Friday, October 03, 2008

por onde errei

sob um amanhecer cinzento, estou unido aos desesperados do meu tempo, nas experiências destrutivas de uma grande cidade. sinto a aflição gelada de catraca percorrer minha veias. minha visão turva tenta definir os ângulos dos fios nos postes, das sarjetas carcomidas, dos primeiros ônibus com os letreiros ainda acesos. o rugir do tráfego acordando e meu silêncio de duas noites sem dormir. olho meu reflexo na porta de vidro de uma loja recém aberta e sinto uma prazer mundano por estar nas beiradas do inferno. jogo algo para trás sem perceber. olho lá. diaristas melancólicas com sacolas cheias esperam. viciados asmáticos de olhos fundos vagam numa busca sem fim ou motivo. mendigos enrolados em cobertores da cor do pavimento. eu. prostrado na manhã. o vento cortando por dentro. sem nome. com cheiro de cachorro molhado. sem medo e nada pra cantar. apenas estranho. 

1 comment:

Adriana said...

Texto forte, denso, bonito. Me lembrou Jonh Steinbeck, não sei por que.
Escreva mais, vc sabe das coisas. Abraço.