Thursday, January 31, 2008

Sempre aparece em casa e sobe sem interfonar fumando no elevador. Quando abro a porta, entra sem me olhar. Sequer um oi. Só uma fumacinha pelo canto da boca. Caminha até a geladeira e reclama pela falta etílica. Nem respondo. Só aperto sua bundinha magra e cheiro seu cabelo escuro e seboso como pêlo de vira-lata. Na janela arremessa a bituca para depois cuspir. Daí fica apoiada com a bunda empinada e solta um comentário impertinente sobre a cidade, sobre a decadência da noite. Mameluca safada, sabe que gosto das curvas das suas costas contra o reflexo das luzes lá de fora. Você é a desgraça em mulher. Já colocou um monte de filhotes da burguesia na droga. Já entregou traficantes para apodrecerem com as suas dívidas. Já me ameaçou com uma faca e tomou uma surra e sempre lembra disso rindo. Respira fundo e me encara e desvia rapidamente o olhar. É tímida e disfarça. Aqui você não engana ninguém. Vamos ouvir um disco do Bo Diddley, eu digo. Ah, você quer cerveja? Então eu abro a carteira e tiro dez contos e lhe entrego. Ligeira pega a grana e se vira rebolando com um sorriso oferecido e satisfeito no rosto e fala que vai até a pizzaria pegar umas latinhas pra gente. Enfio a mão dentro de suas calças e esfrego na sua pele macia como de uma criança. Leite dáveia davene, você sempre diz. Você se vira e me encara de novo. Olho no olho. Um cheiro de cigarro. E esses peitinhos? Putinha barata. Da janela vejo você acenar para o pessoal da pizzaria e atravessar a rua entre os carros no congestionamento da Augusta. Desaparece com minha última nota e não volta mais. Eu já sabia.

1 comment:

Armado Batista said...

texto bom.