Wednesday, June 17, 2009

o Pinduca deu a letra:

"Saiu resenha sobre A Musa Chapada no jornal O Estado do Maranhão"

POESIA CHAPADA EM LIVRO

Em A musa chapada, poemas de Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte ilustrados por Carlos Carah apresentam novas possibilidades para a relação poesia e drogas.

POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO



[A musa chapada. Capa. Reprodução]

Não é novidade a relação entre literatura – ou mais especificamente poesia – e drogas. Não é fácil também criar algo novo nessa relação que não cheire – opa! – a apologia barata, as lições de moral da auto-ajuda ou umbiguismo autobiográfico (para o bem ou para o mal e, às vezes, também com lições de moral baratas).

Em A musa chapada [Demônio Negro, 2008, R$ 20,00 em http://www.sebodobac.com], o encontro dos poetas Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e do desenhista Carlos Carah, expande – ops! – o entendimento que se tem sobre o que é “droga” – se à menção do termo você só pensa em maconha, cocaína, crack, merla, heroína, haxixe e similares, que tal acrescentar a TV e alguns de seus programas no drugs hall of fame (principalmente a fé vendida na tela)?: “no canto da sala a TV ligada/ o pastor gritava/ (...)/ o poeta pirava/ “meu deus como pode/ tanta merda enlatada?/ que gente mais troncha/ que vida fodida/ (...)/ o real é a ilusão virtual dos que batem a cara contra o muro””, rima Ademir Assunção em A volta do anjo torto, poema com referências explícitas a Torquato Neto e Raul Seixas, dois malucos geniais.

Dedicado “à memória de Sérgio Sampaio”, e trazendo Itamar Assumpção como epígrafe, o trio dA musa chapada está bem acompanhado. Seja pelos beats, referência obrigatória em se tratando do assunto – e influência confessa dos poetas e do desenhista –, seja pelas personagens que povoam o livro: Lili Maconha, Mister Morfina, a Senhora dos Sonhos, O anjo do ácido elétrico (título de poema de Ademir Assunção), Santa Maria Joana (idem), Johnny Walker e João Bafo de Onça, entre outros, além da música de Miles Davis.

O recado de Antonio Pietroforte é direto em Poligonia do soneto III: “quem diz que a droga mata anda errado/ tampouco, acerta aquele que comenta/ “usuário dá dinheiro a traficante,/ promove, com seu vício, a violência”/ prefiro dar dinheiro pra bandido/ que vende, honestamente, seu produto/ se pago imposto, não recebo nada/ sustento deputado vagabundo/ violenta é a fala da polícia/ que fuça, no meu bolso, feito rato,/ aumenta, com propina, seu salário;/ a erva que se fuma só acalma,/ trabalho mata mais do que cigarro,/ por isso que eu fumo pra caralho!”


[Um dos desenhos de Carlos Carah em A musa chapada. Reprodução]

Nem um nem outro – nem o desenhista – ligam para o que é (ou não) politicamente correto. Dão seus recados sem transformar sua obra num apático manifesto a favor ou contra nada – a legalização das drogas, por exemplo. O que os autores fazem é apresentar a realidade nua e crua – mesmo em poemas ficcionais –, a inegável realidade da São Paulo paisagem dA musa chapada – mas não pensem que é diferente em outros lugares do mundo, bem aí do seu lado deve ter uma boca de fumo, uma “filial” da cracolândia, lugares simplesmente feios e sujos para a maior parte dos olhares conservadores. A vantagem é que ninguém é obrigado a nada.

Entre o lirismo e a ironia, os poemas de Ademir Assunção e Vicente Pietroforte tão bem ilustrados pelas “lentes manuais” de Carlos Carah são verdadeiros clipes de uma sociedade onde puritanismo é (quase) sinônimo de hipocrisia e, num circo de vaidades, (quase) todos se preocupam somente em consumir (drogas, inclusive) e produzir (por obrigação), sem olhar para o lado (leia-se, para os problemas que as/nos rodeiam), obtendo um pseudoprazer que, infelizmente, por vezes as satisfaz. A musa chapada é um tapa seguro e sonoro nesse bom-mocismo, nesse conformismo. Vai encarar?

*ZEMA RIBEIRO escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

[No Alternativo, O Estado do Maranhão, de ontem]

2 comments:

Adriana Godoy said...

Porra!!! Genial...o cara sabe das coisas. Seu desenho bom demais...beijo.

andre said...

fudido