Monday, June 29, 2009


"já andei muito por esta estrada, mas hoje ela não me levará para casa"

Igor perdeu no par ou ímpar


Depois daquele atropelamento, todo mundo passou a mão em sua cabeça e o abraçou. Pareciam se preocupar com o garoto. Ele ficou imóvel, com seu pulôver listrado ridículo de gente mais velha e sua calça bege, agora com um novo furo no joelho esquerdo. Um fio de sangue escorria da sua testa. Outro brotava de dentro da blusa, bem no cotovelo, onde sempre se rala nos estabacos, ainda bem que ninguém percebeu. Ele olhava alguns pombos nos fios de alta tensão, alheio a tudo aquilo ao seu redor. Nada acontecera. Apenas o susto do impacto. Agora ele ouvia vozes desafinadas de pessoas que pensavam que ele fosse um bebê-chorão. Vozes de pessoas petulantes que encostavam suas mãos sebentas em seu rosto dizendo que não foi nada não. E não havia sido nada mesmo. Nada. Mesmo. Embora, ali, na calçada em frente à casa da Dona Tânia, surgisse, como se ligassem uma chave, alguma coisa o avisando para ficar longe daquela gente. Longe das pessoas que fingem. Assim, pegou sua BMX e desceu rumo ao gramado, onde estava indo antes daquele palhaço virar sem olhar para os lados. Onde deveria estar, à caça de grilos. Malditos grilos.

Low - "Peanut Butter Toast and American Bandstand"

Sunday, June 28, 2009

o chicote estrala

Friday, June 26, 2009

Me deitei no acostamento. Precisava descansar. Eu tentei. Dormir de olhos estalados. Ela me disse, ontem, que era tarde demais para continuar. E ficou. Talvez eu devesse me preocupar com esses anseios. Era tarde demais. Então, desisti. É. Caminhei sem olhar para trás. E a noite escureceu. Timóteo surgiu das sombras com a garrafa térmica e uma caixa de fósforos. Ele me disse que estávamos bem próximas da divisa. Acendemos uma fogueira e ficamos olhando as estrelas. O dia havia terminado. Uma Kombi passou de faróis apagados. Apenas eu percebi. E a noite escureceu pra valer mesmo. Timóteo dormia encolhido abraçado a mochila. Passei a noite alerta. Uma vela na rodovia. Talvez esperasse. Tão sozinho. Encolhido na escuridão. Me perguntava onde ficaria o norte. Meus olhos pesavam. Eu não dormi. Ainda. De olhos fechados no escuro. Ainda. Preciso descansar. Tarde demais. Para entender o que está acontecendo comigo.

Wednesday, June 24, 2009

troubled times

sabe, a melhor coisa é ignorar.
li isso em algum lugar
livro didático infanto-juvenil gratuito direitista cristão.
coisa de seguidores da comunhão.
para àqueles que tentam ser alguém
me baseio em nunca acreditar no que os outros pensam que sou.
prefiro uma facada a um elogio.
e ficaria satisfeito se tomasse um tiro.
sem esperar ou procurar.
E descobrir, afinal, que sou ninguém.
como você.
deus, às vezes é preciso um tempo enorme para desaparecer.
faz frio.
e as ruas continuam cheias de olhos de peixe.
isso não me significa porra nenhuma.
pelo menos
para ninguém
nenhum
nem
dormi tarde e não escovei os dentes.
você me diz que está ocupada.
uma tempestade entope a cidade.
talvez.
seja verdade.
alguém me contou
ou li
que uivar é coisa de louco
que sente dor
apenas para cantar
au auuuuuu....

"The Things That I Used to Do" - James Brown

Sunday, June 21, 2009

Saturday, June 20, 2009

Hoje eu não volto pra casa. Há horas espero Iranildo. Estou cansado de lidar com a frigideira da ansiedade. Não consigo manter minhas mãos paradas. A noite está quente e venta um pouco. As moscas zumbem ao redor da lâmpada do poste sobre minha cabeça. Nenhum carro passa. Ninguém caminha a essa hora. A cidade fica bem mais atraente quando o azul da noite escurece e a Lua aparece para depois se esconder, lá longe. Todos esvaziam a cabeça em frente à televisão, ou dormem tesos ao lado de pessoas que não gostam. Ninguém parece se interessar por algo que não seja trabalho. Apenas pecadores perambulam e pescam oportunidades por ai. Cães latem para o caminhão de lixo na avenida e o semáforo daquela esquina pisca ininterruptamente no amarelo. A temperatura está ideal e minha carne gruda ainda mais nos ossos. O vento sacode o teto do posto de gasolina do outro lado da rua. A cidade opaca em preto e branco como a tela de uma câmera de segurança. Talvez Vanessa durma, ou lixe as unhas, mas isso não importa, é tarde, e, talvez, hoje eu não volte pra casa. Minha garota anda nervosa. Acho que não me tornei o que ela sonhava, nem a metade e meia disso ou daquilo. Logo, com sangue escorrendo perna abaixo, ela coloca toda culpa do mundo sobre mim, grita e arremessa objetos. Se arranha toda. Puxa, como gosto dessa belezinha. No entanto, sou um homem que não aprende. Sei apenas que as coisas não andam bem pro nosso lado. Tenho quase certeza até. E lamento, com as palmas das mãos no rosto. A rotina descascou nossa história. Afundamos na sorte. Assim, hoje eu não volto pra casa. Hoje só amanhã. Sinto uma forte azia me corroendo por dentro, como um caldo de câmbio, e estou cansado de esperar Iranildo. Cretino. Esperar cansa. Um louco numa trincheira. Qualquer coisa me cansa, até as coisas que gosto me cansam, se eu tiver que esperar por elas. Até você, minha sereia de privada, que penteia suas madeixas e balança o pé, que espera pacientemente seu pescador para em seguida o mandar ficar quieto em seu coral. Você me esgota. Seco. O vinho acabou. Já não espero mais. Levanto e desço sozinho a Consolação para ver o que encontro nas beiradas do centro e na zona de prostituição da cidade.

Wednesday, June 17, 2009

o Pinduca deu a letra:

"Saiu resenha sobre A Musa Chapada no jornal O Estado do Maranhão"

POESIA CHAPADA EM LIVRO

Em A musa chapada, poemas de Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte ilustrados por Carlos Carah apresentam novas possibilidades para a relação poesia e drogas.

POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO



[A musa chapada. Capa. Reprodução]

Não é novidade a relação entre literatura – ou mais especificamente poesia – e drogas. Não é fácil também criar algo novo nessa relação que não cheire – opa! – a apologia barata, as lições de moral da auto-ajuda ou umbiguismo autobiográfico (para o bem ou para o mal e, às vezes, também com lições de moral baratas).

Em A musa chapada [Demônio Negro, 2008, R$ 20,00 em http://www.sebodobac.com], o encontro dos poetas Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e do desenhista Carlos Carah, expande – ops! – o entendimento que se tem sobre o que é “droga” – se à menção do termo você só pensa em maconha, cocaína, crack, merla, heroína, haxixe e similares, que tal acrescentar a TV e alguns de seus programas no drugs hall of fame (principalmente a fé vendida na tela)?: “no canto da sala a TV ligada/ o pastor gritava/ (...)/ o poeta pirava/ “meu deus como pode/ tanta merda enlatada?/ que gente mais troncha/ que vida fodida/ (...)/ o real é a ilusão virtual dos que batem a cara contra o muro””, rima Ademir Assunção em A volta do anjo torto, poema com referências explícitas a Torquato Neto e Raul Seixas, dois malucos geniais.

