Friday, August 10, 2007

sensação de morte sem gelo

Acordei hoje bêbado depois de uma jornada noite adentro na praça Roosevelt. Foi difícil chegar no banheiro, foi escroto apontar o pau pro vaso sem evitar molhar tudo ao redor. Lembro de uma vez, numa situação muito parecida, que quebrei dois dedos do pé direito numa topada tentando chegar ao banheiro. Hoje tomei um banho, mandei uma salsinha crua pra forrar o estômago que estava efervescendo, numa mistura de nicotina com espuma de cerveja, e corri pro trampo. A primeira parte do dia até que correu bem, mas eu fiquei faminto, numa fome nojenta da ressaca, seria capaz de comer até tampas de panela sem sal e, ao invés de dormir uma miserinha, fiz a merda, caguei no mato por tentar a sorte no Andrade, um restaurante nordestino em Pinheiros que eu nunca tinha ido. Sou fanático por carne de sol e feijão verde e podia visualizar o prato. Já no recinto, enquanto esperávamos o rango, minha cabeça começou a dar tilts e eu cuspia nas mãos, que lembravam o leito de um rio seco, para dar uma hidratada. Arrêgo. A comida demorou pra caralho e, quando chegou, a carne de sol com farofa que pedi parecia um monte de areia numa travessa de ferro. Não entendi, mas não estava em condições de questionar porra nenhuma, apenas meti o garfo ali e senti algo mais sólido no fundo. Cavei e encontrei um pedaço de carne enterrado como uma havaianas esquecida há anos numa praia carioca. Mesmo sentindo muita falta do maldito feijão verde, um dos pratos mais tradicionais desses restaurantes típicos nordestinos, comi feito um porco, ofegando e deixando grãos de arroz escapulir pelas arestas da boca. O sono veio como um soco no queixo. Sentia um desespero desgraçado dentro do corpo morto. Quando pagamos a conta, já não entendia onde estávamos olhando através das pálpebras. Quando chegamos ao escritório, me esforcei e fui dar uma volta na rua para animar um pouco a carcaça. Ainda estou acordado, tentando agir naturalmente ao som de Bad Brains para ficar alerto, com uma vontade desgraçada de mandar tudo pra casa do caralho.

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