindo saudades de uma namorada que nunca teve e a sensação de derrota por não fazer noção do que vai cair na prova de matemática no dia seguinte.

Wednesday, April 09, 2008

Estou arriado. Ando atarefado. Sinto que pifei esses dias. Como se minha barra de energia, tipo a dos fliperamas de lutinha, estivesse capenga, nas últimas. Passei uns dias entre o trampo e minha casa, me alimentando com comida de acampamento, trabalhando bastante e cuidando de um gato filho da puta que apareceu no domingo de madrugada miando na janela. O maldito dominou, no começo até achei que fosse uma fêmea, ainda não tenho certeza. Quando eu era criança havia muitos gatos na casa da minha mãe, só que sempre fui alérgico. Esse é filhote, vira-lata de olhos azuis e o pêlo branco com manchas cinza. O engraçado é o rabo dele, que tem a ponta quebrada, em formato de “ele”, por isso, coloquei o nome dele de Alicate. Faz uma zona do caralho e afia as unhas no braço do sofá. Daí, comprei sardinha, lavei um cinzeiro e o servi, ele comeu como um refugiado. Ontem eu estava prancheta, concentrado e um tanto cansado, quando o desgramado pulou em cima das folhas com as patas imundas de terra. Eu não achei a menor graça. Acho que nem ele, ou ela. Atirei o pau no gato. Na verdade um pincel. Errei. Ele correu pra fora, depois voltou com o rabo torto como se nada tivesse acontecido. Coloquei Magnolia Electric co. no som bem alto. Alicate ficou no sofá, parecia que revirava os olhos de prazer. Ri pra caralho. Esse gato é firmeza, gosta de música, não reclama nem faz cara de cu.

Hoje tem show do Bad Brains na Eazy. Eu queria muito assistir. Na realidade, hoje eu sairia de férias aqui do trampo, mas tenho algumas coisas para resolver, por isso ainda tenho que comparecer aqui esses dias. Outro motivo é o preço da porra do show: R$ 100,00 – isso que a banda ainda vem pela metade, sem o desgraçado do HR.

Mesmo assim, ainda quero bater pernas pela noite. Hoje meu carro chegou do conserto após um prejuízo bisonho na quinta, depois que saí do Mercearia. Eu fico ouriçado depois de ficar desmotorizado um tempo. Assim, pretendo assistir a banda Fábrica de Animais, no Bourbon Street, às 21hs30. Pelo menos, ali sei que a diversão é garantida por Fernanda e Cia.

Friday, April 04, 2008

Gosto de dias assim. Quando penso em Minas Geraes e em suas estradas sinuosas com a chuva tamborilando no párabrisa. Acho que vou dar uma volta por aquelas bandas em breve. Ando pesquisando sobre a Estrada Real. Parece interessante.

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O blog de MP3 Setting The Woods On Fire é muito bom. O cara, um fanático por Hank Williams, posta raridades do passado que devem ser embaçadas de conseguir. A maioria é ligada ao velho honk tonk, como covers e gravações ao vivo.

Essa que eu roubei é uma delas:

Elvis Presley - Your Cheatin' Heart (mp3)

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Fico aqui no trabalho depois do expediente, matando tempo, ouvindo Johnny Burnette

Wednesday, April 02, 2008

Monday, March 31, 2008

um cara normal

Caralho, o show do Shellac foi uma tijolada, ou o desabamento de um prédio dentro da minha cachola. Porra, é disso que eu gosto. Sábado, quando cheguei na Clash, o local estava vazio, a banda de abertura já havia tocado e na penumbra do palco apagado pude notar, pelo cabelo arrupiadinho do baterista, que os integrantes da banda estavam montando seus instrumentos. Eu me encontrava muito estragado pela noitada anterior somada a uma nova leva de trabalhos que precisei fazer no final de semana. Cogitei a hipótese de não ir e continuar trancado em casa. No entanto, meio febril, lá estava eu, de canto e um tanto de saco cheio, paranóico com tudo e todos. Se eu tivesse uma arma ali, descarregaria, em mim. A casa encheu, daí acenderam as luzes. Os três caras de preto subiram levantando os braços, mandando um abração pra essa mulherada gostosa desse Brasilzão. Eu me posicionei no canto direito da pista com uma visão boa do palco, encostado na parede. Acho que um dos caras disse algo como “We are Shellac”, ou não. Pode ser delírio meu. Só sei que Steve Albini deu umas palhetadas encardidas na guitarra. O baixo de Bob Weston roncou. E Todd Trainer deu umas marteladas. Daí os três ficaram em silêncio. O batera, o cara do cabelo arrupiadinho, magrelo com a feição de uma ratazana, levantou uma baqueta e fez um bico hilário, na mesma hora a platéia deitou de dar risadas, daí ele desceu o braço e o lugar veio abaixo. Sério. Albini usa a guitarra como se fosse uma serra elétrica que corta tudo. O baixo de Weston funciona como um escapamento de duas bocas e a bateria de Trainer é impressionante, o cara tem um estilo único, sem virtuosismo, minimalista, reto, parece uma fábrica trabalhando. As músicas vinham descendo como lapadas na orelha. A banda funcionando como um caça de guerra passando dentro de um túnel, aquele da 9 de Julho. A corda do baixo quebrou. Deram uma pausa. Steve começa conversar com o público. Pede perguntas. A molecada se diverte. Eu busco uma breja. E o escarcéu começa novamente. Meu cansaço desaparece. Quando tocam “A Minute”, do primeiro disco “At Action Park”, eu começo a pular que nem um maluco, além do que, minha lata de cerveja cheinha desaparece e gritos guturais começam a sair pela minha garganta. Era raiva destilada. Lembranças de uma época em que eu era apenas um moleque que gostava de punk rock e ficava andando pelas ruas sozinho, cagando pro mundo, invadem minha mente. Quando o show acaba, das caixas de som a microfonia me acalma. Era bem cedo ainda. Uma renca de mulheres de salto alto começa a surgir na porta do lugar. Pago minha comanda e saio. Encontro alguns camaradas e a gente passa a noite sentado na calçada, tomando cerveja e falando merda.

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Ontem ainda fui tomar umas brejas com Todd Trainer, o baterista, na chopperia liberdade. O cara é um figura. Nada estrela. Não parou de falar um minuto. Entre um cigarro e outro, contou histórias hilárias com lendas do rock:
- Uma vez, Steve, que estava gravando esse último disco do Stooges, chegou pra mim e disse, “Hey Todd, Iggy Pop quer te conhecer”. E então eu disse: “Oooow! That’s really Cooool.”

Ou essa:
- Eu não gosto da Kim Gordon. Eu fui apresentado a ela umas 15 vezes, no entanto, sempre que a gente se encontrava, Steve dizia “hey, Kim, você conhece o Todd?, e ela “No”.

Fora outras de quando a PJ Harvey seguia a turnê do Shellac indo na van com eles. De quando tocou com Will Oldham, e muitas outras. É isso ai.

Friday, March 28, 2008

eu já era

Ando por ai todas as noites. Longe da minha terra. Com Roy Orbison no rádio e uma ausência de sentimentos. Perco a cabeça à toa. Comporto-me mal e durmo fora de hora. Deus nunca me ofereceu nada. Só acho um saco quando ele me ignora. Sempre. Não seja rude comigo. Talvez eu esteja doente. Ainda sou a mesma pessoa. Perdendo a cabeça à toa. Comportando-me mal e dormindo fora de hora todas as noites. Eu já era. Mas ainda sou a mesma pessoa. Acordei com seu cheiro hoje. Flexionei minha mente tentando sentir o gosto e barulhos e brilhos me deixaram atordoado. Talvez eu esteja doente. Ando por ai todas as noites. Sozinho comigo mesmo. Sem adornos. Ou conselhos. Deixo o amor para os outros. Faço da vida minha roleta russa.

Tuesday, March 25, 2008

desgraça sonora



O trio minimalista de punk, math rock - ou seja lá o que esses filhos da puta fazem – Shellac, toca na Clash Club, no próximo sábado. Tenho certeza que esse show vai ser um absurdo, pelo menos pra quem gosta. Meu camarada está aflito, teme pela violência primitiva que o som irá produzir no público, de qualquer forma, ele disse que vai levar um soco inglês numa mão e uma luva de boxe na outra. E preste bastante atenção, eles devem subir no palco por volta das 22hs. É cedo. Ainda bem. Daí, assiste o show e raspa o gato pro bar mais próximo e esfria o carburador. O ingresso vai sair por R$ 35.