Dedicado “à memória de Sérgio Sampaio”, e trazendo Itamar Assumpção como epígrafe, o trio dA musa chapada está bem acompanhado. Seja pelos beats, referência obrigatória em se tratando do assunto – e influência confessa dos poetas e do desenhista –, seja pelas personagens que povoam o livro: Lili Maconha, Mister Morfina, a Senhora dos Sonhos, O anjo do ácido elétrico (título de poema de Ademir Assunção), Santa Maria Joana (idem), Johnny Walker e João Bafo de Onça, entre outros, além da música de Miles Davis.

O recado de Antonio Pietroforte é direto em Poligonia do soneto III: “quem diz que a droga mata anda errado/ tampouco, acerta aquele que comenta/ “usuário dá dinheiro a traficante,/ promove, com seu vício, a violência”/ prefiro dar dinheiro pra bandido/ que vende, honestamente, seu produto/ se pago imposto, não recebo nada/ sustento deputado vagabundo/ violenta é a fala da polícia/ que fuça, no meu bolso, feito rato,/ aumenta, com propina, seu salário;/ a erva que se fuma só acalma,/ trabalho mata mais do que cigarro,/ por isso que eu fumo pra caralho!”


[Um dos desenhos de Carlos Carah em A musa chapada. Reprodução]

Nem um nem outro – nem o desenhista – ligam para o que é (ou não) politicamente correto. Dão seus recados sem transformar sua obra num apático manifesto a favor ou contra nada – a legalização das drogas, por exemplo. O que os autores fazem é apresentar a realidade nua e crua – mesmo em poemas ficcionais –, a inegável realidade da São Paulo paisagem dA musa chapada – mas não pensem que é diferente em outros lugares do mundo, bem aí do seu lado deve ter uma boca de fumo, uma “filial” da cracolândia, lugares simplesmente feios e sujos para a maior parte dos olhares conservadores. A vantagem é que ninguém é obrigado a nada.

Entre o lirismo e a ironia, os poemas de Ademir Assunção e Vicente Pietroforte tão bem ilustrados pelas “lentes manuais” de Carlos Carah são verdadeiros clipes de uma sociedade onde puritanismo é (quase) sinônimo de hipocrisia e, num circo de vaidades, (quase) todos se preocupam somente em consumir (drogas, inclusive) e produzir (por obrigação), sem olhar para o lado (leia-se, para os problemas que as/nos rodeiam), obtendo um pseudoprazer que, infelizmente, por vezes as satisfaz. A musa chapada é um tapa seguro e sonoro nesse bom-mocismo, nesse conformismo. Vai encarar?

*ZEMA RIBEIRO escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

[No Alternativo, O Estado do Maranhão, de ontem]

charuto?

na real, eu não vou com a tua cara.

Monday, June 15, 2009

quero ser seu amigo no facebook

terça estranha.

não sei se alguém já sabe, mas estou numa peça do Mário.
amanhã tem.



no mesmo dia e horário, rola a peça do Marcelo Paiva.



daí, depois, todo mundo vai pro show do Saco de Ratos.



é divertido
até a terça virar quarta de manhã.
divertido para caralho, aliás.

não sei, mas as quartas andam me detonando.

Sunday, June 07, 2009


me amarro quando encontro uma molecada fazendo um som de qualidade. é difícil encontrar novas bandas interessantes. The Rosewood Thieves é uma banda recente e anacrônica, daquelas anti fashion que se vestem mal e fazem poses erradas em fotografias. o que importa mesmo é a bagagem que carregam nas mochilas pegando carona em trens e metrôs das metrópoles urgentes, coisas como livros do Jack London e todos os albúns de Bob Dylan no iPod, folk podre caipira e soul music. o lixo que eles consomem é muito importante para você saber quem eles são. The Rosewood Thieves lançaram seu primeiro albúm no mês passado. porém, antes disso, esses nova-iorquinos lançaram 3 ótimos EPs, incluindo um com apenas covers de Solomon Burke, desgraçadamente foda. boas letras, melodias & arranjos sutis, pouca preocupação com pose e uma boa dose conhecimento e veneno musical e literário. não é preciso muito para se formar uma banda interessante.

The Rosewood Thieves - "When my plane lands"

The Rosewood Thieves - "Home in your Heart"

The Rosewood Thieves - "Los Angeles"

Monday, June 01, 2009

hoje



junto com o aniversário do Flávio Vajman.

Thursday, May 28, 2009

"Suggestion" - Fugazi

emo memo.
bom pa carai.

oferecimento Pretty Goes With Pretty.

Wednesday, May 27, 2009

(continuação da porcaria abaixo)

Compro outro maço num boteco em frente e penso um monte de coisas erradas, como meu dinheiro acabar em breve, antes da aurora. Minha testa arde. Tem um galo nela. Não foi nada. Tomei um baita susto. Os espectros da madrugada estão cada dia mais exigentes e agressivos, como os cães famintos do canil municipal. Iranildo parece fora de si, desferindo golpes no ar e pulando de um lado pro outro. Gordo maluco. A gente cola na casa do Varejão. Ele abre a porta com um baseado na boca. Sua aparência está péssima, parece que foi atropelado por um caminhão de lixo e suas tatuagens estão tão enrugadas que parecem que foram rasuradas com uma faca. Seu apartamento fede e as paredes estão descascadas e úmidas. Tem uma xavascuda seminua horrorosa chapada deitada no sofá, sua pança pende para fora de uma camiseta amarela do Sex Pistols, a boca aberta.

– E aiiiii, parceiro?! – ele praticamente berra, sempre fazendo pose de moleque malandrão. O problema é que já passou dos 60, a base de muita cachaça, droga e Yakult pela manhã.
– Aqui nada. Preciso de 20 conto de pó.
– Cumequié? Tá pensando que é papai?
– Falaí, Varejeira – Iranildo já vai entrando, sem a menor sutileza –, quem é essa ronquefuça aqui? Tá breaca hein!
– Porra, não! Você ainda anda com o Iranildo?
– Saí fora – eu digo lhe entregando uma nota amarela –, pega logo a bagaça que eu vou embora.
– Rapaz. Eu tô na moral aqui, fazendo um amor gostoso com minha cocotinha e você chega cheio de panca assim. Tá achando o quê, Soares? As ruas mudaram.
– Eu num acho nada, profeta, sequer procuro. E essa mulher ai tá morta. – coloco a mão espalmada na testa da infeliz – Tá até gelada. Falando nisso, tem uma cerveja ai?
– Ele se vira e vai até a cozinha. Iranildo começa a fuçar nas gavetas numa agilidade gatuna. Ele quer roubar. É um safado.
– Olha aqui – Varejão aparece sem perceber nada suspeito –, pega uma cerveja e toma sua droga.
– Opa! Assim que eu gosto, papai.
– Agora, senhores, vazem – ele sempre diz isso no final, entortando a cabeça e levantando os braços, como um rei decadente expulsando seus súditos de um castelo em ruínas.

Descemos pela escada de incêndio. Um puta fedor de bosta humana. Iranildo tenta me segurar pedindo um teco:

– Vai, Soares. Alivia, porra.
– Pérai, caralho – eu nego – maior fedor aqui.
– Porra, Soares – ele fala, ofegante –, tinha um berro lindão na gaveta do Vereja, deu maior vontade de pegar, ó.

A gente desce pra Gruta. Ficamos na sinuca-cerveja-pó-cigarro e papo-furado até perto do amanhecer. O jotalhão do Iranildo não cala a boca. Eu não entendo nada do que ele fala. Física quântica. Astrologia. Teatro. Rambo. Negros nazistas da Liberdade. Ladainha das mais incompreensíveis.

– Vamo encarar um inferninho – as primeiras palavras que solto em horas, parece – agora.
– Tua mulher vai ficar...
– Cala a boca.
– Porra, Soares, você nunca falou assim comigo – a bebida começa a afrouxar seus sentidos.
– Iranildo, cara, tu não calou a boca desde a hora que te encontrei.
– E daí, porra? Tava com saudade de fazer um rolê com a tua companhia, truta. Dá cá um abraço.
– Saí fora o caralho!

