Friday, April 17, 2009

Exposição “Brutal” promove união dos artistas pela arte 

Escritores, desenhistas e artistas, como Laerte, Lourenço Mutarelli, Paulo César Peréio e Daniel Galera doam obras inéditas em prol de espetáculo de Mário Bortolotto 

Idealizadoras do projeto de espetáculo teatral “Brutal”, com texto de Mário Bortolotto e direção de Marcos Loureiro, as atrizes e produtoras Carolina Manica e Luciana Caruso optaram por criar uma nova alternativa para a realização do projeto. Ao invés de esperar por editais e patrocínios elas resolveram reunir forças naquilo que elas mais conhecem: a própria arte. Conseguiram reunir mais de 30 obras inéditas de respeitados artistas e produziram a exposição “Brutal”, com abertura no dia 22, na Coletivo Galeria, em São Paulo. As vendas irão financiar a produção da peça. 

Entre as obras, destaque para duas telas originais pintadas à mão pelo cartunista Laerte, que foram usadas para ilustrar as capas das coletâneas da sua consagrada criação "Piratas do Tiête", e um original inédito em canson, produzido com nanquim e desenhado com pincel pelo aclamado quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli, autor de "O Cheiro do Ralo". Também serão expostos manuscritos. Um trecho do próximo livro do escritor Daniel Galera, "Barba ensopada de sangue",e uma crônica do escritor Marcelo Rubens Paiva estão entre eles. Entre as surpresas, uma tela de Paulo César Peréio revela que, além de ator, ele também é ótimo pintor. 

A exposição terá ainda uma crônica manuscrita do dramaturgo Mario Bortolotto; uma crônica manuscrita de Xico Sá; um original de Rafael Grampá, novo talento dos quadrinhos nacionais e primeiro brasileiro a receber o prêmio internacional Eisner Award junto com Gabriel Bá e Fábio Moon, que também doaram originais para a exposição; um desenho inédito do escritor Joca Reiners Terron; cadeiras desenhadas pelo artista plástico e quadrinista Rafael Coutinho; originais do quadrinistaAndré Kitagawa, autor da famosa graphic novel “Chapa quente”, também adaptada para o teatro sob a direção de Mário Bortolotto; uma video arte da artista plástica e designer Andreza Valentim; um original do desenhista Carlos Carah; uma tela da artista plástica Raquel Falkenbach; uma ilustração da artista plásticaLuisa Doria; uma crônica manuscrita do escritor Daniel Pelizzari; um poema manuscrito do poeta, escritor e jornalista Ademir Assunção; uma fotografia do dramaturgo, diretor e fotógrafo Antonio Rocco; uma fotografia de Renato Parada; uma crônica manuscrita do jornalista e escritor Palmério Dória; uma tela desenvolvida pelo estúdio de artes visuais Sopa Grafix; um painel em MDF do artista urbano Loro Verz e uma vela impressa com arte fotográfica pelo fotógrafoRoberto Donaire. 

Exposição “Brutal”  
de 22 de abril a 3 de maio. 
Coquetel de abertura: dia 22 de abril, a partir das 19 horas.
 

funcionamento: 
ter. a sex. das 17 às 23hs 
sab. das 14 às 19hs 


Coletivo Galeria 
Rua dos Pinheiros, 493 – Pinheiros – SP 
11 3083 6478 
www.coletivogaleria.com.br



Bill Callahan - "Sometimes I Wishy We Were An Eagle"


Bill Callahan, ex-Smog, acaba de lançar mais um álbum. Ainda estou nas primeiras músicas e são ótimas. Vá se você gosta de Nick Drake, Bonnie ‘Prince’ Billy, Bill Fay, desses caras que te fazem querer pegar a estrada para lugar nenhum no feriado prolongado. Porra, e a capa é fodaça.

isn’t it a pity

Ontem, voltando para casa quase de manhã, quando estava perto de onde moro, começou a tocar uma velha canção de George Harrison num CD esquecido que encontrei no porta-luvas do Opala. Fazia um bom tempo que eu não escutava aquela canção. Deixei carro deslizar na banguela pela Cardeal Arcoverde. Estacionei e fiquei encolhido escutando a música inteira quando fui atingido por uma nostalgia que dissolveu - ou estilhaçou - algo dentro do meu peito. Entrei em casa com a música ainda ricocheteando dentro da minha cachola. Sentei no sofá e me lembrei do dia que mostrei essa canção para meu avô.