Se quiser um disquinho deles, toma essa dose ai:

Shallac - Terraform (via rapidshare)



1 - Didn't We Deserve A Look At You The Way You Really Are

2 - This Is A Picture

3 - Disgrace

4 - Mouthpiece

5 - Canada

6 - Rush Job

7 - House Full Of Garbage

8 - Copper

Monday, March 24, 2008

XXX

Quando era moleque, eu acompanhava a industria pornô. Achava bem mais interessante assistir um XXX que os tais filmes normais. A rapaziada na escola queria ser jogador de futebol ou piloto de avião a jato, eu já queria ser ator pornô, ou um traficante bem sucedido. Fuder com a vida das pessoas. Antigamente não existia essa oferta de putaria que encontramos hoje nas bancas. Apenas aquelas revistas sórdidas em páginas de papel jornal com modelos grotescas em construções abandonadas ou em quartos de motel de fórmica azul e rosa, cenas quentes de carnaval e aquelas porcarias européias redondas de quinta que eram possíveis encontrar nas bancas da rodoviária – nada de DVDs ou esses filmes baratos que editoras de fundo de quintal lançam hoje em dia. Era preciso mesmo alugar um VHS. Na primeira vez, eu e um amigo, ainda despentelhados, fomos até a locadora do bairro e falamos que nossos pais estavam cientes da punhetagem. Meu camarada disse que seu pai fumava até maconha, numas de provar como sua família era liberal e não iria encanar com um simples filminho sujo. A balconista nos analisou e disse, vão até eles e tragam uma autorização assinada. Fomos à banca de jornal e fizemos uma na hora, num pedaço de sulfite. Ela olhou aquilo e disse, belê, na maior naturalidade. Isso era no começo dos anos 90, quando Savannah estava em seu auge e a gente pirava na lourona suicida. Eu tinha até um pôster da vagaba colado na parte interior do guarda-roupa, mas não lembro onde estava quando fiquei sabendo de sua morte. Tinha também a Racquel Darrian, uma deusa morena com o corpo perfeito, ela era a minha preferida, podia ficar horas descrevendo sua atuação para os moleques depois das partidas de futebol. Fazia um pornô bem mais soft que as coisas que rolam hoje em dia, que aliás, podem ser bem grotescas, tipo esse negócio de DP anal, gangbang, fistfucking, ass to mouth, etc. Sei que tem uma pá de gente que gosta, mas isso não me provoca ereções. Era muito divertido assistir os filmes com Ron Jeremy. Aquele gordinho com cara de mafioso sentando a vara numas gostosinhas não deixava de ser hilário. Dava para perceber pelo sorriso debaixo do bigode que o truta tava delirando de alegria. Lembro de pensar que se aquele desgraçado comia várias, eu iria comer também. Existiam também aqueles filmes com festas ao redor da piscina que era uma suruba dos diabos. Era o sonho hippie subvertido, que amor livre o caralho. Uma vez alugamos um filme com a Cicciolina. No encarte estava escrito algo como a Rainha do Pornô e só haviam cenas com a putana. O pornô italiano sempre foi mais sujo - coisas com freiras perversas, grupal desenfreado, bondage, tal - e nessa sacanagem havia uma cena que Cicciolina mijava na boca de um safado lá. Foi um choque. Chamamos a molecada inteira da rua pra ver aquilo, inclusive um tampinha de 5 anos que dava cambalhotas de rir. Hoje estou por fora, mas sei que a coisa anda bem mais profissional. Novas atrizes surgem todos os anos e, pelo o pouco que me informei, após a era Silvia Saint e as tchecas, as duas que mais chamam a atenção são extremamente paudurecentes. Melissa Lauren, apesar de porquinha, é uma das gurias de mais destaque, ela até já dirige alguns filmes e é apoiada pelos pais na profissão - eu não vejo nada de errado nisso, já que muitos pais ficam tão excitados quanto os porteiros vendo as filhas mostrando a bunda em capas de revistas ou rebolando na boquinha de uma garrafa na TV. Melissa é uma loirinha francesa que começou cedo no ramo, mas já pode ser considerada uma veterana. Apesar da pouca idade, 24 anos, já atuou em uma caralhada de filmes. A nova promessa é Sasha Grey, uma moreninha com cara de junkie sapeca e despudorada de apenas 20 anos. É uma deusinha de fazer o papai do céu pensar em pecar. Conferi um filme com ela esses dias e pensei, porra, taí algo que toda mulher deveria assistir. Que desenvoltura. Que sacolejo de quadris. Que sem vergonha. Hoje, noto que o pornô soft já está disseminado pelos meios de comunicação - e não estou falando de erotismo -, vide esses comerciais de cerveja e os editoriais cafonas de moda. Muitas celebridades nacionais estão mostrando o brioco por ai e dizendo que é apenas pela grana. Nem quero imaginar quem será a próxima Gretchen. A cada dia que passa as pessoas perdem a vergonha de dizer que gostam mesmo é de putaria. O grande problema é saber falar disso sem ser vulgar. Tem neguinho que exagera. Esse é um assunto que ainda se deve falar baixo, na manha, como uma trepada debaixo de um caminhão numa zona movimentada da cidade.

Melissa Lauren
Sasha Grey
isso aqui supera muitos grafites que eu já vi pelos muros desse vasto mundão, vixe maria.

noturno

Grande parte das minhas lembranças é noturna. Ou possui os tons do entardecer do Brasil central. Era uma vez. Foi uma vez. Tal vez. Algo que se tornou uma página virada pelo vento. Um bolero esquecido. Uma canção tocada em 78 rpm num velho gramofone empoeirado pelo tempo. Uma rodovia deserta com um hotel barato de letreiro de néon azul. Palavras ditas num sofá de feltro numa recepção vazia. Como uma bronca. 3 e meia da manhã. Minhas unhas ruídas. Meus velhos sapatos que caminham por ai. Noturnos. Onde realmente são. Smith & Wesson decidindo o destino de muitos. Minhas memórias não são honestas. São noturnas. Nada que presta.

Friday, March 21, 2008

Acabei de chegar em casa. Estou um pouco acabrunhado. Ligeiramente furioso comigo. Cansado. Dessa merda humana fresca que escorre pelas sarjetas e mela minhas botas por onde descarrilo por puro vacilo nesses meus momentos solitários cheios de uma fé mundana. Essa cidade é um pasto asfaltado. Pelo menos por onde passei agora pouco. Por onde errei de novo poucos minutos atrás. Creio que estou à procura de algo que não existe mais. Por enquanto. Toda essa artificialidade social entusiástica de bonequinhos maquiados que esbarram e sorriem. Isso me provoca caganeira. É foda acreditar em algo quando se é incasto. Fico chateado quando assisto uma putinha metida rebolar esperando olhares. Eu gosto de putinhas lindas e, francamente, daquelas estranhas, que não riem de qualquer piada, nem se maquiam depois que acordam, ou se acabrunham quando estão peladas. Dessas de regata preta com a alça do sutiã aparecendo, uma bermuda de calça jeans cortada e tênis branco encardido amassando a bituca na calçada. Queria mesmo é levá-las pra casa pra mostrar minha coleção de revistinhas. E essa música. E minha piroca, lógico. O foda é essa minha total falta de conecção. Ando intolerante comigo e, principalmente, com os outros. Eu amei absoluta e incondicionalmente minha última mulher. Uma pessoa especial. Sinto falta de falar com ela sobre minhas conquistas e sobre minhas derrotas. Sinto-me como um moleque que construiu uma pipa, com rabióla e tudo, esperando o vento. Sentado com as costas encurvadas nesse assento. Esperando que essa porra levante vôo rumo ao esquecimento.

Thursday, March 20, 2008

pirata



O ótimo blog de MP3 Doctor Mooney postou uma session de Bob Dylan e Johnny Cash juntos, em 1969. Os dois mestres tocam um repertório de prima.

Veja aqui.

pág 3


Wednesday, March 19, 2008

The Black Keys

Ando um pouco bodeado com novidades. Eu não acredito em mais nada. Ando num mau-humor escroto. Até tento escutar alguma banda nova, mas acabo arremessando o disco pela janela do carro depois. Não surte efeito nenhum. Muita coisa que está surgindo ai é para trouxas, desses que lêem o Lúcio Ribeiro, ou a Rolling Stone e depois ficam todos felizes, capricham no visual e vão arrasar de olhinhos fechados num club ao som de The Killers, ou LCD Soundsystem. Bando de filhos da puta. Ando num mau-humor escroto. Bom, pelo menos, agora não preciso mais gastar dinheiro com álbuns de merda, assim, sabe como que é, não preciso ficar dando tiros no escuro, só basta baixar, se for ruim, deleto. Eu sou curioso pra música, gosto de vasculhar, mas venho fazendo isso agora somente com o passado distante, música empoeirada. Ainda assim, estava sentindo falta de descobrir um som que me fizesse ouvir bem alto, segurando os bagos. Há algum tempo atrás me deparei com uma música fodaça que está na trilha do filme “black snake moan”, ela se chama “when the lights go out” e é sujona de graxa e poeira, sério, parece ter sido feita por uns borracheiros de posto de beira de estrada. Ainda assim, não dei a atenção devida à dita cuja. Eu sou um cretino. Daí ela ficou ali esquecida, em silêncio, que nem um lobo machucado. Hoje ela tocou aqui na minha orelha. Eu disse, eita porra, e já fui atrás de mais coisas dessa banda. Daí fudeu tudo. Isso aqui é daquelas porcarias que quando se escuta já se pensa uma pá merda, como atropelar uma vaca na Fernão Dias, ou beber gasolina antes de ir pro trabalho. A banda se chama The Black Keys e com eles não tem firula. São dois caras, Daneil Auerbach (vocal e guitarra) e Patrick Carney (bateria), que fazem tudo sozinhos, tocam com firmeza um pesado blues rock arranca toco. Os riffs da guitarra de Auerbach soam como se viessem duma espelunca do velho oeste. A bateria lembra Bonhan, ora econômica ora descontrolada. Esses caras devem ser tipo uns rednecks ignorantes, comedores de fumo, não sei, também não tô nem ai. Acredito que a dupla deve ter se conhecido e falado “Ô Jejão, tava pensando, vamo ali fazer um som na garagem do cortiço”, daí o outro, mascando um capim falou “Ah, vambora”. Um sentou atrás da bateria e o outro catou a guitarra e começaram a tocar. Pá. Sem viadagem. Numa levada do capeta que está me mantendo acordado hoje aqui no trabalho. Eu não dormi ontem. Estou num mau-humor escroto. E estou com uma vontade desgraçada de morrer num acidente. De cair de um desfiladeiro. E se for pra isso acontecer, vai ser escutando essa porra de banda.