Vejo uma cambada de emos descendo a Augusta. Sinto nojo. Mas passa rápido.
– Que porra de roupa é essa? – pergunto, injuriado.
– Meu novo estilo, Soares – Iranildo diz isso e levanta o queixo, daí, devagar, cerra os olhos e arqueia as sobrancelhas –, que nem o John Belushi nos irmãos cara-de-pau, tá ligado?
– Lógico. Tá idêntico. O terninho. Chapéu, pá. Inclusive o jeito de andar.

Ele pára . Todo-todo. Sério como uma estátua de folga.

– Tá me tirando, doido?
– Não. Por quê?
– Que idéia torta é essa?
– Torto é o jeito que cê anda.
– Soares, se liga, truta. Lembra daquelas putas que a gente comeu no Treme-treme depois da quermese da Júnia?
– Sei... roubada do caralho. Foi guela.
– Foi mesmo. Peguei uma bicheira na cabeça da piroca. Fui pro hospital e os caras tiveram que arrancar minha fimose na faca, na marra. Chicletinho. Ou, o doutor disse, as verrugas não sumiriam nunca.
– Vixi! – tento me preocupar, sem rir – você devia tá de repouso, né não?
– O caralho! Tô estressado. Sequer posso socar uma. Ficar em casa é a última opção. Se liga, a máquina de lavar roupa da minha goma quebrou – ele dispara a falar, numa levada que me faz esquecer das merdas e me lembra de como é bom encontrar velhos amigos –, minha velha aparece histérica na hora do almoço, começa a reclamar, com um olhar de doida mal comida, que minhas cuecas estão cheias de freadas, que não iria mais lavar aquilo e que eu sou vagabundo preguiçoso e o caralho. Velha folgada, tru, virei bicho!
– é mesmo? Que que cê fez, gordo?
– Ah, meu coroa começou a gargalhar no sofá, me chamou de mela-cueca, cu-froxo e o caralho a quatro – nessa hora seu rosto fica vermelho, algumas veias surgem no pescoço. – Mandei logo ele foder a mãe. Nisso, só senti uma fisgada aqui do lado da orelha – ele abaixa, tira o chapéu e me mostra uma parte raspada da cabeça com um corte cheio de pontos. – O maldito me lascou uma saleirada, Soares.
– Opa! Ah se fodeu – eu preciso me apoiar num poste. – Seu coroa tem a mira sacana. Maldade. Marcou tua jaca, magro.
– Se liga, parceiro! Tá achando o quê?
– Nada. Só que cê tá todo fudido. Todo costurado.
– Maré... liga?
– Sei. Cuidado pro chapéu não atolar.

Caminhamos pela parte escura da Boca do Lixo, puxo o último cigarro e amasso o maço vazio, arremesso a porcaria numa lixeira de plástico entupida pregada num poste. Erro hein. Preciso de mais cigarros, penso. Algumas nuvens carregadas atrás dos prédios do centro. Acendo. Cortinas numa centrífuga. Iranildo não cala a boca. O coitado tá mesmo com os miolos frouxos. Ele não era de falar tanto assim, acho. Sinto-me perdido como um mongolóide pegando ônibus pela primeira vez. Nisso, na Rego Freitas, um cachorro de três patas passa correndo ao meu lado, late rouco pro nada. Caralho, irmão, o que será que vem por ai? Um maluco imundo com pinta de ladrão vem pelo lado contrário e me interpela:

– Dá um cigarro, sangue – ele chega e estende a mão.
– Não tenho - balanço a cabeça, negativamente, e dou de ombros.
– Então, aí, me dá um pega desse teu crivo – ele insiste, numas de me tomar, atravessar.
– Saí fora, mané, tu não tá em condição de exigir porra nenhuma aqui, certo? – falo com calma, tô na minha, no entanto, o filha da puta tenta me acertar uma muqueta que pega de raspão a minha testa. Iranildo, com toda sua habilidade de baleia fora d’água, empurra o desgraçado. Ele cai. Eu me levanto e, como sou covarde, pego uma vassoura velha de esfregar calçada que encontro numa caçamba de entulhos e malho nas costas do folgado. PÁ! Ele rola pro lado e não esboça reação.

Perco o último cigarro.

Thursday, May 21, 2009

confio em ninguém e recuso ajuda

Sou um sujeito atormentado. Acho que deus me fez assim numas de dar risadas. Sinto-me numa planície destroçada pelo vento debaixo de uma tempestade que se alastra ao meu redor. Tudo é muito escuro, sempre, tanto os tons de verde do solo quanto o cinza do céu. Uma sensação dentro da minha cabeça que me aflige diariamente. Existo à noite. Nunca. Quando saio para caminhar pelos escombros da minha vida. Já não tenho amigos mais. Todos desapareceram ou pereceram pelas ruas descascadas dessa cidade. Alguns deles estão internados, como minha mãe. Ainda me lembro muito bem do dia em que Joaquim morreu. Ele ficou encolhido como um feto num terno branco numa viela escura e gelada da Santa Cecília. Tentei convencê-lo a se levantar e ir à um hospital. Ele me abraçou, beijou meu rosto e disse “irmão, prefiro morrer a ser enganado pela mulher que amo”, e o fez. Ninguém sabe o que ele estava sentindo. Algumas pessoas nunca mudam. Eu confio em ninguém e recuso ajuda. Costumo guardar uma arma no armário. Quando saio, carrego ela comigo. Ainda não tive a oportunidade de usá-la. Mas vou continuar. Vou buscar o safado que fez minha mãe triste. Entre becos e saídas da Sé. Na subida da Paim e na 14 Bis. Nas vielas do Jardim Herculano e nos banheiros dos bares do baixo Augusta e da 13 de Maio. Vou procurar nos hospitais públicos e nos terminais mais afastados. Nas esquinas dos Campos Elíseos beirando o Minhocão. Sob um frio de lascar a alma. Um frio que apenas eu sinto. Nas entranhas do negrume paulistano. Vou buscar o safado. E vou descarregar minha arma em sua cara e em seu peito. Vou destroçá-lo e comerei suas tripas. Depois farei uma pequena oração que eu mesmo inventei. Deitarei com os cães. E me sentirei bem satisfeito. O ódio me torna verdadeiro na genial era dos fracos deslumbrados.

Monday, May 18, 2009

xumiguxinha



Achei uma entrevista bacana que Sasha Grey deu para a Rolling Stone brasileira.
Existem poucas mulheres como Sasha Grey.

Tuesday, May 12, 2009

O Cabeça me mostrou essa música ontem. É triste.

É melhor eu ficar quieto, sempre penso isso quando acordo e sinto Neil Young estourando minha cabeça, com um balaço de rifle comprido, dentro do carro. Numa outra tarde em algum outro lugar. O volume no máximo enquanto o pé de chumbo, sem regulagem, afunda o pedal do acelerador e meus dedos sujos deliberam a direção. Fujo pela estadual sem arrependimento no retrovisor. Apenas a culpa me abastece a alma. O sol estalado parece querer coagular minhas vísceras. Vivo numa nuvem. Respiro o ar seco e árido e carregado de fuligem. Dentro do meu barco a motor. Um cadáver dançando com um braço agarrado ao volante e outro segurando um crivo. Pedaços de cães esfarelados pela malha de asfalto. Andarilhos tortuosos com cobertores repletos de carrapichos. Um doido que vaga. Dentro do carro. Apenas eu. Descontrolado. Sem vocação. Oh, mãe, o que mais eu deveria fazer?
Na rodovia cercada de capim seco o motor soa como um arroto dos deuses, um trovão no planalto do outro lado do mundo, que parece intocável agora. Tudo treme ao redor, dentro das sombras dos olhos. Joe Strummer não está por perto para me emprestar um punhado de canções. Empurre-me para fora, assim, quando notar algo estranho comigo. Sem fazer alarde, eu lhe digo, sem fugir de mim. Em câmera lenta e o giro no cume de Aconcágua. Erra-me na curva e jogue-me do desfiladeiro. Embrulhe-me em sangue e vidro. Deposite-me de costas no rio. Um altar que explode em metal e gasolina. Em nome do pai, da puta e do Espírito Santo.
Por que eu deveria querer morrer cantando “Sweet Home Alabama” para Deus?

