Wednesday, May 05, 2010

todas as quintas de Maio

ferve

Wednesday, April 28, 2010

Big Rock Candy Mountain

Sempre me pergunto para onde vão aqueles andarilhos esfarrapados quando cruzo com algum deles, cambaleante, com grandes olhos que brilham sob os faróis do carro no acostamento de uma rodovia erma à beira de uma cidade que não existe. Completamente isolado da civilização moderna. Talvez para lugar nenhum. Quem sabe um eterno retorno. Ecos de delírios espumantes para as estrelas no manto negro do céu. Eu vejo o vagamundo caminhando para lugares abandonados e baldios dentro do seu peito, como uma criança de três anos esquecida num parque de diversões semi-desativado, e tento imaginar para onde vai aquele homem e no que ele pensa. Expressões silenciosas na pele vincada pelo sol que cobre os ossos protuberantes. Rosto de granito. Cobertores com marcas de cigarros e carrapichos. Panela sem cabo. Caixa de fósforo vazia. Fadiga permanente e saudade perdida. Nada em lugar nenhum. Sentado no chão, perto de uma fogueira, solitário com resto do mundo que gira ao redor. Indo e vindo no balanço de alguma bebida genuína. Às vezes quando me sinto fajuto, completamente do avesso, fumando furiosamente deitado no colchão olhando o ventilador lento no teto, percebo o andarilho. E sinto inveja de sua bravura.

Friday, April 23, 2010

estréia sábado, 21hs



"os pterodátilos foram os animais mais graciosos que já voaram nesse mundo."

também aos domingos, 20hs, no Espaço

Sunday, April 04, 2010

Wednesday, March 31, 2010

só mais uma coisa, saca só que foda o Alex Chilton mandando "I Will Always Love You" numa rádio em Memphis, em 1975. e sim, essa música é aquela uma lá que a Whitney Houston canta, que na verdade é uma composição da Dolly Parton, que canta "Jolene" e por ai vai...

Chilton morreu há 2 semanas. ele foi guitarrista do Big Star, uma banda foda dos anos 70. o primeiro disco deles, #1 Record, é considerado em muitas listas por ai um dos discos mais tristes da música pop.


"I Will Always Love You"
- Alex Chilton

roubei o Boogie Woogie Flu. tem muito mais lá.

estreou

“Brothers” o sexto disco de estúdio do duo The Black Keys será lançado no dia 18 de Maio. Experimente “Tighten Up” - uma das 15 músicas que estarão no disco -, produzida pelo Danger Mouse.

“Tighten Up” - The Black Keys

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Ontem assisti o documentário “End of the Century – The History of Ramones” que o chapa Marcelo Montenegro gravou pra mim. Bem alto de madrugada na televisão. Emocionante. Aquele caralho de banda salvou minha vida diversas vezes, mergulhado numa calçada rachada com um bando de amigos violentos cantando “Here Today, Gone Tomorrow”, com todo o entusiasmo da juventude escorregando sorrateiramente do bolso de trás da calça jeans justa de Dee Dee.
Hoje eu ainda continuo a me sentir inadequado cortando as unhas dos pés no sofá às três da madrugada ouvindo Ramones. Nada novo. Nada. Sequer algo passageiro ou uma música do Bowie na cabeça, aquela dazantiga em que ele diz que nunca fez coisas boas. Já que às vezes o que resta mesmo é chutar latas num fim de tarde nublado de um domingo de feriado prolongado em São Paulo, com o sol se pondo atrás dos edifícios e as luzes dos postes acesas, quando as sombras começam a abraçar as poucas pessoas na rua e eu finjo ser Joey Ramone só para me tolerar um pouco.

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ando viciado na Estante Virtual. Lá encontrei a “Última Saída para o Brooklin” e “Réquiem para um Sonho”, dois livros fora de catalogo de Hubert Selby Jr. que passei a adolescência procurando em sebos de diversas cidade brasileiras. É possível encontrar tudo lá e eu, imbecil, não me toquei antes. A coleção completa da revista Animal ou até mesmo a lendária Circo. Firmeza. Já chamei pelo “Mulheres”, do Bukowski e “A Lua do Falcão”, do Sam Shepard. Agora vou ali buscar a biografia do Frank Sinatra que está disponível num sebo aqui na Teodoro.

Thursday, March 11, 2010

hoje.

tô lá já.

