Monday, May 26, 2008

sobre vinis

no ensolarado último sábado, encarei o centro da cidade na sede de adquirir velhos discos. Acompanhado de dois grandes trutas, fomos a Galeria Nova Barão, na loja do Tuca, a Perdição & Ruína para quem, como eu, acredita que a única coisa que ainda presta nesse mundão é a música. A variedade é grande ali, rola encontrar desde coisas esquecidas de Chet Baker e Ray Charles a rockablillies de primeira, ou até um death metal das profundezas de El Diablo; tem até uma caixa comemorativa do Caetano, com uma pintura dele sorrindo debaixo de uma juba horrenda, deu uma vontade louca de lamber; um 7” do Silvio Santos; a caixa do Sonic Youth “Daydream Nation” - uma reedição comemorativa com faixas ao vivo e algumas raridades. Eu cheguei já na febre de pegar um Eddie Cochran e um Bob Dylan (que havia sido vendido), na fissura arrastei um Gene Vincent pra sacola e um Carl Perkins também. Daí sentei ali fora e fumei um cigarro batendo uma prosa com Tuca, Cabeça e um outro cara bem firmeza. Expliquei que não queria fuçar mais, que é preciso ir aos poucos, tal, que comprar discos é como comprar drogas em bocadas sórdidas. Dá até um barato na cabeça. Depois rola aquela ansiedade monstra de chegar em casa para ouvir. Como Frasa, meu camarada, em seu entusiasmo quase infantil com as pérolas que encontrava e mostrava das prateleiras pro pessoal lá fora, não terminava nunca sua busca, parecendo uma dondoca em loja de roupa de shopping, resolvi dar mais uma garimpada, e, não é que meus dedos encontraram do nada um Woody Guthrie. Pá. Senti sobre meus ombros os olhos crescerem, mas já era tarde, movido pelo impulso eu já sacara a carteira e estendia placidamente 18 reais para Tuca. Depois, ainda fomos encher a pança no Sujinho. Passei o domingo ouvindo meus vinis novos. Woody Guthrie e Junior Kimbrough eram os mais solicitados. Parecia que um furacão havia passado e eu estava estirado numa planície desolada com todos os pedaços de telhados e paredes e carros ao meu redor. Cansado. Mergulhado nas águas mais profundas e escuras de um lago. Minha casa imunda e minhas pernas doendo do tanto que andei sem rumo através do feriado. Vi todos os dias nascerem sem o menor entusiasmo. Quando chegava em casa, a primeira coisa que fazia era colocar uma bolacha pra girar, assim situação ficava mais tranqüila. Calma, eu pensava. Assisti toda a pilha de faroestes que estava esquecida sobre a caixa de som. Alicate miava dependurado numa árvore. Alguns times perdiam na televisão, outros ganhavam. Um novo livro eu tentei começar, mas a concentração estava tão perdida quanto meu sangue gelado. Limitei-me ao último volume do Preacher que eu estava segurando para não terminar. Sonhei enquanto encarava a quina do teto. Devorando um cacho de bananas que comprara na feira, eu me imaginava na estrada outra vez. O sobe e desce das serras resplandecentes, as curvas em cotovelo, a carne moída dos cachorros no asfalto. Escutando Blind Willie McTell debulhar a viola e o motor trabalhando acima dos 3000 rpm. Preciso apenas sumir um pouco. Escorregar pelas retas do Brasil central cercado por plantações silenciosas de soja e café. Preciso eliminar os musgos da alma. Mijar no acostamento de cascalho olhando o horizonte. Deixar tudo pra trás sem vestígios. Uma pausa. Por um tempo. Novos ares. Velhos tormentos.

7 comments:

isaac said...

grande texto.

Anonymous said...

valeu, Isaac.

carlos said...

a galeria nova barão fica na barão? preciso chegar nessa loja.

Anonymous said...

Carlos, acho que é na barão mesmo. fica na galeria Nova Barão. só precisa subir a escada rolante, tem até um banner grandão avisando sobre lojas de discos. e rola também um escritório dos sobreviventes da Cultura Racional.

mariana said...

gostei dos "musgos da alma"... eu tô ouvindo um tom waits e cultivando os meus, por enqto ainda não posso sair por aí...

carlos said...

valeu. qualquer dia vamos tomar um trago, cara. porque é o que vira.

OFAC said...

Oooooo Dondóca Froxa.

http://www.youtube.com/watch?v=zCOvaEB2zs4


Ti fudê Cu Froxo!

abrax

assiste esse video q é quente!