Monday, May 11, 2009



"Wouldn`t mama be proud"
- Elliott Smith

"To Love Somebody" - Nina Simone

visite 6 Songs.

Friday, May 08, 2009

derilhei

Tuesday, May 05, 2009

vai, caráio.

O The Mirror colocou no site o Top 10 das invasões de palco. Tem lá a manjada guitarrada que Keith Richards malhou num otário; a morte de Dimebag Darrell; Noel Gallagher é arremessado no chão por um sacana gente-fina; agora, quando o fala-merda da Estrela Robbie Williams, rebolando, é pego de surpresa e obrigado a dar um mosh na platéia, quase me caguei.

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aqui o Gadasneve.

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aqui a prova de que era possível se divertir na moral antigamente.
se liga na juke joint.


Hey, hey all y'all.

Sunday, April 19, 2009

Friday, April 17, 2009

Exposição “Brutal” promove união dos artistas pela arte 

Escritores, desenhistas e artistas, como Laerte, Lourenço Mutarelli, Paulo César Peréio e Daniel Galera doam obras inéditas em prol de espetáculo de Mário Bortolotto 

Idealizadoras do projeto de espetáculo teatral “Brutal”, com texto de Mário Bortolotto e direção de Marcos Loureiro, as atrizes e produtoras Carolina Manica e Luciana Caruso optaram por criar uma nova alternativa para a realização do projeto. Ao invés de esperar por editais e patrocínios elas resolveram reunir forças naquilo que elas mais conhecem: a própria arte. Conseguiram reunir mais de 30 obras inéditas de respeitados artistas e produziram a exposição “Brutal”, com abertura no dia 22, na Coletivo Galeria, em São Paulo. As vendas irão financiar a produção da peça. 

Entre as obras, destaque para duas telas originais pintadas à mão pelo cartunista Laerte, que foram usadas para ilustrar as capas das coletâneas da sua consagrada criação "Piratas do Tiête", e um original inédito em canson, produzido com nanquim e desenhado com pincel pelo aclamado quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli, autor de "O Cheiro do Ralo". Também serão expostos manuscritos. Um trecho do próximo livro do escritor Daniel Galera, "Barba ensopada de sangue",e uma crônica do escritor Marcelo Rubens Paiva estão entre eles. Entre as surpresas, uma tela de Paulo César Peréio revela que, além de ator, ele também é ótimo pintor. 

A exposição terá ainda uma crônica manuscrita do dramaturgo Mario Bortolotto; uma crônica manuscrita de Xico Sá; um original de Rafael Grampá, novo talento dos quadrinhos nacionais e primeiro brasileiro a receber o prêmio internacional Eisner Award junto com Gabriel Bá e Fábio Moon, que também doaram originais para a exposição; um desenho inédito do escritor Joca Reiners Terron; cadeiras desenhadas pelo artista plástico e quadrinista Rafael Coutinho; originais do quadrinistaAndré Kitagawa, autor da famosa graphic novel “Chapa quente”, também adaptada para o teatro sob a direção de Mário Bortolotto; uma video arte da artista plástica e designer Andreza Valentim; um original do desenhista Carlos Carah; uma tela da artista plástica Raquel Falkenbach; uma ilustração da artista plásticaLuisa Doria; uma crônica manuscrita do escritor Daniel Pelizzari; um poema manuscrito do poeta, escritor e jornalista Ademir Assunção; uma fotografia do dramaturgo, diretor e fotógrafo Antonio Rocco; uma fotografia de Renato Parada; uma crônica manuscrita do jornalista e escritor Palmério Dória; uma tela desenvolvida pelo estúdio de artes visuais Sopa Grafix; um painel em MDF do artista urbano Loro Verz e uma vela impressa com arte fotográfica pelo fotógrafoRoberto Donaire. 

Exposição “Brutal”  
de 22 de abril a 3 de maio. 
Coquetel de abertura: dia 22 de abril, a partir das 19 horas.
 

funcionamento: 
ter. a sex. das 17 às 23hs 
sab. das 14 às 19hs 


Coletivo Galeria 
Rua dos Pinheiros, 493 – Pinheiros – SP 
11 3083 6478 
www.coletivogaleria.com.br



Bill Callahan - "Sometimes I Wishy We Were An Eagle"


Bill Callahan, ex-Smog, acaba de lançar mais um álbum. Ainda estou nas primeiras músicas e são ótimas. Vá se você gosta de Nick Drake, Bonnie ‘Prince’ Billy, Bill Fay, desses caras que te fazem querer pegar a estrada para lugar nenhum no feriado prolongado. Porra, e a capa é fodaça.

isn’t it a pity

Ontem, voltando para casa quase de manhã, quando estava perto de onde moro, começou a tocar uma velha canção de George Harrison num CD esquecido que encontrei no porta-luvas do Opala. Fazia um bom tempo que eu não escutava aquela canção. Deixei carro deslizar na banguela pela Cardeal Arcoverde. Estacionei e fiquei encolhido escutando a música inteira quando fui atingido por uma nostalgia que dissolveu - ou estilhaçou - algo dentro do meu peito. Entrei em casa com a música ainda ricocheteando dentro da minha cachola. Sentei no sofá e me lembrei do dia que mostrei essa canção para meu avô.

Era uma tarde de um domingo nublado e estávamos sentados na varanda da modesta chácara dele. Eu e meu avô. No interior de Minas Gerais. Isso em 1992, acho. Ele ia e vinha em sua cadeira de balanço. Descalço. Silencioso. Com os olhos fechados e a cabeça pendendo suavemente para trás. A boca levemente aberta para poder respirar. Peguei um pequeno aparelho de som, liguei na tomada e lhe pedi que prestasse atenção naquela música. Eu era um moleque desencantado, cheio de espinhas no rosto e meu corpo era raquítico e coberto de ralados e arranhões. Não fazia a menor noção de nada. Cagava e andava para o mundo. No entanto, aquela música me atingia de forma brutal, tinha um enorme poder sobre mim, como feitiçaria, me levando a um estado de melancolia confortável, como se eu fosse levado numa canoa Rio Verde abaixo.

Enquanto ela soava no mini-system, ficamos em silêncio olhando a paisagem, entretanto, eu também podia escutar o ranger da cadeira de balanço, um quero-quero gralhava com sua esposa no terreno da frente. O vento soprava fraco, e as árvores que escondiam o rio, atrás da cerca-viva de cipreste, faziam um farfalhar que lembrava o som de uma cachoeira. Tudo parecia se conectar a melodia da canção. Fangio, nosso doberman mestiço, lambia uma ferida pustulenta na pata dianteira esquerda, deitado no piso gelado de granito. Tirei meus óculos e os limpei com o avesso da blusa. Tentei enxergar meu avô sem eles. Tudo era muito turvo. Deitei de costas no chão. As nuvens carregadas dançavam no céu.

Meu avô era um piadista silencioso. Possuía um corpo volumoso, indicando que antes ele fora musculoso, mas os excessos da vida e a gravidade acabaram por vencê-lo. Sua testa era reluzente e sua olhar era profundo como se enxergasse através das pessoas. Gostava de vê-lo andar pelas ruas de Três Corações, com sua indiferença estóica. Sempre aparecia com suas intervenções ácidas quando a família discutia algum assunto banal na mesa do jantar ou do café da manhã. Também inventava jingles pessoais instantâneos que faziam todos rirem durante dias. Um sujeito íntegro que havia sido tenente no Exército brasileiro durante muito tempo.