A banda já lançou 5 discos de estúdio, aqui vão dois que eu consegui vasculhando o Mediafire. Eu gostei mais do “rubber factory”, que é mais puro, analógico, tem “Grown so Ugly”, que é uma versão rock paulera de uma música de Robert Pete Williams, um lendário bluesman. “attack & release” também é muito bom, só que a produção é bem mais caprichada, polidinha, daí acaba que fica com um jeitão de banda grande e pretensiosa. Aquele tipo de disco que você escuta várias vezes, gosta até, mas com o passar do tempo vai ficando de lado. Esse disco, na real, nem saiu ainda. O lançamento está marcado pro dia 1 de Abril.

Rubber Factory - The Black Keys (2004)

Attack & Release - The Black Keys (2008)

Tuesday, March 18, 2008

ramblin man - pag 2


No final de semana passado, após passar horas solitárias na prancheta numa madrugada chuvosa, resolvi dar umas bandas pela cidade. Deslizei com o carro pelas ruas molhadas que refletiam as luzes dos postes e dos faróis. Tudo estava muito estranho. Talvez fosse apenas minha cabeça. Descendo a Consolação, do outro lado, um comando da polícia com 8 viaturas, incluído 2 CET e uns 20 gambés empunhando escopetas e revólveres entre cones de sinalização, paravam os veículos que subiam. Agradeci por não estar naquela rota. Parei na Roosevelt que já estava moribunda. Muita gente já devia estar dormindo. Eu não tinha o menor sono. Tomei uma ou duas garrafa de cerveja com um camarada e puxei o carro. Continuei rodando. Numa esquina na Consolação, perto de onde os policiais estavam com a blitz, um gol branco fura o sinal e quase dá de frente com um táxi. Eles estão parados, um encarando o outro, até que o vacilão coloca meio corpo pra fora e estende o dedo médio para o taxista. Ele berra impropérios que eu não escuto graças ao Elvis que canta no som. O gol arranca e sobe a avenida. O taxista enlouquecido vai atrás no regaço. Eu pensei, Ih, ó lá, perseguição tipo nos filmes. Subo devagar quando vejo do outro lado um Peugeot capotado. O cara, que devia ser o motorista, tenta em vão desvirar o veículo. Uma viatura chega para averiguar a merda. Tudo parece frenético e descontrolado como um formigueiro depois de uma pedrada. Continuei em frente. Passando por baixo do viaduto, vejo uma mulher vagando com um carrinho de bebê. Aquilo me deu arrepios, parecia um espectro da madrugada, uma alma penada. Paro num semáforo fechado. Um carro com vários otários risonhos começa a acelerar ao meu lado. Ele quer tirar um racha comigo. Eu piso no acelerador e o giro sobe, a frente do carro sacode e o câmbio parece estar vivo. Faço cara de durão. O sinal abre e os bananões largam arrancando como se estivessem num bate-bate de parque de diversões de cidade pequena. Eu saio bem lentamente, no estilo, puxo um cigarro e penso outra vez, bando de trouxas, que morram. Eram quase 6 horas da manhã, mas ainda estava bem escuro. A chuva continuava. Rodei bastante, depois peguei o final da 9 de Julho. Indo na moral, vejo pelo retrovisor outra viatura, um Corsa. Ela emparelha comigo, me ultrapassa. Pela faixa exclusiva dos ônibus, um Gol verde surge e se posiciona entre meu carro e a viatura. Eu reduzo. O sinal fecha. Os polícias fream e o mané afunda a traseiras dos tiras. Pronto, mais merda. A cidade está perdida, lembro de ter pensado. Desço pro centro sem a menor idéia do que fazer. Fico rodando pelas ruas estreitas como se lambesse as varizes duma velha decrépita. Já é dia. Paro o carro na esquina da Ipiranga com a São Luiz. Desço e dou uma mijada na porta de um banco. Daí me sento debaixo de uma marquise e fumo outro cigarro. Alguma coisa me incomoda, como um risco na minha música favorita. Uma mulher gorda passa carregando uma sacola pesada. As pombas encolhidas arrulham sobre os fios e alpendres. O dia está nublado e chuvoso. Arremesso a bituca que quica na calçada e se apaga com a água. Estava na hora de voltar ao trabalho.

Monday, March 17, 2008

L2

Passei grande parte da infância na beira de uma grande avenida que cruzava a parte leste da cidade que eu morava. Eu gostava de ficar sentado na grama ou apoiado na janela do apartamento assistindo tudo. Era um puta movimento, no entanto, nada comparado com o tráfego de São Paulo. Lá os carros andavam em alta velocidade e os acidentes eram constantes. Lembro de uma vez em que uma Kombi branca não conseguiu frear, bateu de raspão no pára-choque de um Corcel, foi rebolando, rebolando, acertou o meio-fio e deitou de lado na grama. Os neguinhos de camisa de vereador e bermuda da Adidas saíram pela porta que ficou virada pra cima como larvas saindo de uma fruta podre. Não deu nem 5 minutos e a porra da perua começou a pegar fogo. Eu achei aquilo sensacional. Passei semanas esperando que outra Kombi capotasse perto do meu bloco. Uma vez também, um caminhão de gás perdeu o trinco da carroceria e os botijões rolaram pela pista expressa para desespero dos motoristas, só que esse acidente eu não tive a sorte de assistir, a moçada do prédio me contou quando cheguei da aula no final da tarde. Passamos a noite falando daquilo enquanto chutávamos a bola contra a parede. Às vezes meus pais iam trabalhar e eu ficava sozinho no apartamento. Como eu não tinha muita idéia do que fazer, ficava na janela vendo o movimento, esperando um acidente, um atropelamento que fosse, eu queria sangue e metal amassado, se pá uma explosãozinha. Enquanto isso não acontecia, eu pegava um papel e ficava riscando quais carros passavam mais, que nem um bobo mesmo. Era de extrema emoção passar a tarde fazendo aquilo. 1 fusca, 2 passats, mais 1 fusca, uma kombi, olha lá uma brasília, uma variant. No final o fusca sempre ganhava. Eu e os moleques gostávamos também de colocar caixas de papelão com latas de tinta suvinil dentro no meio da pista. Quando os carros acertavam aquilo era maior estardalhaço. E a gente caia na risada. Teve uma vez que estávamos ali sentados na beira da avenida quando um passat pointer vermelho e preto veio com tudo, subiu na grama e 3 malacos saíram de dentro empunhando os berros. Logo atrás, duas viaturas, incluindo uma veraneio apavorante, estalando vieram derrubando o mundo. A bandidagem passou correndo na nossa frente e a polícia atrás. 5 moleques de short de algodão assistindo aquilo com os olhos quase pulando da cara. Foi foda. Depois ficamos chutando a bola na parede e lembrando daquilo.

ramblin' man

continua

Wednesday, March 12, 2008

estado de espírito

"Solitary man" - Neil Diamond (baxaê)

Melinda was mine
til the time
That I found her
Holding jim
Loving him

Then sue came along
Loved me strong
Thats what I thought
Me and sue
But that died too

Dont know that I will
But until I can find me
A girl wholl stay
And wont play games behind me
Ill be what I am
A solitary man
Solitary man

Ive had it to here
Bein where
Loves a small world
Part-time thing
Paper ring

I know its been done
Having one
Girl wholl love me
Right or wrong
Weak or strong

Dont know that I will
But until I can find me
The girl wholl stay
And wont play games behind me
Ill be what I am
A solitary man
Solitary man

Monday, March 10, 2008

apenas um lamento

Misguided Angel (clique dir. salvar como...)
Cowboy Junkies

I said mama, hes crazy and he scares me
But I want him by my side
Though hes wild and hes bad
And sometimes just plain mad
I need him to keep me satisfied