Era uma tarde de um domingo nublado e estávamos sentados na varanda da modesta chácara dele. Eu e meu avô. No interior de Minas Gerais. Isso em 1992, acho. Ele ia e vinha em sua cadeira de balanço. Descalço. Silencioso. Com os olhos fechados e a cabeça pendendo suavemente para trás. A boca levemente aberta para poder respirar. Peguei um pequeno aparelho de som, liguei na tomada e lhe pedi que prestasse atenção naquela música. Eu era um moleque desencantado, cheio de espinhas no rosto e meu corpo era raquítico e coberto de ralados e arranhões. Não fazia a menor noção de nada. Cagava e andava para o mundo. No entanto, aquela música me atingia de forma brutal, tinha um enorme poder sobre mim, como feitiçaria, me levando a um estado de melancolia confortável, como se eu fosse levado numa canoa Rio Verde abaixo.

Enquanto ela soava no mini-system, ficamos em silêncio olhando a paisagem, entretanto, eu também podia escutar o ranger da cadeira de balanço, um quero-quero gralhava com sua esposa no terreno da frente. O vento soprava fraco, e as árvores que escondiam o rio, atrás da cerca-viva de cipreste, faziam um farfalhar que lembrava o som de uma cachoeira. Tudo parecia se conectar a melodia da canção. Fangio, nosso doberman mestiço, lambia uma ferida pustulenta na pata dianteira esquerda, deitado no piso gelado de granito. Tirei meus óculos e os limpei com o avesso da blusa. Tentei enxergar meu avô sem eles. Tudo era muito turvo. Deitei de costas no chão. As nuvens carregadas dançavam no céu.

Meu avô era um piadista silencioso. Possuía um corpo volumoso, indicando que antes ele fora musculoso, mas os excessos da vida e a gravidade acabaram por vencê-lo. Sua testa era reluzente e sua olhar era profundo como se enxergasse através das pessoas. Gostava de vê-lo andar pelas ruas de Três Corações, com sua indiferença estóica. Sempre aparecia com suas intervenções ácidas quando a família discutia algum assunto banal na mesa do jantar ou do café da manhã. Também inventava jingles pessoais instantâneos que faziam todos rirem durante dias. Um sujeito íntegro que havia sido tenente no Exército brasileiro durante muito tempo.

Quando eu tinha 9 anos de idade, ele me ensinou a empunhar uma arma. Dei alguns tiros no pasto de uma fazenda nas redondezas de Cambuquira. Depois me deu uma aula de como desmontar e limpar um revólver. Lembro que ele foi caçar aves depois e voltou com as mãos vazias e um sorriso acolhedor no rosto. Já era noite e a família inteira estava na cidade. Fomos até a cozinha da fazenda, onde ele acendeu o fogão a lenha e pegou alguns ingredientes na geladeira e nos armários. Naquela noite, ele me ensinou cuidadosamente a preparar um arroz carreteiro suculento. Depois que comemos nos sentamos na varanda, onde meu avô me contou histórias assombradas de um velho de chapéu de palha que foi morto pela mulher, mas que continuava vagando pelos pastos de Varginha sob o luar prateado. Fiquei agarrado às minhas pernas finas com um cagaço filha da puta. Vaga-lumes surgiam e desapareciam na escuridão da noite.

