Tuesday, November 18, 2008

Severino aparece tarde. fedendo como de costume, inchado, com os olhos lacrimejantes e os ombros encolhidos, chega devagar depois que eu abro a porta e com sua voz pastosa pergunta: 

- tem um cigarro?
- claro. entra.

ele me conta que o pai do Alexandre morrera de AVC e que depois do enterro todos foram beber à sua memória. disso eu já sabia. seu Jeferson, o pai do Alexandre, era um grande cara. passavámos muitas madrugadas em sua casa jogando cartas e tomando conhaque Presidente. a molecada toda. ele era sempre o mais animado. creio que fazia isso numa forma de nos manter longe das ruas. mas ele sempre perdia. perto das 5 da manhã, seu Jeferson se levantava e começava a lavar a louça da pia. era o sinal para que cada um arrumasse seu canto e dormisse. eu sempre capotava sobre um tapete felpudo que ficava no espaço entre a mesinha de centro e o móvel da televisão.

- porra, um monte de gente continua morrendo - Severino diz, parece muito triste.
- é. a morte está sempre presente.
- mas o Tex Willer continua firme e forte - ele diz isso enquanto aponta o indicador para a janela aberta.
- é. 
- ele nunca envelhece...
- como está o Alexandre?
- ele queria saber de você. porra, creio que agora as coisas vão realmente fuder pro maluco. ele estava silencioso hoje, o tempo todo, talvez tentando pesar suas chances. tentei conversar, mas ele continuou quieto, dolorosamente sensível.

Alexandre é meu amigo desde à infância. crescemos juntos. seu pai tinha um Fiat 147. a gente conseguia abrir e ligar o carro com uma chave de fenda. aprendemos a dirigir nele, isso em 1986. de madrugada íamos pra Colina. lá havia um grande estacionamento ermo com árvores magricelas, onde casais trepavam em seus carros com os vidros embaçados. fazia sempre um frio danado, um vento que soprava pro leste. a gente ficava bebendo Presidente e fumando cigarros baratos, falavámos de bandas, das garotas, encostados no capô do carro e encolhidos dentro das jaquetas. cantavámos "fotografia 3 x 4" do Belchior com lágrimas nos olhos. naquele mesmo ano, sua mãe passaria cinco vezes pelo hospital, até morrer de ataque cardíaco de tanto fumar e beber. 

- você devia ter ido ao enterro.
- eu sei. perdi a hora.

pela janela, vejo a vizinha estendendo um lençol para servir de cortina. privacidade após o banho. pela jeito ela se deu bem hoje e voltou cedo. na noite passada, bêbado, fiz uma serenata. eu cantava que por ela eu poderia mudar, juro, tudo para ficar ao seu lado pelo resto minha da vida. nem me lembro quando fui dormir. acabei perdendo a hora.

2 comments:

Adriana said...

Bonito, cara. Essa forma de se expressar e falar umas coisas cabulosas de um jeito poético e meio beat é realmente incrível. A gente se comove de um jeito diferente também. Mais um texto que dá vontade de ler muitas vezes.

Carlos Carah said...

legal, Adriana.
são essas merdas que aparecem quando a gente troca o dia pela noite.
um beijo,

cc