I said papa, dont cry cause its alright
And I see you in some of his ways
Though he might not give me the life that you wanted
Ill love him the rest of my days

Misguided angel hangin over me
Heart like a gabriel, pure and white as ivory
Soul like a lucifer, black and cold like a piece of lead
Misguided angel, love you til Im dead

I said brother, you speak to me of passion
You said never to settle for nothing less
Well, its in the way he walks,
Its in the way he talks
His smile, his anger and his kisses

I said sister, dont you understand?
Hes all I ever wanted in a man
Im tired of sittin around the t.v. every night
Hoping Im finding a mr. right

Misguided angel hangin over me
Heart like a gabriel, pure and white as ivory
Soul like a luciferBlack and cold like a piece of lead
Misguided angel, love you til Im dead

He says baby, dont listen to what they say
There comes a time when you have to break away
He says baby there are things we all cling to all our life
Its time to let them go and become my wife

Misguided angel hangin over me
Heart like a gabriel, pure and white as ivory
Soul like a lucifer
Black and cold like a piece of lead
Misguided angel, love you til Im dead

patum de atê

O calendário de shows em São Paulo está interessante para os próximos meses. E não estou aqui para falar das mariconas perfumadas do Interpol, que tocam amanhã no Via Funchal para rapazes de terninho com olhos pintados e meninas que "se não fossem tão trouxas até que seriam legais". Liga só, já perto do final desse mês, o Shellac - a banda do lendário Steve Albini, o cara por trás dos malditos “In Utero”, do Nirvana e “Rid of Me”, da PJ Harvey – chega para se apresentar por essas paragens nas seguintes datas:

25/03/08 - Teatro Odisseia, Rio de Janeiro
28/03/08 - Garagem Hermetica, Porto Alegre
29/03/08 - Clash Club, Sao Paulo
01/04/08 - SESC, Bauru
02/04/08 - SESC, Sorocaba

É tão difícil rotular o som dessa banda quanto encontrar um elefante puxando uma carroça no centro. A experiência sonora pode ser algo semelhante a atravessar pelado um corredor polonês de 200 metros de comprimento. E, olha só, vale a pena sair inteiro, porque na seqüência, já em Abril, quem desembarca aqui é o Bad Brains, a banda do fim dos anos 70, de Washington DC dos negão chulé-rasta-punk que ensinou o hardcore para esses brancos de merda que fazem cara feia na MTV hoje em dia, toca no festival Abril Pro-Rock 2008, no dia 11, mas antes disso aparece aqui em Sampa para mostrar o novo álbum, “Build A Nation”, e tocar clássicos como "Banned in DC" e "Pay To Cum", dia 9 de Abril, na Eazy.




Bad Brains

O New York Dolls, banda caduca banguela com batom de glam rock, que já teve seus bons tempos a bem uns 40 anos atrás, também toca por aqui. Sei que eles estarão no mesmo dia e palco que os Bad Brains, no Abril Pro-Rock. Não fiz questão de procurar algo sobre eles se apresentarem aqui na Metrópole Tóxica.

Mudando um pouco de rumo, mas sem perder o prestígio, outra lenda, essa para assistir comendo pipoca, Ennio Morricone, o mestre responsável por trilhas sonoras de clássicos do cinema, vem ao Brasil para reger a Orquestra Petrobrás Sinfônica, no dia 5 de Maio, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Morricone trabalhou na trilha de mais de 400 filmes, incluindo os maiores clássicos do faroeste com assobio e chibatada no lombo do cavalo. Sem ele, o cinema seria tão enfadonho quanto um mundo sem música.

Aqui 2 amostras do que o sujeito fazia.

“The Good, The Bad and The Ugly” – Ennio Morricone – trilha do perfeito “3 Homens em Conflito”, de Sergio Leone. (clique no dir. "salvar destino como...)

“Ecstasy of Gold” – Ennio Morricone

Agora, chega.

Thursday, March 06, 2008

dancinha


porra, taí, o Fluminense enfiou um chocolate gostoso no boga do Arsenal. que golaço do Dodô, deu uma chapuletada na bola de primeira, do meio da rua, ela cruzou a área num arco perfeito e morreu no ângulo do goleiro argentino. deviam dar uma placa pro rapaz. 6 a 0. não vi o jogo, já que estava num Via Funchal lotado pela burguesia badalhoca paulistana conferindo Bob Dylan e banda. grande show também. Bob está com a garganta em frangalhos, como um pano de chão de banheiro de escola pública, veiaco, parecendo com Tonico & Tinoco, mas continua com entusiasmo para fazer shows. ele lançou uma pancada de clássicos obscuros totalmente desconstruídos, numa pegada blues, e muitas músicas do último disco "Modern Times", destaque para "Workingman's Blues #2", que me balançou e pela porrada "Highway 61 Revisited". na saída ainda tive a honra de apertar a mão do Belchior, o Cat Stevens brasileiro, disse a ele que sou grande fã do seu trabalho e que "Alucinação" é uma das canções favoritas de toda minha vida.

Wednesday, March 05, 2008

me chama de papai

Olá, querida. Puxa vida, quanto tempo. Hoje acordei me sentindo um pouco mal. Como se tivesse engolido um saco de pedras na janta. Fiquei andando em círculos pelo quarto que nem essas malditas galinhas de Angola. Não, isso não é ressaca. Venho maneirando na bebida com certo êxito. E não tenho problemas com o álcool, apenas penso demais quando estou de ressaca, e isso me incomoda. É uma lasqueira. Ninguém para conversar ou jogar um dominó no final da tarde, sabe? Mas, como você está, me conte? Como vai o seu novo amor? Ele deve ser bonitão, hein? Ou um almofadinha? Sei. Significa muito pra mim saber que você está bem. É. Eu também estou ótimo embora acorde com essas pedras no estômago. E esse negócio de andar em círculos pelo quarto está me deixando louco. Demoro um pouco para pegar no sono e penso bastante em você, principalmente quando sei que está longe. Minha pele mudou de cor depois que o inverno virou primavera. Te contei que uma caravana de ciganos passou por aqui esses dias? Pois é, não é fantástico? Pensei até em juntar meus trapos e ir com eles, sem nem perguntar o destino. Colocar uma argola prateada na orelha e sumir nesse mundão. Conheço tudo por aqui. Já caminhei por todas essas montanhas. Por todas essas encostas escarpadas. Conheço todas as curvas do todos os rios. O cheiro da brisa. Conheço tudo, inclusive na escuridão. Não há mais nada de novo. Queria ir pro litoral, catar conchas em praias desertas e esquecer meus tolos dias do passado. Queria parar de andar em círculos. Queria você de volta. Mas isso é um delírio. Viver com as costas prensadas num muro de pedras não é saudável. Para ser bem honesto, eu estou muito cansado de todas essas memórias. Não importa para onde eu olhe, sempre enxergo você. Carregando os baldes d’água ou reclamando que os coelhos atacaram a horta. Chutando os cães para fora de casa e me encarando com esse olhar de víbora pálida do deserto. Ou lavando a louça e rindo sozinha. Deixe me abraçá-la pela última vez, pelos velhos tempos. Agora peço que vá embora. Preciso arrumar minha vida, sair por ai e encontrar meu caminho. Parar de jogar com meus sentimentos como se barganhasse cavalos. Parar de andar em círculos como se tentasse limitar meu mundo. Minha alma atolada na lama. Preciso acertar minhas contas com o que deixei para trás antes de te conhecer e fugir para cá. Preciso me ver livre de mim novamente.

Tuesday, March 04, 2008

14ª Fest Comix


Nos dias 7,8 e 9 de Março, acontece a 14ª Fest Comix, com toneladas de revistinhas (ou gibis) empilhados no Centro de Eventos São Luis. As ofertas são de foder o cu do Batman, desde de lançamentos saindo fumacinha até aquelas Graphic Novels antigas dos anos 80/90 com até 70% de desconto. Praticamente todas editoras de quadrinhos marcarão presença, fora que ainda terão estandes da Quanta Academia de Artes, Fábrica de Quadrinhos e da Arena Comix. Vale muito a pena a visita. Leve seu sobrinho e uma mochila resistente. Volte para casa, deite-se no sofá e esqueça tudo que acontece lá fora.