Em 1996, meu avô recebeu um diagnóstico atrasado de pancreatite. Meu pai o trouxe para um hospital decente aqui em São Paulo. Fui visitá-lo, mas ele já estava bem magro e havia sido entubado. Não tenho certeza se me reconheceu ali, naquele quarto frio com cortinas de plástico verde-claro. Dois dias depois, ele morreu com todas as oportunidades que existia para eu agradecê-lo por tudo que me ensinou. Não tive a chance de me desculpar por não ter aproveitado e aprendido mais com sua pessoa fantástica. Não pude sequer abraçá-lo pela última vez.

Ontem, no sofá, senti uma saudade enorme dele. Da forma como ele levava a vida, não se preocupando demais nem deixando os aproveitadores se aproximarem. Ontem, me dei conta de que não posso fugir de quem eu realmente sou. Não posso deixar de acreditar nos meus amigos verdadeiros. Não posso esquecer-me de odiar meus inimigos. Não posso abandonar a verdade. Nem perder a lembrança da maneira discreta que meu avô se preocupava comigo. Sobre o que ele me disse sobre caráter. Sobre começar e terminar muitos livros, no entanto, ele se foi e eu o li apenas pela metade.

Thursday, April 16, 2009

isso não quer dizer nada

Esses dias parei para pensar no passado. Detesto indolência. Ando sonolento. Parei para pensar. E tenho medo de dormir. Preciso me libertar e despertar, por assim dizer, dessa merda amorfa toda. Ando sonolento. Mas enxergo. Memórias e presságios. Fiquei andando por aí. Estou me sentindo estranho. Minha garganta apertava naquela noite. Fiquei pensando que ia chorar. Não me lembro como é chorar. Daí fiquei legal. Minha percepção estava alterada. Aguçada. Nasci do outro lado do rio. Numa época errada. Numa curva. Que me faz renegar o presente. Eu acredito nessa habilidade para fazer qualquer coisa sem encontrar nada que queira fazer.

Monday, April 13, 2009


aqui tem umas fotos bem legais de Sampa, a cidade que eu morro.

Sunday, April 12, 2009

festim


com sua voz vulnerável

ela sussurra uma canção

como se lançasse um feitiço

esquecido para mim

 

numa linguagem que consigo entender

ela canta, inacreditável,

que amanhã a poeira vai baixar

e o sol aparecerá para nós

 

ela me põe no colo

e destrincha meu coração

e enterra blasfêmias sob as sombras

das árvores dos campos

do outro lado da trincheira

 

ela vaga,

e me alerta sobre a longa batalha da noite anterior

sobre a última esperança

sobre gostar de quem não existe mais

sobre dormir de dia

 

tomando leite e assistindo desenho do Papa-Léguas.

 


Saturday, April 11, 2009

estaria mentindo se dissesse a verdade. a Festa de Merda foi uma bosta onde 250 pessoas se refestelaram. espero que ela tenha sido enterrada na última canelada no saco que o Trator Cavera acertou ali. espero, sem esperança, que os deslumbrados apanhem de tacape. que os alpinistas desabem. que o show do Patife Band continue retumbando na minha cachola. que meus amigos não se suicidem ainda. que o La Carne toque em festa para vegetarianos, comigo ali no canto. coração de galinha no churrasco n roll. que a garota de Nova Iorque me traga flores da próxima vez. hoje estou pregado e satisfeito. amanhã vou comprar um numchako pra me garantir. 