Quando eu tinha 9 anos de idade, ele me ensinou a empunhar uma arma. Dei alguns tiros no pasto de uma fazenda nas redondezas de Cambuquira. Depois me deu uma aula de como desmontar e limpar um revólver. Lembro que ele foi caçar aves depois e voltou com as mãos vazias e um sorriso acolhedor no rosto. Já era noite e a família inteira estava na cidade. Fomos até a cozinha da fazenda, onde ele acendeu o fogão a lenha e pegou alguns ingredientes na geladeira e nos armários. Naquela noite, ele me ensinou cuidadosamente a preparar um arroz carreteiro suculento. Depois que comemos nos sentamos na varanda, onde meu avô me contou histórias assombradas de um velho de chapéu de palha que foi morto pela mulher, mas que continuava vagando pelos pastos de Varginha sob o luar prateado. Fiquei agarrado às minhas pernas finas com um cagaço filha da puta. Vaga-lumes surgiam e desapareciam na escuridão da noite.

Em 1996, meu avô recebeu um diagnóstico atrasado de pancreatite. Meu pai o trouxe para um hospital decente aqui em São Paulo. Fui visitá-lo, mas ele já estava bem magro e havia sido entubado. Não tenho certeza se me reconheceu ali, naquele quarto frio com cortinas de plástico verde-claro. Dois dias depois, ele morreu com todas as oportunidades que existia para eu agradecê-lo por tudo que me ensinou. Não tive a chance de me desculpar por não ter aproveitado e aprendido mais com sua pessoa fantástica. Não pude sequer abraçá-lo pela última vez.

Ontem, no sofá, senti uma saudade enorme dele. Da forma como ele levava a vida, não se preocupando demais nem deixando os aproveitadores se aproximarem. Ontem, me dei conta de que não posso fugir de quem eu realmente sou. Não posso deixar de acreditar nos meus amigos verdadeiros. Não posso esquecer-me de odiar meus inimigos. Não posso abandonar a verdade. Nem perder a lembrança da maneira discreta que meu avô se preocupava comigo. Sobre o que ele me disse sobre caráter. Sobre começar e terminar muitos livros, no entanto, ele se foi e eu o li apenas pela metade.

Thursday, April 16, 2009

isso não quer dizer nada

Esses dias parei para pensar no passado. Detesto indolência. Ando sonolento. Parei para pensar. E tenho medo de dormir. Preciso me libertar e despertar, por assim dizer, dessa merda amorfa toda. Ando sonolento. Mas enxergo. Memórias e presságios. Fiquei andando por aí. Estou me sentindo estranho. Minha garganta apertava naquela noite. Fiquei pensando que ia chorar. Não me lembro como é chorar. Daí fiquei legal. Minha percepção estava alterada. Aguçada. Nasci do outro lado do rio. Numa época errada. Numa curva. Que me faz renegar o presente. Eu acredito nessa habilidade para fazer qualquer coisa sem encontrar nada que queira fazer.

Monday, April 13, 2009


aqui tem umas fotos bem legais de Sampa, a cidade que eu morro.

Sunday, April 12, 2009

festim


com sua voz vulnerável

ela sussurra uma canção

como se lançasse um feitiço

esquecido para mim

 

numa linguagem que consigo entender

ela canta, inacreditável,

que amanhã a poeira vai baixar

e o sol aparecerá para nós

 

ela me põe no colo

e destrincha meu coração

e enterra blasfêmias sob as sombras

das árvores dos campos

do outro lado da trincheira

 

ela vaga,

e me alerta sobre a longa batalha da noite anterior

sobre a última esperança

sobre gostar de quem não existe mais

sobre dormir de dia

 

tomando leite e assistindo desenho do Papa-Léguas.

 


Saturday, April 11, 2009

estaria mentindo se dissesse a verdade. a Festa de Merda foi uma bosta onde 250 pessoas se refestelaram. espero que ela tenha sido enterrada na última canelada no saco que o Trator Cavera acertou ali. espero, sem esperança, que os deslumbrados apanhem de tacape. que os alpinistas desabem. que o show do Patife Band continue retumbando na minha cachola. que meus amigos não se suicidem ainda. que o La Carne toque em festa para vegetarianos, comigo ali no canto. coração de galinha no churrasco n roll. que a garota de Nova Iorque me traga flores da próxima vez. hoje estou pregado e satisfeito. amanhã vou comprar um numchako pra me garantir. 

Thursday, April 09, 2009

domingo

Wednesday, April 08, 2009

Naquela noite cheguei em casa com alguma coisa queimando minhas entranhas, como se tivesse jantado uma pantera sem mastigar e, com uma violência dilacerante, ela tentasse escapar rasgando as paredes do meu estômago. Esvaziei meus bolsos, abri meu cinto e arriei minhas calças, sentei o rabo na privada, descansei os cotovelos nos joelhos e mandei um baita cagalhão. Senti a merda escorrer do meu reto e afogar na água transparente. Eu encarava a profundidade dos azulejos quando senti um alívio profundo. Uma calma indígena. Respirei fundo. Minha merda só fede para os outros. O ar dos livres é bem mais puro, mãe. A cidade estava quieta lá fora. Já não escutava nada, quase, até porque o vento não sopra mais nessa capital.  Dei descarga com vigor. Fui até o som e coloquei um vinil do Charlie Parker. Slim`s Slam. Bem baixinho. O pássaro cantava anunciando um novo amanhecer. Pessoas carregavam fardos e iam aos seus pontos de ônibus.  Era cedo para alguns, eu sabia. E pensava naquele carro abandonado no meio de uma ponte, com a porta aberta e o rádio ligado. Pensava naquele rosto pálido olhando o escuro da cidade através da única janela acesa daquele prédio. Eu pensava em Josefina gritando, enquanto era amarrada e sugada por uma ambulância, que as pessoas, elas são idiotas, sabe, baby. 

Monday, April 06, 2009

SACO DE RATOS - NESSA SEGUNDA-FEIRA

"E finalmente os shows estão de volta. Agora em nova casa, novo dia, novo horário. São as segundas de rock. Nessa segunda-feira (dia 06) nossa banda "Saco de Ratos" vai inaugurar a bagaça. Com duas horas de rock and roll. Duas cronometradas horas de rock and roll. O show tem que começar às 22h e terminar religiosamente às 24h por conta de um acerto com o Satyros 2 de não incomodar a vizinhança. Mas assim que terminar o show, os insones podem dançar um rock and roll por conta do DJ Carcarah.

Nessa segunda-feira o Brum não vai estar com a gente. Ele vai estar no hospital encarando uma cirurgia. Mas a gente vai tocar "Vida Brum" em homenagem a ele.

Nessa segunda-feira (dia 06)

Show da banda "Saco de Ratos"
Mário Bortolotto : Vocal
Marcelo Watanabe : Guitarra
Baixo : Fábio Pagotto
Bateria : Rick Vechione


Das 22h até 24h

A partir das 24h - Discotecagem rock and roll de Carcarah.