14 ª Fest Comix
(Colégio São Luís - Rua Luís Coelho, 323 - Estação Consolação do Metrô - São Paulo/SP).
Dias 07 e 08 de março das 10h às 20h
Dia 09 de março das 10h às 18h

Monday, March 03, 2008

o uivo

13 de Maio é uma data, é também o nome de uma rua na Bela Vista, ou o dia do azar. Eu caminho por ali de madrugada. Com uma música na cabeça. Uma traveca crioula gigante se aproxima perguntando “onde fica a sinuca do Godô?”. Aponta pelos arredores com suas mãos de pele escamosa e unhas longas e vermelhas como casca de barata. O balcão de informações é na esquina de cima, eu digo. Debaixo do viaduto noto o brilho da lâmina em sua mão esquerda. Tudo não passa de um sacode. Dou dois passos para trás e levanto meus punhos. Olho no olho. Não seria uma boa idéia, ela percebe antes que eu prove. Um sorriso de canto surge em minha boca e eu continuo andando. Paro para uma mijada vigorosa. Do outro lado escuto algo como um uivo. Torço minha coluna, ainda segurando a piroca, e noto uma mulher encolhida no chão. Seu choro lamuriante aumenta, como o apito de um trem nas encostas de um vale sob o reflexo sem direção da lua. Aproximo-me e pergunto o quê há de errado. Ela me encara vidrada, espumando saliva pelos cantos da boca e balbuciando algo sobre a fruta envenenada que a bruxa do albergue lhe deu. Seus dedos entram e saem dos cabelos emaranhados, ela se movimenta num transe de quem profere um feitiço pré-cataclísmico. A bruxa está solta. Suas roupas fedem à fezes ressecadas pelo sol. Descalça e sofrida como uma plebéia pedinte romana. Vejo que não há nada ao alcance que eu possa fazer. Arranco um cigarro do bolso esquerdo e acendo. Caminho. Penso nas cadelas prenhas sem quintal, que uivam por seus cães levados pela carrocinha. Penso em Sebastião chorando na escada em frente de casa, dizendo que seu coração foi amassado por um martelo de bife. Penso naquele eco debaixo do viaduto. O sol começa a refletir nas janelas dos prédios. As luzes dos postes vão perdendo a força. Do viaduto Martinho Prado, noto os ônibus surgirem barulhentos subindo a Augusta. Peço um pão de queijo no boteco da esquina. Do outro lado do balcão, assisto a traveca mestiça enfiar a língua na orelha de um velho de camisa xadrez. Escuto ele dizer algo como, faz cóceguinhas. Olho para meu lanche. O arremesso, mas erro o cesto de lixo. Levanto e penso em sair correndo até onde meu carro está estacionado..

Friday, February 29, 2008

Thee Butchers Orchestra

Teve uma época que eu gostava de ir atrás dos shows do Thee Butchers Orchestra. Sempre que eles tocavam, eu aparecia para conferir. Entreatanto, era com grande freqüência que o show melava. Juro, dava vontade de malhar os caras na pedrada. Era impressionante. Ou o baterista quebrava o pé, ou um dos integrantes dava um chilique cinco minutos antes de subir no palco, ou o outro tinha que acordar cedo e não queria que a banda tocasse por último. Eu até entendo, fazer parte de uma banda deve ser um pé no saco às vezes, maior engolição de sapo, ainda mais de uma banda que está junta há muito tempo no cenário underground paulista, no entanto, eu só queria ver os caras em ação, o que não era pouca coisa. Os dois guitarristas, Adriano Costa e Marco Butcher, eram um arregaço trabalhando juntos como dois operários com britadeiras, formando uma parede de som que te acertava como um paralelepípedo na orelha. Som de filho de puta mesmo. Sujo e áspero como as ruas do centro. Rápido e barulhento como um Mustang Mach 1 circulando por lá de madrugada. Às vezes punk, noutras blues, sempre rock. Esses dias encomendei o vinil “Stop Talking About Music”, daí coloco bem alto no meu 3 em 1, calço minha botas de bico fino, de cuecas, pego a peixera e fico pensando em um monte de parada errada.

esse disco também é foda:



01. 2003
02. I don´t mean maybe
03. blue moon
04. back tabber
05. what about now
06. bunch of losers
07. my dirty fingers
08. backout
09. johnny thunders
10. hot meal
11. smart went crazy

download
Depois do papelão na semifinal da Taça Guanabara, quando perdeu para o Botafogo por 2 a 0, agora o Fluminense ficou sem Leandro Amaral. O atacante rodou, perdeu na justiça o direito de jogar pelo Fluminense e deve voltar às garras vascaínas de Eurico Miranda, correndo sério risco de ser torturado nos calabouços de São Januário. Fora isso, Dodô também pode desfalcar o Tricolor carioca, já que será julgado em abril no caso de doping que ocorreu no ano passado. Desse jeito, acho difícil o time conseguir justificar toda a grana gasta com reforços nesta temporada. Quarta-feira o time entra novamente em campo pela Libertadores.

Apesar disso, sinto que o campeonato carioca 2008 está sendo bem disputado, com clássicos arranca-toco bem movimentados - como foi a final entre Botafogo e Flamengo, fazia tempo que eu não assistia a um jogo tão bom. Isso graças ao Premiere da Net - que eu assinei para acompanhar o Flu -, já que o jogo não foi transmitido por nenhum canal mais acessível, a preferência é pelo insosso Campeonato Paulista, quando praticamente todos os canais transmitem alguma pelada corintiana. Voltando ao carioca, carrego grande vilipêndio pelo Flamengo. Torci muito contra os urubus, mas o pobre Botafogo deu mole outra vez e caiu em lágrimas diante do Maracanã lotado. Na quarta, pela Libertadores, Souza, desajeitado atacante flamenguista, pipoqueiro nato e exímio chupador, após anotar um gol contra o Cienciano, comemorou tirando sarro dos botafoguenses. Pelo visto, o segundo turno, ou a tal Copa Rio, promete pegar fogo nos clássicos. O pau vai comer solto e eu pretendo encarar a Dutra pelo menos uma vez para conferir alguma partida no Maracanã.

Thursday, February 28, 2008

Bo Diddley - Jungle Music





01 The Story Of Bo Diddley

02 Down Home Special

03 Little Girl

04 Bo Diddley

05 You Don't Love Me

06 Diddy Wah Diddy

07 Pretty Thing

08 Bring It To Jerome

09 Dancing Girl

10 Who Do You Love

11 Crackin' Up

12 I Am Looking For A Woman

13 Cops And Robbers

14 Nursery Rhyme

15 Hey ! Bo Diddley

16 You Can't Judge A Book By The Cover

17 Before You Accuse Me

18 Say Man

download (rapidshare)

aos ossos que tanto doem no inverno

Nelsinho, Marião e Sérgio Mello numa tacada só.


"Dois sujeitos que trazem atrás de si um rastro de erros e fracassos redescobrem um sentido para suas vida numa história sobre a amizade e o perdão."

Amanhã é a estréia.

Teatro Ruth Escobar / Sl. Mirian Muniz. (60min).
Sex e sab, 21h; dom, 20h.
R$20. 16 anos.
Estréia 29/02.

Tuesday, February 26, 2008

Ramblin' Man

Bob Dylan está organizando um projeto interessante. Ele vai juntar diversos músicos – Jack White, Liam Nelson, Norah Jones, entre outros - para gravar um álbum com canções inéditas de Hank Williams, o amargurado cantor americano de country dos anos 40/50, que morreu de forma misteriosa no banco de trás de um Cadillac, em 1953. Junto ao corpo gelado do marmanjo, encontraram uma maleta com diversos manuscritos, como a sinistra última canção escrita por ele “And Then Came the Faithful Day”. Hank foi um cantor único, além do country autêntico, criou o estilo honk tonk e fazia um bluegrass desgraçado. Viveu de maneira atabalhoada, aquele tipo de sujeito que nunca pega o caminho fácil da vida. Sofria de fortes dores na coluna devido a uma queda de cavalo na adolescência e bebia até transbordar a cara, fosse no palco, em bares ou em seu programa no rádio. Gostava também de aplicar morfina e vitamina B12 em seus braços finos. Nem mesmo os integrantes de sua banda o aturavam. Suas músicas falavam de tipos imprestáveis, pessoas chorando na chuva, amores perdidos e noites solitárias em bares empoeirados com uma lágrima caindo no copo de cerveja. Tudo de maneira comovente e bondosa, como o sussurro do vento no campo. Com melodia doce e simples e uma poética sofisticada, um trabalho único na forma como usava as sílabas num desafino agradável, Hank foi uma das personalidades mais influentes do country americano.

No livro “Crônicas”, Dylan conta uma história em que ele, ainda bem jovem, visitava Woody Guthrie num hospital distante e fazia companhia para seu maior ídolo, tocando algumas canções no quarto de um lúgubre asilo. Numa dessas, Guthrie declarou que possuía no porão de sua casa algumas caixas de papelão com muitas canções e poemas jamais vistos, só era preciso ir até lá e pedir a sua esposa. No dia seguinte, Dylan deu um jeito de pegar um trem e ir até o endereço. Caminhou no frio e no escuro, passando por um brejo com água até os joelhos e encontrando a casa do legendário cantor, encharcado de lama e gelo. Apenas o filho de 10 anos de WG e a faxineira estavam lá e nenhum dos dois sabiam da existência das caixas. Bob deu um tempo e foi embora de mãos vazias. Quarenta anos depois, essas letras caíram nas mãos do Wilco e de um cantor chamado Billy Bragg. Eles colocaram melodias e gravaram as canções no projeto “Mermaid Avenue” (via zShare). Dylan cita também, que provavelmente esses caras sequer eram nascidos quando Woody o contou sobre as caixas.

