Wednesday, May 07, 2008

encontre-me na cidade


"filho, os malucos sem náipe pegam muito mais mulher"

Uma coisa leva à outra. Cheguei na Fat Possum procurando vinils do Black Keys, mas antes andei pesquisando sobre o tipo de porcaria que esses caras mastigaram para chegarem ao que se tornaram. Descobri numa entrevista na net que a principal coisa que eles ouviam enquanto faziam a lição de casa era Junior Kimbrough - eles lançaram até um EP só com músicas do negão casca-grossa. Até 2 semanas atrás, nunca tinha escutado bulhufas desse bluesman, agora seu som não sai da minha cabeça. Nascido em 1930 no norte do Mississippi, longe das margens do Delta e das plantações de algodão, aos 8 anos teve seu primeiro coma alcoólico e aprendeu a tocar guitarra sozinho. Como todo bluesman que se preze, o cara tem uma história incômoda como dor de dente no frio. Aquelas velhas mazelas dos resquícios da escravidão, o abandono dos pais, a miséria e a necessidade e, lógico, o forte amor pela música. Pelo que pesquisei, em 1954, Kimbrough ruma para Chicago numas de tentar a sorte, arruma uma caralhada de subempregos e tenta gravar uma música com Sam Phillips, o chefão da Sun Records. A tentativa foi em vão. Logo ele pega sua suitcase e volta pro Mississippi, senta na beira do rio, toma um trago e decide abrir uma juke joint, um desses barracões onde os negões faziam festas com som ao vivo e era uma diversão do caralho. Ele tenta gravar novamente por outro selo e... nada, de novo, por isso dedica-se ao seu humilde pub, onde pode tocar pra quem quiser ouvir e pau no cu do mundo.
Somente em 1979, um professor de música da Universidade de Memphis, que havia visto Kimbrough tocando em sua espelunca, convida-o, junto com Jessie Mae Hemphil e R.L. Burnside (se liga na nata) para gravar algo para um selo que ele estava inaugurando, o tal do Fat Possum, que na época era voltado para um blues mais tosco, de poucos acordes, muito groove e bateria simples e marcada, fugindo do que estava acontecendo com o gênero naquele momento, aquelas fusões grotescas de rock bosta e blues cheios de solos da moléstia e total falta de postura. Essas gravações ficaram encalhadas até 1992, quando um tal de Robert Palmer, que estava fazendo um documentário sobre o blues do Norte de Mississippi Hill - um canto do estado onde o gênero e seus músicos eram pouco conhecidos apenas por puro desalinho - bateu de frente com o som de Junior Kimbrough e gravou seu primeiro albúm "Do The Rump", que fica mais uma vez encalhado e esquecido. Esses dias, eu, tentando prestar atenção na música, ao invés de apenas aproveitar, dentro do carro de madruga onde o som alastra minha mente, percebi que o blues de Kimbrough é um tanto estranho por natureza, algo que ele buscou nos primórdios não tão distantes de seus irmãos de sangue que empunhavam suas violas em cadeiras de balanço nas varandas de madeira podre com vista para as plantações, de Blind Blake e Skip James e Furry Lewis, na sua levada hipnótica e sonolenta como um barato forte, como o som de uma tribo africana em chorosos cânticos fúnebres. Eu tive essa impressão. Não, na verdade, eu vi isso, caralho.
Quando o filme foi lançado e apresentou o estilo de Kimbrough ao mundo, ele já fazia aquilo havia mais de 40 anos. Somente assim seu primeiro álbum foi lançado e as pessoas o perceberam. Daí a revista de mauricinhos maquiados Rolling Stones o considerou o melhor disco de blues da década. Daí Junior Kimbrough caiu nos braços dos roqueiros, daí sua juke joint passou a ser freqüentada pelos Rollings Stones que pagavam drinks para todo mundo e sorriam; e o Sonic Youth; daí o boca-de-subaco Bono Vox também costumava mostrar sua bunda mole por lá; Jon Spencer ficava no balcão em silêncio, martelando sua bota no piso no mesmo ritmo.
Nessa época, Kimbrough já se encontrava bastante judiado pela idade, não podendo mais encarar uma turnê, embora não faltassem convites. Ainda assim, Iggy Pop o convenceu a fazer uma canja em seus shows pelos EUA. Em 1998, Junior morreu de ataque cardíaco assistindo TV no sofá de casa. Seus filhos continuaram cuidando de sua juke joint, até que um dia, no ano 2000, ela foi consumida por um incêndio premeditado que levou tudo, discos, equipamentos, gravações raras e pôsteres originais. A única coisa que sobrou mesmo foi sua música, que vaga por ai e atinge uns otários como eu, que estou aqui agora, novamente, sendo castigado por uma noite mal dormida e pela voz de trovão desse desgramado. Até aqui tudo bem. “I Feel Allright”. (baixa essa, eu tô mandando, ou vá se foder)
Na fissura de vasculhar algum arquivo do maluco no rapidshare, sem querer encontrei um tributo ao cara, lançado em 2005, seis anos após sua morte, que possui um absurdo de companheiros fazendo versões igualmente absurdas. Tem lá Blues Explosion, Iggy Pop & The Stooges em 2 versões porretas de “You Better Run”, The Fiery Furnances fazendo miséria em “I’m Leaving”, e Mark Lannegan, pra citar os mais conhecidos. Ah, não tem o Bono não. Vai na fé.
*esse texto foi revisado bem por sima.


"God Knows I Tried" - Junior Kimbrough (rapidshare)
1. You're Gonna Find Your Mistake
2. How Do You Feel
3. I Gotta Try You Girl
4. I'm In Love With You
5. I Cried Last Night
6. Keep On Braggin'
7. Tramp
8. All Night Long (instrumental)





1. You Better Run Version #1 - Iggy and the Stooges
2. Sad Days Lonely Nights - Spiritualized
3. Meet Me In The City - Blues Explosion
4. Done Got Old - Heartless Bastards
5. My Mind Is Ramblin' - The Black Keys
6. I Feel Good Again - Pete Yorn
7. Do The Romp - Entrance and Cat Power
8. I'm Leaving - The Fiery Furnaces
9. All Night Long - Mark Lanegan
10. Release Me - Thee Shams
11. Done Got Old - Jim White
12. Lord Have Mercy On Me - Outrageous Cherry
13. Pull Your Clothes Off - Whitey Kirst
14. I'm In Love With You - Jack Oblivian
15. Burn In Hell - The Ponys
16. You Better Run Version #2 - Iggy and the Stooges

5 comments:

ninguem said...

Espero apenas que a maior parte dos jornalistas de "música" morram chorando de diarréia essa noite.
Você apavorou na parada. Obirgado pelo negão.
Vamo falá das imagem, dos animamento, de tudo isso. Vamo?...porra...

Anonymous said...

vamo nos encontrar esse final de semana. a gente senta na sarjeta e fala sobre isso. falando sério.

cc

cra said...

puta que pariu. esse som é o que sempre esperei de um som. valeu.

spencer cunha said...

to baixando aqui!
gostei muito de ouvir no parlapatoes.
um abraço.
spencer

Adriana said...

Depois dessa biografia é ouvir o som e dizer: Puta que pariu!! Que som! Muito intenso!