O Satyros 2 fica na Praça Roosevelt, 124
Ingressos : R$ 5,00


Na próxima segunda-feira (dia 13), quem toca é a banda "Fábrica de Animais""

arranquei do Atire.

vou levar só funk soul e blues pra tocar.
Rita tinha um comportamento sexual bizarro. Ela gostava de tomar bordoadas até que ficasse com marcas assustadoras no traseiro e no rosto. Isso no começo. Até achei normal ela cuspir na minha cara, mas quando entrou numas de fezes, fiquei um tanto desconfiado. Nosso sexo escorria e fedia pelo andar inteiro do prédio. Uma vez, algemado à cabeceira de sua cama, tomei umas lambadas do seu chicote de couro de porco nas costas. Fiquei um mês sem poder tirar a camisa em público. Eu tinha 17 anos na época e fazia um puta calor nas ruas. Rita estava com 35 e era linda e pálida como uma fada malvada. Não gostava de drogas nem bebidas, era daquele jeito mesmo, normal. Usava roupas de vinil e apetrechos de couro tacheados. Demorava um bom tempo para calçar e tirar suas botas de cano altíssimo com um cadarço trançado quilométrico. Gostava de brincar de dominadora/submissa. Sua musa era uma americana de pernas enormes, chamada Stephanie Rage. Havia pôsteres dela espalhados pelas paredes pretas de todo apartamento. Um dia, Rita chegou toda suada e foi lavar a louça. Ela estava agindo de forma estranha e até cantarolava canções de Patsy Cline, coisa que ela detestava. Rita estava feliz, eu notei. Passava alguns dias desaparecida e quando surgia, fazíamos sexo convencional, cheio de beijinhos secos como frutas cristalizadas. Semanas depois, Rita me disse que estava apaixonada por Raimundo, um anão dono de um pardieiro de 7 quartos na Aclimação. Dizem que anões são bem dotados, existem até filmes onde esses caras, com auxílio de banquinhos, fodem louras estonteantes em Moscou e Berlin. Mudou-se para o hotel do Raimundo e nunca mais me deu dinheiro ou notícias. Soube, bem depois, que ela morria de cócegas na sola dos pés.

Tuesday, March 31, 2009



PJ Harvey & John Parish - "A Woman A Man Walked By" (baxaê)

escutei apenas a primeira música, acabei de puxar. boa de foder.

o outro disco que Polly Jean lançou com John Parish, “Dance Hall At Louse Point”, uns 12 anos atrás, é bem experimental, nenhuma música se assemelha a outra, cheio de microfonias, barulhos estranhos e sussurros ao vento. casca grossa. a guria se esgoela numa canção chamada “Taut”, acho, que é de arrepiar os cabelos da nuca, rola até vontade de conferir se a porta está mesmo trancada, com medo de que alguma criatura apareça. lembro que estava andando numa rua em Pinheiros, isso no milênio passado, daí entrei numa loja de discos e sem querer achei o CD ali no meio, o escondi em outra seção para poder voltar com dinheiro para comprar depois. e voltei e comprei. daí alguém foi em casa e levou emprestado e nunca mais o vi. esse novo não precisa comprar.

e deve ser de bom de foder também.
"It’s Raining" – Irma Thomas

sem dúvida, uma música que pode mudar o meu dia.

Monday, March 30, 2009

acredite nos outros. é fácil.

eles fazem campanhas anti-tabagistas, mas esquecem de alertar que o caráter falho, o vacilo e a culpa brocham mais que o cigarro. ela me diz morra e eu estou cansado para isso agora, embora tenha preguiça de viver sob conselhos decorados de alguma revista. esses filhos da puta. são espertos e legais e tratam da mamãe natureza com hipoglós. andam de terno e carros com os vidros fechados no calor do verão. mastigam bem pra caralho. não sei por quê, mas prefiro armas a tortas. cicatrizes a franjas. pedras a buquês. suicidas a conquistas. diarréia é bem melhor que cagar duro. não sei por quê, cuidado, mas não vou com a tua cara. pose para fotos e dê entrevistas com cara de pastel. em pleno século 21. acredite em jornais e na internet. nos figurões desdentados. acredite que aquele pau ainda possa levantar. facilite. lembre. e não se esqueça daquela fala quente decorada da mesma revista. decore mentiras que não existem mais. excesso de afeto e medo. fale como se evacuasse. não seja de ninguém mas aceite o próximo se houver algo em troca. nasça para dar certo abaixo da linha do Equador, por favor. mantenha e procure contatos. fale duas vezes para ser escutado. beije como se evacuasse. nunca deixe a cidade ou de atender o telefone por medo do esquecimento. permaneça branco e ocupado. o preço de ser livre e existir para os outros. vale a pena. pode crer. 

Friday, March 27, 2009

sem fogo

era uma vez, numa dessas noites bem, bem escuras, eu andava pelas ruas do bairro. As copas das árvores cobriam as lâmpadas dos postes e o vento frio que soprava ajudava a formar sombras que mais pareciam espectros aleijados dançando na malha do asfalto. Isso dificultava minha busca por uma bituca qualquer para poder dar uns pegas num crivo. Eu tinha dezessete anos quando a encontrei plantada numa esquina. fumava com vigor. pálida como uma vela - de vestido esvoaçante e colorido - de macumba.  Eu tentei me aproximar hein. O grito dela acordou a vizinhança e os pombos nos fios de alta tensão. Credo. Cruz credo. Corri como quem rouba. Uns caras numa Kombi branca arremessavam jornais por sobre as cercas, nos quintais. Plah. Fiquei apavorado com os estalos. Plah. Plah. Eu estava em maus lençóis. O coração batendo na garganta. Um cheiro escroto subia do canal. Resolvi mijar nele. O pressentimento enorme de que alguém iria me atacar me aterrorizava. o berro dela ainda ecoava e fazia curvas. Um crivo. Meio. Achei um meio crivo menos que a metade numa rachadura. 

Wednesday, March 25, 2009

um poema, um peido

um poema, um peido

se existe algo que detesto

é gente

como transpira

conversa

e encosta

 

vão se foder

 

por mim,

conversava com os animais

 

sou burro

 

não sei falar.


"para meu amigo Adriano, o Ninguém"

Tuesday, March 24, 2009

fim da trilha/grande nada

Seus frascos de remédio no criado mudo ao lado direito da cama do hotel estão cada vez mais vazios. A espera de um novo desastre, o fim da trilha. Talvez isso que estamos sugando não seja amor. Sinto que eles ainda estão no meu encalço pelas ruas do bairro. Posso escutar as sirenes. Existe algo de errado dentro da minha cabeça. Todas essas encrencas escondidas debaixo do meu chapéu. E seus olhos que encaram a quina do teto parecem um vale após um incêndio. Silenciosa como uma doença, eu vejo você se mover lentamente de um lado pro outro. Às vezes você age como uma anciã, agarrada a esse cachimbo encardido o dia todo. Quando a chuva da manhã de veludo tamborila na janela, como moscas que não conseguem escapar, eu me imagino em outro lugar. Talvez você esteja absorta demais pensando no grande nada, no vazio daquela garrafa. Qual era mesmo o nome daquela enfermeira de olhos de metal? Nosso quarto 37 se parece com uma cabine, e como fede esse carpete. Meu coração é um cinzeiro. Meu dinheiro está quase acabando. Talvez devêssemos voltar a dormir em casa. Talvez devêssemos entrar num tratamento com metadona. Ainda temos muita coisa a aprender. Amaldiçoados seremos para sempre. É. Você ainda está aqui, mas já não tenho tanta certeza.
"The Breeze/My Baby Cries" - Bill Callahan (cover Kath Bloom)

Sunday, March 22, 2009

c`alma

todas as promessas têm prazo de validade ou podem ser recicladas 
assim como todos os fantasmas oscilam à noite 
não durmo nunca
abstenho
flutuo 
anestésico para cavalos sob as luzes do tráfego num final de tarde laranja
desviando de jornais e sacolas plásticas de supermercados nas calçadas 
nas janelas dos prédios 
onde nada reflete 
nos azulejos trincados 
nas faces de uma moeda enferrujada 
um milhão de coisas pela metade 

ou em partes falhas

só vejo você. 

Tuesday, March 17, 2009

Friday, March 13, 2009

Ela me traz o frio com seus braços cheios de hematomas e seus beijos ressecados. Ela é o meu anjo desorientado que me chama de Lúcifer, no escuro do carro numa estrada mal sinalizada. Ela empurra minha cabeça pra baixo quando vomito em banheiros de postos de gasolina . Ela abre a janela para gritar filho da puta pro céu. Diz que é uma forma de descarregar, eu não entendo. Ela sente medo demais e não sabe rezar. Nós rachamos a gasolina e dividimos desastres. Por mim, tá tudo bem. Acho que vou sair para dar uma volta, eu lhe digo, apoiado na porta do motel, e ela se transforma numa coisa delicada e esquecida, como flores num cemitério após o dia de finados. Não temos planos nem irmãos. Temos um fim próximo, numa curva mal feita, a toda.