Pelo jeito dessa vez ele foi mais ligeiro e se garantiu com Hank Williams. Na minha opinião, esse projeto não poderia estar em melhores mãos.

HW já teve suas canções gravadas por outras lendas da música, e atualmente, ainda é muito interpretado por ai, como no disco novo da Cat Power e na versão de “Weary Blues” que Madeleine Peiroux fez. Em 1971, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis lançaram em conjunto, porém gravado separadamente, um álbum com canções do caipira.

Aqui um disco do Ramblin' Man.

Hank Williams - Country Legend (rapidshare)

1. Jambalaya
2. Hey good looking
3. Move it on over
4. Take these chains from my heart
5. Why don´t you love me
6. Settin´ the woods on fire
7. Your cheatin heart
8. Howling at the moon
9. You win again
10. My bucket´s got a hole in it
11. Crazy heart
12. I just don´t like this kind of living
13. I won´t be home no more
14. I´ll never get out of this world alive
15. I´m so lonesome I could cry
16. Kaw-liga
17. My son calls another man daddy
18. Dear John
19. Half as much
20. Ramblin Man

Monday, February 25, 2008

Ando com uma estranha que carrega sentimentos em sacolas plásticas de supermercado. Sentimentos tão puros quanto das plantas de borracha ou de peixes de banheira. Requintes antiquados, segundo ela. Eu me sinto um cretino enquanto espero o amanhecer. Você jamais se cansa. Tudo é uma boa idéia quando não há nada a fazer. Os pingos escorrem pela calha furada. Procuro as cascas da minha ira no fundo das gavetas emaranhadas. Continue me dando conselhos errados aqui nas trincheiras do tempo. Que virou na madrugada insone. E chove sem parar agora. Aqui dentro.

Friday, February 22, 2008


Com vocês, os blogues impressionantes dos talentosos artistas Joshua Middleton e Barbara Canepa.

Thursday, February 21, 2008

a rodovia que partiu meu coração em dois

Na minha casa no deserto. Por volta de 1962. Com a lua estilhaçada no céu, como o espelho da fossa no escuro do lado de fora. Você vem me visitar. A única pessoa que me traz flores, empoeiradas como os livros na estante. O cão não te esqueceu e faz festinha, sapateando e mijando no piso. Penso em descarregar minha Magnum nele, no entanto, apenas coloco a água para ferver. Vamos tomar um chá? Conta-me todas as novidades. Somos mais que amigos. Pergunto se ainda continua com aquele gigolô desgraçado. Já era de se esperar. O fogo corre em minhas veias como um baque de álcool de cozinha. O silêncio impera por alguns segundos, sendo possível escutar um alfinete cair no chão. Mudo de assunto. O que será que aconteceu com Valentina, a bêbada? Arrumou um velhote bem de vida em Tabuleiro Alto, agora trabalha no balcão de um armazém. Eu apenas escuto toda essa ladainha que não faz o menor sentindo. Quero saber o porquê de você vir aqui regar minhas plantas com água sanitária. Quero entender o porquê dessa palhaçada toda que o Fido faz quando você chega. Mas na verdade, estou cagando para tudo isso. Por onde você anda eu posso sentir, como o vento que sopra e levanta toda essa areia que entra pela janela. Você cantarola uma canção esquecida e gira o corpo. Lembra quando você bateu com a moto no poste em Tinguá e estourou a testa? Como poderia esquecer, eu digo, você enfaixou minha cabeça com sua saia branca. Aquela vez só foi pior que o dia que estava sem capacete e engoli uma varejeira, você ria e dizia que eu geraria bernes na barriga. E quando eu te vesti de mulher? Isso ai é piada. O cão deita e coloca as duas patas dianteiras sobre o focinho. Sua casa está imunda. Eu sei, é apenas areia. Todo mundo é muito solitário por essas bandas, você diz. Disso eu não sei, apenas tenho certeza que nunca mais dividirei nada com você. E pelo menos aqui fica distante da rodovia, assim meus cães não são atropelados e divididos em dois. Fido caminha rumo ao curral sob a luz prateada da lua. De cabeça baixa. Ele está velho e cansado. Fico impressionado em como ele está parecido com John Henry, aquele caridoso de merda. Cruzo as pernas esticadas batendo com o salto da bota no piso num estampido seco. Coloco as duas mãos atrás da cabeça me espreguiçando. Lembro de um porre que tive com Valentina em 56. Quando rolamos na lama como dois suínos apaixonados.

Wednesday, February 20, 2008

Ontem, no pé-sujo aqui do lado do meu emprego, um velho camarada virou pra mim e disse: “Carlinhos, ainda bem que você voltou ao normal”. Normal como?, perguntei ressabiado. “Assim, podre, esse lixo que você realmente é”, ele respondeu com a boca cheia de amendoins. Dei um sorriso de lado, cocei o queixo e um cachorro apareceu do nada e cheirou a poça de cuspes que eu tinha formado ao lado da cadeira. Entendi o quê ele estava falando. Meus pais sempre diziam isso quando eram chamados no colégio. O motoboy gordo ao meu lado desferiu um tapa na minha nuca. Eu estava tão absorto que sequer reclamei. Eu sou um lixo. De marca maior. Mas não sou um pipoca murcha. Eu sei me dar bem. Sempre serei assim. Nunca levarei uma vida convencional, disso já basta meu emprego, que me garante nessa corrida. Às vezes dou uma relaxada, arrumo uma vulva suculenta que me faz ficar um pouco mais em casa, contudo, subitamente eu volto para as ruas. Eu gosto disso, de pegar o carro, com uma garrafa de vinho barato encaixado no meio das pernas, Sonny Boy Williamson cantando que pode fazer tudo por conta própria no som e eu dirigindo bêbado, sozinho e feliz. Daí paro em algum lugar, ou encontro meus amigos na Roosevelt e a gente fica falando merda até de manhã. É disso que eu gosto. E eu não vou mudar. Eu não quero casar, nem ter filhos. Nem ninguém me dizendo o que devo fazer. Não quero ser chefe de ninguém, muito menos proletariado. Quero apenas ser livre para ficar por ai, viver da forma que me apeteça, conhecer novas mulheres, músicas estranhas, livros eternos, com o cotovelo no balcão, olhando a grama crescer, como Walt Whitman, para depois morrer e virar adubo. Voltei cedo pra casa ontem, pensando em nada. Estacionei o Opala da madrugada todo torto. Estava realmente bem. Sentei na mesa da cozinha e horas depois saiu alguma coisa. Dessas que me fazem encostar na pia fumando um cigarro e refletir.

**

Hoje o Fluminense estréia na Libertadores. Vou assistir de cueca no sofá. Sem corneta. Se meu time fizer um gol, talvez eu dê um assobio pela janela. Vai rolar um eclipse também. Que maravilha. É engraçado, sempre dizem que o próximo eclipse só acontecerá daqui 432435 anos, mas sempre rola um ou outro no ano seguinte. Acho que nunca presenciei um. Vou jogar pedras na Lua.
Formas estranhas apodrecendo nas calçadas, como frutas num fim feira após um dia quente. Roupas falsas de marca. Carros esquecidos na zona azul. Eu não consigo mais esperar. Para me sentir limpo eu preciso me arruinar. Sinto-me noturno. Consigo ficar acordado a noite inteira. Me movendo em câmera lenta num sonho com assassinatos e cadáveres em porta-malas. Penso em jogá-los de uma ponte sobre o Tiête. Noto meu retrato-falado colado nos postes do Bom Retiro e percebo que meu rosto está sulcado pelas rugas. Nas manchetes dos jornais, toda aquela melação e fingimento. Medo e indignação. Uma repórter diz que não passo de um ladrão mentiroso, ela diz a verdade. Nada posso fazer. Por favor, venha me salvar pela manhã. Tenho crianças para cuidar. E ligações a cobrar. Ninguém pode provar nada. Só não precisa ser ignorante. Apenas arrume um bom advogado e me tire daquele DP imundo. E vamos sair por ai, para chutar a poeira e escrever nas paredes frases desconexas com um pedaço de carvão. Subverter os jardins. Fazer tudo sem razão. E ver o mundo por velhas fotografias. Vamos ficar juntos. E sair pela noite. Acordar de manhã e esquecer daquelas frutas podres e garrafas pets boiando no rio. Vamos um pouco mais. Colocaremos fogo na roseira do vizinho. E fugiremos para casa dos meus pais no litoral. Posso dirigir lentamente através das suas alamedas favoritas. Me forçar a dormir melhor. Posso cobrir minhas dívidas com a garota que dançava na sala. E acabar com suas dúvidas. E parar com todas essas substâncias proibidas. Poderíamos ser amigos de novo. Estou triste por tudo que aconteceu. Costumávamos ser grandes parceiros. Agora você pegou o beco sem olhar para trás. Se eu resolver ter outro filho com você. E caminhar pelo parque até aquela escultura de anjos encardidos. Dividir o assento do último ônibus para lugar nenhum. Se eu parar com os rasantes das grandes alturas. E de cuspir sob as mesas de bar. Se eu procurar respostas na igreja. Se eu voltar a estudar. Poderíamos ser amigos de novo.