Wednesday, March 10, 2010

Sunday, March 07, 2010

a life along the borderline

e neste final de semana mais um sujeito atormentado e talentoso deu um jeito de escapar pela porta dos fundos. Mark Linkous suicidou-se no sábado. Linkous era mais conhecido pelo seu projeto de alt-country Sparklehorse. Algumas de suas músicas são grandes experiências de como se sentir triste e confortável num sábado de sol. confira abaixo o belo vídeo de "It's a Wonderful Life":

Thursday, March 04, 2010

Bad Dog

São 5 horas da tarde. Shirley está sentada nua de tênis no azulejo azul da varanda. o quintal dela. com seu velho hábito inofensivo de riscar os braços com uma lâmina gasta de estilete. Fico um pouco intrigado com a rede que ela está usando nos cabelos. E tem um filho da puta buzinando na esquina há horas. Ecos intermitentes dentro da sala de estar onde durmo como um moribundo de favor. Rumores moídos espalhados num prato estilhaçado com restos da noite anterior. Uma caixa de areia entupida com a merda do gato atropelado. A casa está cheia de pessoas que não conheço nem de vista, hippies desdentados que mijam em potinhos e que gostam de massagem e da puta da mãe natureza deles e dos executivos preocupados. Tentam argumentar com calma, bastante dengo comigo, sobre como sou um sujeito sortudo por ainda estar vivo. Mas é à noite que eles ficam bêbados e choram ouvindo música mexicana. Shirley sempre chora mais que todos e berra sem saber agüentar as conseqüências nem medir as chances, mesmo assim, vai morrer de velha, eu sei, com o rosto inacreditavelmente enrugado e cistite. E todos falam muito alto, parecem caricaturas circunspectas e imundas que só falam merda, rumores. Sempre que acordo no meio da sala, nesse colchão úmido de solteiro sem lençol como comida esquecida num prato na geladeira, penso em Miyamoto Musashi de cócoras cagando em sua caverna escura elétrica. e chove torrencialmente e uma cortina d’água se forma na entrada da gruta.

Tuesday, March 02, 2010

Uma mosca enorme voa ao redor da minha cabeça. O fedor que meu coração louco exala. Pela janela vejo um doido que vaga se esgoelando noite adentro no meio da rua; os carros desviam dele complacentemente. Os faróis brilhando no asfalto molhado. Sombras surgem e desaparecem nas paredes do meu apartamento, como alucinações de um drogado solitário em abstinência. No quarto ao lado, um pecador sem fé seca suas lágrimas sob a escuridão azul e oblíqua que precede o amanhecer, sentado no chão com uma arma carregada no colo, pensando em dar um tiro nos miolos. O grito do louco chama através dos trovões. Moradores de rua que esperam o juízo final nas margens lamacentas das sarjetas do centro. Aquela música que costumávamos cantar toca baixinho na vitrola com estalos em plic plocs. A mosca zumbe ao redor da minha cabeça. A agulha suja e empoeirada desliza sobre o vinil como um carro descontrolado numa curva molhada. Resolvo pegar minha garrafa de uísque e as chaves do Chevy. Já não me sinto tão mal. Tento apenas entender toda essa obsessão sinistra pela morte que os moradores dessa cidade compartilham em silêncio. Uma forma permanente de autodestruição, nos empurrando lentamente na direção da janela. Um abalo físico. Uma necessidade. O resultado é sempre dramático. Pessoas desconhecidas e repletas de fúria. Somos, provavelmente, mais perigosos para nós mesmos do que para os outros.

E vice versa.

Monday, February 08, 2010




Hoje, após passar boa parte da década enjaulado por posse de cocaína e violações de condicional, Gil Scott-Heron, um dos maiores poetas americanos vivo, lança seu primeiro álbum de músicas inéditas em 13 anos. Muitos achavam que ele estava até morto. A XL Recordings coloca na praça “I´m New Here”, um projeto de 4 anos de trabalho junto à Richard Boss - o dono da gravadora independente que possui um catalogo invejável - que foi até a prisão convencer Scott-Heron a gravar e lançar a parada. Você pode escutá-lo na íntegra aqui. Descolei o primeiro single, “Me and the Devil”, uma adaptação assombrosa de “Me and the Devil Blues”, uma das 29 músicas que Robert Johnson gravou nas lendárias sessões num estúdio no Texas. Com percussão eletrônica marcada, típico da black music que Scott ajudou a criar e influenciou desde o começo dos anos 70, a música segue densa e arrastada e coloca o diabo ao seu lado num começo de noite. A canção que dá nome ao disco é uma cover do Smog, também conhecido como Bill Callahan, um folk que fala de recomeço e que, na voz de Scott, soa como bluesman esquecido no canto mal iluminado de um bar. “Your Soul and Mine” surge com uma base eletrônica e sintetizadores fazendo clima para a poesia de Scott-Heron. “I´ll Take Care of you” é uma pérola soul carregada de anseio na voz poderosa do crioulo chapado. O disco, sem dúvida, é um dos lançamentos do ano.