Thursday, March 12, 2009

antes que eu morra


Tuesday, March 10, 2009

“Farewell Transmission” – Songs: Ohia

hoje



taí, um bom pretexto para conhecer a Daslu.
Como sempre, passo às tardes andando pelo bairro. E, olha, têm uns caras estranhos diariamente sentados ali naquela esquina, fumando cigarros demais, bebendo cervejas à beça e vendendo drogas batizadas pra rapaziada descontrolada que aparece de fora. Talvez eles tenham problemas. Ou eles inventam problemas. Assim conseguem, não é à toa, moedas para fazerem suas suadas intéras, que se transformam em poeira e fumaça. Não importunam ninguém, de certa forma, apenas a visão de um bando de marmanjos desbeiçados tomando uma cerveja na calçada numa tarde quente causa repulsa e ódio nos nobres cidadãos comuns, algo semelhante ao que os portugueses sentiram quando chegaram ao Brasil e encontraram os índios pelados nas redes armadas em palmeiras na orla. Os vagabundos fedem o fedor do verão. E, quando estão exaltados e efusivos, mais latem que dialogam. Contudo, não criam caso. Quando passo por lá, eles gritam:

- Ei! Ei, Carlinhos! Tem um cigarro ai, mano do caraio?

Saco meu maço, tão amassado quanto a cara do Gervásio, e ofereço pra geral. Depois o isqueiro roda e volta, após certa insistência minha. Nada de novo acontece. Em lugar nenhum. Bebemos a cerveja gelada e nunca falamos de ambições ou planos. Eles aparentam não ter nada a dizer sobre eles mesmo, quanto menos eu. Por isso, falamos mal dos outros, apenas para rir de toda essa papagaiada séria que as pessoas acreditam que podem fingir ser. Nada como se fingir de alguma coisa. Só assim mesmo para se dar bem na vida. Eu quero mesmo é que se foda. E creio que esses caras também.

Afinal, que vá todo mundo tomar no olho do buraco do cu.

Gervásio levanta a perna esquerda e peida. Ninguém ri.

- Acho que vai chover – ele diz sorrindo com todos seus dentes amarelados pela nicotina e pelo crack – hein, Carlinhos?

- Sei não.

- Porra, tá dando até trovão.

Monday, March 09, 2009

no Rio de Janeiro



com lançamento d`A Musa Chapada.

Thursday, March 05, 2009

aguardem


"Corredor Polonês" - Patife Band

Friday, February 27, 2009

não é para Bancoc nem Budapeste ou Massachusetts. eu não nasci na primavera nem para me esconder, mesmo assim, ei, eu vou fugir por um breve período de tempo, talvez algumas horas apenas, tempo suficiente para atravessar este túnel que liga nossos bairros. vou para onde a mentira se refugia, onde os cães não param de latir e é sempre noite, onde as luzes dos postes piscam como sirenes silenciosas, onde velhos mendigos me abraçam sem esperar nada me troca e dos bueiros uma fumaça branca sai. um sujeito, claramente emocionado, me abordou hoje no parque, me segurou pelo braço e me disse para manter a calma. todo mundo rouba, todo mundo engana, ele disse e se foi. eu fiquei ali parado, pasmo, sentado num banco de madeira, olhando para a ponta dos meus tênis, tentando me lembrar do que aconteceu naquela noite de sábado, quando evitei contato com qualquer tipo de seres humanos e me limitei à Céline. uma tristeza genuína me acertou. a temperatura virou. o vento balançava as copas das árvores e levantava algumas folhas secas do chão. a grade que separava o parque do mundo estava bem enferrujada, mas eu podia perceber que um dia ela fora azul. o ruído do tráfego aumentava lá do outro lado, atrás das casas de cor salmão. eu não queria perder a chuva. meu chapéu cheirava a enxofre, como aquele banheiro público onde, na ausência de giletes, apaguei bitucas de cigarros nos meus pulsos apenas para garantir boas marcas.

Sunday, February 22, 2009

vamulá


Nessa segunda e terça-feira de carnaval vai rolar rock and roll no Teatro X. A nossa banda "Saco de Ratos" vai tocar lá nos dois dias. Antes do nosso show deve rolar um set acústico com a Fernanda e oFlavinho da "Fábrica de Animais". E antes, durante e depois dos shows, Carcarah vai atacar de DJ mandando muito rock and roll pra todo mundo dançar. É pra ir até de manhã já que a maioria da rapaziada não precisa acordar cedo no dia seguinte.  

"
Bortolotto comanda o show que dura mais de duas horas e trouxe de volta o sentido sagrado para a noitada (rockeiro que é rockeiro não usa a palavra "balada"): desabafar

A banda devolveu ao rock autenticidade e elementos da sua essência, naquela que se transforma na melhor terça da cidade.
"

                              
  (Marcelo Rubens Paiva)

Apareçam.


Segunda e terça de rock no Teatro X

a partir das 22h - sem hora pra acabar

Ingressos : R$ 5,00

Banda Saco de Ratos

Mário Bortolotto : Vocal
Fábio Brum : Guitarra
Marcelo Watanabe : Guitarra
Fábio Pagotto : Contra-Baixo
Rick Vechione : Bateria

Set acústico com 
Fernanda D´Umbra : Vocal
Flávio Vajman : Gaita e guitarra

Discotecagem rock and Roll : Carlos Carah

O Teatro X fica na Rua Rui Barbosa, 399 - perto do Bradesco da Rui Barbosa

Fiquem a vontade para divulgarem em suas listas de e-mails. A gente vai achar bem bacana

Mário Bortolotto


Friday, February 20, 2009

fraude descartável

Já faz muito tempo desde o dia em que você partiu. Havia algumas formigas no prato esquecido numa manhã opaca de outono. Marcas do seu lábio na borda de um copo com restos de vinho. O cinzeiro transbordava com ajuda do vento. Ninguém deu a mínima na vizinhança. Mas eu me lembro perfeitamente. Que droga. Do final da tarde. Dos prédios e das janelas que limitavam nosso horizonte, e se destacavam nitidamente do céu que escurecia e abraçava tudo em sombras, me alertando que a noite seria longa, dolorosamente, eterna.

Thursday, February 19, 2009

Monday, February 16, 2009

cadê?


Saturday, February 14, 2009

O eco do seu soluço na escada de incêndio. Sua maquiagem escorrida fora de tom sob a aurora. Sua dor que endurece teu peito em silêncio e cheia de glória. Tanto tempo se passou. E nenhuma nova sensação. Talvez ainda exista um corrimão. Ou você possa passar por debaixo da catraca sem pedir perdão. Encare isso. Sem dúvidas. Caia fora desse quarto. Talvez se perca. Garanta uma arma. Finja escutar os outros. Nem tenha medo. Caia fora daqui.