Tuesday, February 19, 2008




A Conrad anuncia a pré-venda “Tem Alguma Coisa Babando Embaixo da Cama”, novo volume de tirinhas de Calvin & Haroldo. Esse é o terceiro da série que a editora lança, com material lançado em 14 países ao redor do mundo entre 85 até a metade da década de 90, após isso, Bill Watterson, seu criador - exímio desenhista e grande escritor, um sujeito ranzinza avesso a fotos e entrevistas -, abandonou a prancheta e foi morar no meio do mato com a esposa. A edição começa a ser vendida no dia 24 de março, custará R$ 29,90 e, como os outros da coleção, deve despontar na lista dos mais vendidos das grandes livrarias.

Monday, February 18, 2008

Só o tempo me dirá que caminho tomar. Não me tolero ultimamente. Calafrios e suor. A amargura me corta como o som de um violino tocado dentro de uma floresta fechada. Ontem o senhor apareceu em casa. Estava no sofá quando escutei seus passos pesados sobre os paralelepípedos da rua. Chovia bastante no fim da tarde. Ele bateu com os nós dos dedos, duros e vigorosos como carvalho, na porta da frente. Eu já sabia que era ele, mesmo sem ter sido avisado previamente. Abri a porta de madeira maciça e ele entrou sem me olhar, sem dizer uma mísera palavra. Sacudiu o guarda-chuva e o deixou nos fundos. Sentou-se na poltrona no canto direito da sala, juntou as mãos com os dedos entrelaçados na frente da face. Ele olhava através de mim agora. Pediu água e eu servi um copo da torneira, há tempos não abasteço o filtro. Notou que eu estava impaciente e perguntou se eu continuava pescando. Ando sem tempo, respondi. Não consigo me concentrar em nada, continuei, nem na espera de um peixe que morda o anzol, a isca das oportunidades. Como andam as coisas?, ele perguntou, sempre assim, cortando seu silêncio sepulcral com perguntas simples que me faziam querer falar sem parar. Eu não consigo me alinhar a porra nenhuma. Nem dividir meus pensamentos com alguém, a não ser você, no entanto, você só aparece de repente, e quase tenho certeza que sente, lá do outro lado da cidade, que não estou bem. Às vezes saio e encontro essas garotas da cidade, que parecem sempre estar andando por ai. Passamos a noite juntos e depois eu volto pra cá. Sinto-me um pouco culpado por não estar com quem realmente gosto, só que ainda não descobri quem é essa pessoa. Preciso de uma mulher ao meu lado para ser um homem, eu disse, mas na verdade, era pra ser uma pergunta. Então o senhor puxou um livro de sua bolsa de couro gasto e passou a ler, entre um gole e outro da água. Esse desgraçado ai não vai mais falar nada, pensei. Vai fazer como sempre, me ignorar e me esquecer aqui no canto. Rolei a cabeça no encosto do sofá e puxei uma leitura também. Dormi. Quando acordei, ele já não estava lá. Eu me sentia bem melhor. Coloquei minhas botas e fui dar uma volta pelo bairro. A atmosfera estava fresca após a chuva. Não ventava. Pelas janelas das casas, eu podia ver as famílias assistindo seus televisores de tubo. Uma criancinha, apoiada na janela do segundo andar de um sobrado, acenou para mim e sorriu.

Friday, February 15, 2008

strange blues

Hoje é um dia estranho. Bem estranho. Andando debaixo desse sol, encontrei uma guria sentada numa mureta. Ela chorava baixinho enquanto falava no celular. Fiquei com a imagem dela na cabeça. Minha vizinha, uma pessoa que mora sozinha depois que a mãe morreu e nunca foi de falar muito comigo, me ligou agora à tarde. Disse que estava preocupada comigo. Eu disse que não havia motivo para isso. Ela respondeu que achava estranhos eu não dormir mais e andar de um lado para o outro durante a madrugada inteira. Disse também que podia notar o quanto eu era solitário. Tanto quanto ela. Fiquei lisonjeado, uma pessoa nem tão próxima, apesar de apenas uma parede nos separar, tomando conta. Nunca me vi como uma pessoa solitária. Tenho muitos amigos. Mesmo assim, sinto certo magnetismo pelo termo. Hoje, aqui no escritório, a secretária foi mandada embora. Ela estava aqui havia 8 anos. Era a pessoa mais próxima de mim. Sempre me ligava de manhã me acordando pro batente. Patrulheira. Na hora que vi suas lágrimas, tive certeza da demissão. Ela chegou e me deu um abraço apertado, com o rosto encharcado e o nariz chiando, com um cheiro doce de perfume francês e um ar de princesa abandonada pela velha rotina. Disse que gostava muito de mim. Eu não sou um cara durão. Não sabia como agir. Apenas abracei forte também. Ajudei-a a levar suas coisas pro carro. Tentei encontrar palavras de consolo, no entanto, nada me veio. Eu não sei o que está acontecendo comigo. Noto que algumas mudanças estão acontecendo, bem de leve, como a chegada de uma nova estação. Sinto que algo vai acontecer em breve. Não estou com medo nem porra nenhuma. Quero apenas pegar meu carro hoje à noite, escutar um disco bem tranqüilo. Arejar a mente com o vidro aberto. Dar uma volta por ai e encontrar meus amigos. Nem tocar em assuntos assim. Quero apenas me tolerar um pouco. E conseguir dormir antes do amanhecer.

Wednesday, February 13, 2008

Esses dias, conversei por telefone com um amigão meu que não vejo há bem uns 8 anos. Foi engraçado o papo. Parecia que não nos víamos desde o Natal ou alguma data não tão distante. Eu morava em Campinas quando o conheci. A gente era bem moleque e não nos dávamos bem com as mulheres da escola. Eu tinha a cara coberta por espinhas pustulentas e o cabelo era comprido e crespo e sujo como aquelas moitas que nascem em canteiros no meio de grandes avenidas. Ele era magro cadavérico com o cabelo loiro até a cintura, com os dentes bem tortos como se quisessem sair da boca. Tentamos até formar uma banda, mas ele gostava de heavy metal e eu já caia mais pro punk, por isso não deu certo, além disso, nos poucos ensaios que fizemos, ficamos bêbados escutando um antigo vinil da Judy Garland que sua mãe tinha e não desenvolvemos uma cover sequer. Sua mãe, aliás, era uma pessoa muito boa, sempre me abrigava quando as coisas esquentavam pro meu lado com meu pai em casa. Cheguei a passar quase um mês lá. Ela que me colocou o nome de Carlos Carah, um dia na cozinha, dizia que soava muito bem. Uma pena que tenha morrido há quase 2 anos. Ainda posso lembrar claramente do seu rosto. A gente costumava, na madrugada, roubar um velho Del Rey que ela tinha. Era foda, o carro estava caindo aos pedaços e sacudia como se estivesse sendo chacoalhado pela mão pesada de deus. Colocávamos álcool de cozinha mesmo e saíamos nos rolês pelas bocadas do São Fernando, ouvindo The Who. Numa dessas, debaixo duma chuva escrota, quase atropelamos um cavalo, o carro foi rodando, rodando até acertar a guia e quicar para o outro lado da pista. Mijamos na calça de tanto rir. Após 4 anos naquela cidade de merda, mudei-me para São Paulo e meu camarada ficou por lá, se perdeu no crack e foi enviado para um tratamento com índios no Acre. Ficou seis meses no mato, comendo raízes e bebendo água barrenta. Ele me disse que chegaram a enfiar uma mangueira em seu rabo para lavar todos os resquícios da droga. Depois disso, foi morar na Califórnia - aproveitando que sua irmã havia casado com um médico gringo - numa forma de ficar longe das quebradas. Evitei tocar nesse assunto pelo telefone, entretanto pude notar que ele deve estar tranqüilo, tão tranqüilo que pude notar também o receio dele em me reencontrar.
Ontem andei por ai à noite. Seco e duro como casco de cavalo. Falei com os estranhos pelo canto da boca. Assisti as pessoas na calçada indo pelo caminho contrário. Ando armado ultimamente. Armado de uma música na cabeça que me traz lembranças de uma época onde as sacolas de supermercado ainda eram de papel. Algumas músicas eu não posso ouvir mais desde que você foi embora. Que eu me lembre, dormi meia hora. Eu atravessei a noite olhando para meus próprios pés. Trocando meu estado melancólico pelo sossego. Nada como ficar à toa na rua, no comando dos instantes, mesmo sabendo que o dia seguinte será desgastante. Quando o céu começou a tomar cor, saí de cena. Hoje minha cabeça está como TV sem antena.