Gil Scott-Heron - "Me And The Devil"

Sunday, January 17, 2010

a home in heaven

grande disco este "All Most Heaven", do Bonnie 'Prince' Billy com Rian Murphy. confesso que não conhecia. "Fall Again" é perfeita.

aliás, ando me entupindo de vinis do Will Oldham, já adquiri 3 deles só essa semana. passar uma tarde vasculhando lojas de discos é uma das minhas maiores alegrias. ontem adquiri "songs of love and hate", do Leonard Cohen; "trout mask replica" e "clear spot", do Captain Beefheart; o clássico "histoire de melody nelson", do Gainsbourg; e "Ramblin'Man", do Hank Williams.

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aqui uma música do WO, de outro disco (Ask Forgiveness), que gosto bastante.
"Cycles"- Bonnie 'Prince' Billy

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ontem descobri que minha perna está bem melhor. após tomar uma pá de cervejas variadas, rolei escada abaixo num bar estranho aqui na cidade perdida onde estou. não entendi muito bem o que aconteceu, mas minha bota subitamente perdeu a aderência logo no primeiro degrau, assim, escorreguei de costas até a curva da escadaria que leva ao banheiro no subsolo. fiquei alguns segundos me recuperando, sem olhar para trás, disfarçando a enorme vergonha que me consumia, no entanto, logo que me levantei, perdi novamente o equilíbrio e outro estabaco veio para completar o percurso até a porta dos lavatórios. o sujeito que estava saindo de uma das cabines deve ter imaginado que eu fosse alguma espécie de imbecil performático engraçadinho, já que me encontrou, após todo aquele barulho de carne batendo contra madeira, com um sorriso de merda na cara, estateladão com uma lagartixa no azulejo mijado. agora manco da perna direita.

Saturday, January 16, 2010

é verdade. deve ser. pelo menos a metade. não vou ignorar que brasas brilham mais sob o vento. uma cadeira num incêndio numa sala cheia de cortinas. deve ser verdade. chamas que se transformam em fumaça rápida planando em voo de condor sob um céu escuro. cinzas que se espalham e entopem meus olhos. é metade verdade. tarde. um lugar perfeito e brilhante para dormir. belo e confuso. e flamas e pulso. cabos elétricos sob o crepúsculo . deve ser tarde. eu acho. minha cabeça apagada com água gelada da pia de um banheiro de azulejos azuis. velas de outono numa janela de madeira pintada de branco. deve ser verdade. deve ser tarde.

Tuesday, January 12, 2010

And then I see a darkness



viajando através do norte profundo, onde tempestades brancas não eram tão densas há tanto tempo. onde as pessoas aprendem a se consolar sozinhas em seus monitores. dois homens encapuzados carregando baldes, com os dedos encolhidos, por uma rua mal iluminada gritam para mim, do outro lado, melhor encontrar teu rumo, parceiro, parece que foi isso. um sonho, talvez, já que as noites daqui escurecem cedo nessa época do ano. portas e janelas e olhos claros se fecham. pedaços de bonecas em sacos plásticos de lixo coloridos na lama de fuligem. carros, placas e pavimento congelados sob uma camada espessa. galho seco e calefação. igrejas assombradas. no jornal, uma garota que morreu no ano novo após um longo período doente.


"Bernadette & her crowd"
- Vic Chesnutt

Tuesday, January 05, 2010

The Bassholes - "(Don't You) Look Sideways At Me"

um hino de guerra sangue
no olho blues
pós-apocalíptico.
tqparil.

Monday, January 04, 2010



nevou bastante esses dias. as pessoas se aglomeraram para comemorar o novo ano com fogos e algazarra. preferimos fugir para a casa que range como uma idosa se agachando. um lugar legal que nos protege das fortes lufadas dos ventos ocidentais. a apocalíptica cidade está coberta por uma camada grossa de gelo. tudo cinza e branco, com neons ocasionais numa nebulosa meia-noite. percebo que minha perna esquerda ainda não melhorou quando, mesmo que de leve, perco o equilíbrio no ritmo lento e perigoso da vida. eu precisava desaparecer no meio do caos, longe de alarmes despertadores ou barracas de acampar. está funcionando. fico em silêncio, leio e jogo conversa fora com minha mulher.