Wednesday, February 11, 2009

Ike & Tina

o blog Doctor Mooney colocou à disposição "The Hunter", um dos melhores discos do casal sopapos Ike & Tina Turner. o blues e o R&B deslizam e rasgam faixa a faixa. esse albúm é uma desgraça de tão bom, um incêndio que se apaga com pauladas. passa lá e baixe tudo, depois queime um cd e coloque no carro, ou num cd player qualquer e pare de fazer o que você precisa fazer, pare de pensar demais, salve-se afundando na lama.

enderece e envie seus cartões postais. eu espero estar bem longe quando eles chegarem.

nada cai do céu. custa muita loucura. algo semelhante a gotas de sangue numa folha em branco. inesperado como um blecaute quando dentro do elevador, ou giletes sujas embaladas em celofane. um dia serei um suicida aposentado, quem sabe um rebelde adaptado. só espero não precisar da família nem dos amigos nem dos cães nem dos gatos.
há algo de muito errado nesse quarto escuro, que consome minha alma com talheres descartáveis e luvas plásticas quando chega a madrugada. quando chega a madrugada. e seu cheiro quente e fétido no ar. quando o vento abre e fecha a janela anunciando mais uma tempestade. quando mais um blecaute apaga a vizinhança. prefiro ficar à minha própria espreita para poder entender essa falta de vontade. a verdade que intimida. o refugo. sobre nunca colocar as coisas no lugar. sobre uma longa e escura noite. um silêncio absoluto. um sujeito atormentado, pensando longe demais.

Monday, February 09, 2009

Friday, February 06, 2009



Dan Auerbach, uma das metades do The Black Keys, lança na próxima segunda-feira “Keep It Hid”, seu primeiro trabalho solo. Eu já havia escutado “I Want Some More”, a segunda faixa desse álbum, um blues denso e distorcido, com a bateria marcada no ritmo de uma locomotiva no vale das sombras, uma música que pode te empurrar da beira do abismo ou te fazer tomar uns tragos a mais e encarar no braço aquele filho da puta encardido que não para de te olhar do outro lado do bar. Som para caras durões que mascam tabaco e rasgam as roupas das mulheres antes de fodê-las cuspindo palavrões em banheiros públicos. Bom, comecei a falar bosta de novo, o que importa é que o disco já está futucando o barbante da internet e você pode baixá-lo aqui, por enquanto, e é isso que estou fazendo agora.

Último brinde

Às vezes eu uivo pra lua e lembro do verso de Allen Ginsberg: “I saw the best minds of my generation destroyed by madness...”
Às vezes eu imito um velho bêbado conversando com seu piano.
Às vezes eu rio dos meus inimigos invisíveis que seguem atrás de mim na praia tentando apagar minhas pegadas na areia.
Às vezes eu olho pra cara vermelhona do sol e grito a plenos pulmões: é isso aí, meu chapa, continue brilhando, brilhe pra valer.
Às vezes eu sussurro versos indecentes no ouvido de Lady Solidão só pra vê-la excitada.
Às vezes eu recito diante do espelho trechos de poemas tristes que eu mesmo escrevi há mais de dez anos: “musas sádicas me acariciam / com unhas de gilete / lábios em carne-viva, mil beijos / de medusa — stripers que após a roupa / arrancam a própria pele.”
Às vezes eu escuto os pés do Tempo roçando de leve o assoalho de madeira do corredor e digo a ele: Eu sei que você está aí, meu velho, pode passar. Não precisa ser tão cuidadoso.
Às vezes eu sonho que sou um boxeador com a cara toda arrebentada caído no canto do ringue e uma garota branca como uma xícara de leite diz bem perto dos meus machucados: vamos lá, querido, não jogue a toalha, vá pra cima, você consegue.
Às vezes eu lembro do dia em que ganhei um triciclo do meu pai e saí pela rua pedalando a milhão, feliz como um garotinho que acabou de ver sua mãe voltando do hospital.
Às vezes eu tenho vontade de chorar mas faz muitos meses que não consigo. Desde maio do ano passado.


Ademir Assunção

Tuesday, February 03, 2009

semana

Hoje tem o Saco de Ratos Blues no Teatro X, a partir das 22hs.
É diversão garantida. eu apareço por lá toda terça-feira. E geralmente me comporto, ao contrário do pessoal.

Na sexta, dia 09/02, a Fábrica de Animais faz seu primeiro show do ano na Livraria da Esquina. Na mesmo dia, a banda curitibana Hillbilly Rawhide - que me foi apresentada por uma leitora desse espaço - se apresenta no CB.

Agora, no sábado, o Thee Butchers Orchestra toca no CB. Nem me lembro quando foi a última vez que esses caras se juntaram para uma putaria. Eu vou aparecer com um chicote de couro para dar umas lambadas nas costas dos indies sofredores e nos caras da banda.

Algo me diz que estarei esmerilhado na próxima segunda.

o Teatro X é na Rua Rui Barbosa, 399 - Bixiga Tel.: (11) 3283-2780.

A Livraria da Esquina fica na Rua do Bosque, 1254 - Barra Funda.

O CB fica ali na Barra Afunda, numa rua perto da estação Marechal Deodoro.
o começo do que viria a se chamar rock n roll.
prestenção no comecinho country da parada.

“Put your Cat clothes on” – Carl Perkins

::

agora, isso aqui é mais sério:

Woody Guthrie - So long it's been good to know you




na próxima vez que eu me embebedar vou cantarolar essa canção pelas ruas.

Texas

Se eu pudesse dirigir pelo resto dos meus dias, talvez eu conseguisse me manter quieto. Quem sabe se eu arrumasse um lugar para onde ir com você, garota, para muito, muito longe, talvez eu conseguisse me acalmar um pouco. Apenas o seu silêncio me deixa tranqüilo e consegue juntar meus cacos. Você atrás do balcão tentando encontrar a freqüência certa da estação de rádio. Servindo os caminhoneiros falastrões empapados em suor ou fatiando a torta de limão segredo da casa. As crianças berronas arremessando batatas fritas com catchup pelo recinto. Sua paciência com as pessoas. Só o seu silêncio eu escuto. Pela janela vejo a rodovia ensolarada. A poeira no horizonte. Espero a noite. Quando posso te ajudar a colocar as cadeiras viradas sobre as mesas e recolher todo o lixo dos banheiros enquanto você passa desleixadamente o pano no chão. Depois eu acendo o néon da fachada da lanchonete e nos abraçamos rindo no estacionamento ermo. O vento que levanta seu cabelo. Um poste solitário que ilumina apenas alguns arbustos que nunca foram aparados. Você está muito bonita hoje. Sabe, ando tendo visões. Nós dois num lugar bem sossegado, com cães pulguentos e a aurora coberta pelo sereno prateado. Uma casa de madeira, ou palha, onde a gente possa chamar os amigos e ficar altos, tocando banjo a noite inteira. Não desligue o rádio ainda. Essa música, apesar da freqüência ruim, me remete aos prados resplandecentes das chácaras nas beiradas da rodovia que desce para o Sul. É pra lá que eu quero ir, com você, lógico. Não ria. Agradeça seu patrão por tudo, ou mande ele à merda, apenas pegue um desses sacos de lixo e coloque suas coisas dentro, vamos. Esqueça seus estudos e esses museus empoeirados. Vamos dirigir até encontrar um pedaço de terra onde possamos descansar das pessoas. Não ria dos meus devaneios. Na verdade você gosta das pessoas. Gosta desses macacos que aparecem em suas caminhonetes cintilantes e ficam olhando seu traseiro. Adora servir famílias em férias que vão para o interior. E ri de sujeitos como eu, que ficam aqui escorados no balcão com uma xícara de café morno imaginando uma vida ao seu lado. Você tenta encontrar sua estação favorita no rádio, com um pano de pratos no ombro, suas unhas vermelhas e sua botina carcomida pelo cascalho, seu velho e surrado vestido florido e seu chapéu de palha. Esqueça aquela casa perto do canal. Deixe para trás esse néon aceso na estrada escura. Traga isso tudo para perto de mim, antes que eu tenha que partir sozinho novamente. Eu sei, o tempo mata tudo que sinto. Eu ando triste e perdido em visões e delírios de um cara embalado pelo egoísmo e a angústia reluzente de um otimismo tolo, que cansou de contar todas as coisas que deixou passar e que te ama obsessivamente, como uma melodia antiga que não sai da minha cabeça. Talvez eu ainda possa dirigir pelo resto dos meus dias, se for preciso, para encontrar um lugar para morrer em silêncio.