Tuesday, February 12, 2008

Como num churrasco que não veio ninguém. Como deus me fez errado. Como alguém que atrapalha sua música favorita. Como uma pistola enferrujada. Estou cagando e satisfeito. Como coisas difíceis de encontrar. E mulheres sem dinheiro para pagar o ônibus. Como amigos quando se está sozinho. Como moedas num bolso furado. Estou cagando e satisfeito. Como um livro com as últimas páginas arrancadas. Como belas canções perdidas num incêndio. E nomes próprios com vírgula. Como cães que perderam o rabo numa briga. Estou cagando e satisfeito. Como gostar de coisas que fazem mal. Como olhos pesados numa manhã de ressaca. Como o último trem subterrâneo. Como uma trincheira alagada. Ou um tênis cheio d’água. Estou cagando e satisfeito.

Monday, February 11, 2008

Lord Have Mercy On Me

Passei o domingo no sofá. Entre leituras acidentais e rabiscos no moleskine que ganhei. Assisti praticamente todos os jogos de futebol que passaram na TV. Egito x Camarões, Santos x São Paulo, Fla x Flu – que foi foda, meu clube arreganhou o cu do menguinho com 3 golaços do Thiago Neves, sendo que o terceiro ele enfileirou a zaga, passou pelo meio das canetas de um bobão e guardou. Pensei em dar uma volta no centro e tirar umas fotos para um trabalho atrasado. Num domingo com o céu cheio de nuvens carregadas, a cidade fica interessante, só que o sofá dominou, e depois veio a chuva para dar uma refrescada no concreto. Estou lendo “Crônicas”, do Bob Dylan e anotando todos os nomes que formaram esse cara. Ele joga referências em todas as páginas, tanto de literatura e de música quanto de heróis esquecidos. Dessas, a que mais me impregnou foi Jessie Mae Hemphill. Porra, essa mulher é uma desgraça. Escutando o som, com aquela voz poderosa e sua língua afiada, fico com muitas idéias atravessadas na cabeça.

**

Falando no travador, eu já garanti meu ingresso pro show no dia 5 de março. Foi uma facada na cara, mesmo pagando meia. Tô lá.

Thursday, February 07, 2008

como um domingo de carnaval na cidade de São Paulo

Estive sempre andando por ai. Sozinho na maioria dos rolês da minha vida. Como um erro. Como algo que não vale nada. Com um bolso furado e cheio de moedas. Inexorável. Estive me escondendo este tempo todo. Sozinho na maior parte da minha vida. Depois de te conhecer tudo piorou. Passei a viver como um mendingo, um pedinte do amor. Catando lixo em becos úmidos para esquecer do tesouro que um dia tive. Estive andando por ai. Com minhas botas cheias de lodo. Com uma faca atravessada na garganta. Por terrenos baldios. Por lugares ermos e silênciosos como um domingo de carnaval na cidade de São Paulo. Estive andando por ai. Para bem longe de casa. Estive andando por ai. E nunca mais vou voltar.

Thursday, January 31, 2008

Sempre aparece em casa e sobe sem interfonar fumando no elevador. Quando abro a porta, entra sem me olhar. Sequer um oi. Só uma fumacinha pelo canto da boca. Caminha até a geladeira e reclama pela falta etílica. Nem respondo. Só aperto sua bundinha magra e cheiro seu cabelo escuro e seboso como pêlo de vira-lata. Na janela arremessa a bituca para depois cuspir. Daí fica apoiada com a bunda empinada e solta um comentário impertinente sobre a cidade, sobre a decadência da noite. Mameluca safada, sabe que gosto das curvas das suas costas contra o reflexo das luzes lá de fora. Você é a desgraça em mulher. Já colocou um monte de filhotes da burguesia na droga. Já entregou traficantes para apodrecerem com as suas dívidas. Já me ameaçou com uma faca e tomou uma surra e sempre lembra disso rindo. Respira fundo e me encara e desvia rapidamente o olhar. É tímida e disfarça. Aqui você não engana ninguém. Vamos ouvir um disco do Bo Diddley, eu digo. Ah, você quer cerveja? Então eu abro a carteira e tiro dez contos e lhe entrego. Ligeira pega a grana e se vira rebolando com um sorriso oferecido e satisfeito no rosto e fala que vai até a pizzaria pegar umas latinhas pra gente. Enfio a mão dentro de suas calças e esfrego na sua pele macia como de uma criança. Leite dáveia davene, você sempre diz. Você se vira e me encara de novo. Olho no olho. Um cheiro de cigarro. E esses peitinhos? Putinha barata. Da janela vejo você acenar para o pessoal da pizzaria e atravessar a rua entre os carros no congestionamento da Augusta. Desaparece com minha última nota e não volta mais. Eu já sabia.

Tuesday, January 29, 2008

http://www.woostercollective.com
prometi que começaria a semana direito.

começo com isso, então. coloco no som. não dá pra abrir o vidro do carro, aproveito e aumento. uma dona ao meu lado, num desses jipes novos todo panca, não entende nada. tudo embaçado que nem uma nuvem. penso em acender um cigarro. abro o vidro. entra a chuva e tudo, os barulhos da rua se misturam com Chuck. mordo o crivo e mando um sorriso pra dona. prometi que começaria a semana direito. tá tudo parado. o pedinte aleijado aparece e faz uma dancinha firmeza, mexendo a única perna que tem como uma minhoca, depois apóia os suvacos nas muletas e bate palmas mostrando os dentes num sorrisão. saco um cigarro e lhe entrego. Chuck Berry é foda.



Eu gosto quando chove em São Paulo.





01 Memphis, Tennessee [2.11]
02 Almost Grown [2.19]
03 Maybellene [2.19]
04 Johnny B. Goode [2.38]
05 No Particular Place To Go [2.42]
06 No Money Down [2.57]
07 Thirty Days [2.22]
08 Too Much Monkey Business [2.55]
09 You Can't Catch Me [2.42]
10 School Day [Ring! Ring! Goes The Bell] [2.41]
11 Sweet Little Sixteen [3.10]
12 Around And Around [2.39]
13 Carol [2.47]
14 Little Queenie [2.40]
15 Back In The USA [2.27]
16 Nadine [Is It You ?] [2.35]
17 You Never Can Tell [2.41]
18 Promised Land [2.23]

baxaê

Monday, January 28, 2008

é aniversário da cidade. ando pelas ruas sozinho. ruas que nunca cruzei antes, nem em sonhos. um vento frio bate de frente e balança as árvores para todos os lados. Fico olhando uma igreja antiga e bonita, com uns vitrais brilhantes e coloridos. atrás dela o céu está sinistro e encoberto por nuvens carregadas, empelotado, numa explosão de tons cinzas, como um pano de chão imundo. o asfalto, o concreto, o céu, cinzas. as árvores num verde escuro e vivo. assustador. sinto-me pequeno ali no meio. e aquele estranho contraste causa-me náuseas. algo estranho por dentro, ruim. como se eu não estivesse inteiro, completo. Como se alguns pedaços estivessem faltando e precisassem ser encontrados e varridos, e depois colocados de volta no lugar. minha visão embaçada e aquele sentimento atormentando meu estômago, minha mente. por que deus me fez assim? continuo andando quieto. desejo baixinho que tudo aquilo suma da mim, que fique para trás. cruzo ruas por onde nunca andei antes. nem em sonhos. é aniversário da cidade. Parece que ninguém está comemorando.
Quando chego em casa depois de um dia longo, gosto de ficar no sofá escutando alguma coisa suave. Geralmente ouço folk ou um country bem antigo. Talvez para dar um rolê fora da cidade dali mesmo, do sofá, deitado sobre a poeira das incertezas e o cascalho da ansiedade. Nesses dias nublados de horário de verão, tudo fica ainda mais confortável. Com o vento entrando pela janela e balançando as folhas da trepadeira na janela, a caixa de som que chia nas notas mais graves, à espera da noite entre uma xícara de chá e uma bolacha preza. Tomando conta de porra nenhuma. Fico com Nick Drake ou Phil Ochs que falam sobre guadalupes e fumar demais, de colinas da Virgínia e carpinteiros solitários do oeste, de problemas com o carro velho. Ramblin’ Jack Elliott e Bob Wills & His Texas Playboys. Às vezes escuto Sérgio Reis também. Tenho um vinil velho com a capa toda descolada com as melhores músicas do vaqueiro sertanejo. Gosto do campo e do conceito de sossego, mesmo que isso ainda seja um pouco distante de um ideal de vida para mim. Nem cachorro eu tenho. Muito menos um rifle ou uma cadeira de balanço. Tenho apenas um punhado de músicas, um maço pela metade e um fim de tarde vazio.


Phil Ochs - "Ain't Marching Anymore"*
1. In The Heat Of The Summer
2. Draft Dodger Rag
3. That's What I Want To Hear
4. That Was The President
5. Iron Lady
6. The Highway Man
7. Links On The Chain
8. Hills Of West Virginia
9. The Men Behind The Guns
10. Talking Birmingham Jam
11. Ballad Of The Carpenter
12. Days Of Decision
13. Here's To The State Of Mississippi