Friday, February 27, 2009

não é para Bancoc nem Budapeste ou Massachusetts. eu não nasci na primavera nem para me esconder, mesmo assim, ei, eu vou fugir por um breve período de tempo, talvez algumas horas apenas, tempo suficiente para atravessar este túnel que liga nossos bairros. vou para onde a mentira se refugia, onde os cães não param de latir e é sempre noite, onde as luzes dos postes piscam como sirenes silenciosas, onde velhos mendigos me abraçam sem esperar nada me troca e dos bueiros uma fumaça branca sai. um sujeito, claramente emocionado, me abordou hoje no parque, me segurou pelo braço e me disse para manter a calma. todo mundo rouba, todo mundo engana, ele disse e se foi. eu fiquei ali parado, pasmo, sentado num banco de madeira, olhando para a ponta dos meus tênis, tentando me lembrar do que aconteceu naquela noite de sábado, quando evitei contato com qualquer tipo de seres humanos e me limitei à Céline. uma tristeza genuína me acertou. a temperatura virou. o vento balançava as copas das árvores e levantava algumas folhas secas do chão. a grade que separava o parque do mundo estava bem enferrujada, mas eu podia perceber que um dia ela fora azul. o ruído do tráfego aumentava lá do outro lado, atrás das casas de cor salmão. eu não queria perder a chuva. meu chapéu cheirava a enxofre, como aquele banheiro público onde, na ausência de giletes, apaguei bitucas de cigarros nos meus pulsos apenas para garantir boas marcas.

5 comments:

Fernanda Bello said...

Foda, Cara. Foda!

cra said...

é isso

Adriana said...

Você é um beat na alma. Texto bom, exato, na dose certa, como bitucas de cigarros queimando a pele. Beijo.

Nilson said...

Eita!

ps.(isso eh um elogio)

magrelazeda said...

bit
nic