Thursday, April 09, 2009

domingo

Wednesday, April 08, 2009

Naquela noite cheguei em casa com alguma coisa queimando minhas entranhas, como se tivesse jantado uma pantera sem mastigar e, com uma violência dilacerante, ela tentasse escapar rasgando as paredes do meu estômago. Esvaziei meus bolsos, abri meu cinto e arriei minhas calças, sentei o rabo na privada, descansei os cotovelos nos joelhos e mandei um baita cagalhão. Senti a merda escorrer do meu reto e afogar na água transparente. Eu encarava a profundidade dos azulejos quando senti um alívio profundo. Uma calma indígena. Respirei fundo. Minha merda só fede para os outros. O ar dos livres é bem mais puro, mãe. A cidade estava quieta lá fora. Já não escutava nada, quase, até porque o vento não sopra mais nessa capital.  Dei descarga com vigor. Fui até o som e coloquei um vinil do Charlie Parker. Slim`s Slam. Bem baixinho. O pássaro cantava anunciando um novo amanhecer. Pessoas carregavam fardos e iam aos seus pontos de ônibus.  Era cedo para alguns, eu sabia. E pensava naquele carro abandonado no meio de uma ponte, com a porta aberta e o rádio ligado. Pensava naquele rosto pálido olhando o escuro da cidade através da única janela acesa daquele prédio. Eu pensava em Josefina gritando, enquanto era amarrada e sugada por uma ambulância, que as pessoas, elas são idiotas, sabe, baby. 

Monday, April 06, 2009

SACO DE RATOS - NESSA SEGUNDA-FEIRA

"E finalmente os shows estão de volta. Agora em nova casa, novo dia, novo horário. São as segundas de rock. Nessa segunda-feira (dia 06) nossa banda "Saco de Ratos" vai inaugurar a bagaça. Com duas horas de rock and roll. Duas cronometradas horas de rock and roll. O show tem que começar às 22h e terminar religiosamente às 24h por conta de um acerto com o Satyros 2 de não incomodar a vizinhança. Mas assim que terminar o show, os insones podem dançar um rock and roll por conta do DJ Carcarah.

Nessa segunda-feira o Brum não vai estar com a gente. Ele vai estar no hospital encarando uma cirurgia. Mas a gente vai tocar "Vida Brum" em homenagem a ele.

Nessa segunda-feira (dia 06)

Show da banda "Saco de Ratos"
Mário Bortolotto : Vocal
Marcelo Watanabe : Guitarra
Baixo : Fábio Pagotto
Bateria : Rick Vechione


Das 22h até 24h

A partir das 24h - Discotecagem rock and roll de Carcarah.

O Satyros 2 fica na Praça Roosevelt, 124
Ingressos : R$ 5,00


Na próxima segunda-feira (dia 13), quem toca é a banda "Fábrica de Animais""

arranquei do Atire.

vou levar só funk soul e blues pra tocar.
Rita tinha um comportamento sexual bizarro. Ela gostava de tomar bordoadas até que ficasse com marcas assustadoras no traseiro e no rosto. Isso no começo. Até achei normal ela cuspir na minha cara, mas quando entrou numas de fezes, fiquei um tanto desconfiado. Nosso sexo escorria e fedia pelo andar inteiro do prédio. Uma vez, algemado à cabeceira de sua cama, tomei umas lambadas do seu chicote de couro de porco nas costas. Fiquei um mês sem poder tirar a camisa em público. Eu tinha 17 anos na época e fazia um puta calor nas ruas. Rita estava com 35 e era linda e pálida como uma fada malvada. Não gostava de drogas nem bebidas, era daquele jeito mesmo, normal. Usava roupas de vinil e apetrechos de couro tacheados. Demorava um bom tempo para calçar e tirar suas botas de cano altíssimo com um cadarço trançado quilométrico. Gostava de brincar de dominadora/submissa. Sua musa era uma americana de pernas enormes, chamada Stephanie Rage. Havia pôsteres dela espalhados pelas paredes pretas de todo apartamento. Um dia, Rita chegou toda suada e foi lavar a louça. Ela estava agindo de forma estranha e até cantarolava canções de Patsy Cline, coisa que ela detestava. Rita estava feliz, eu notei. Passava alguns dias desaparecida e quando surgia, fazíamos sexo convencional, cheio de beijinhos secos como frutas cristalizadas. Semanas depois, Rita me disse que estava apaixonada por Raimundo, um anão dono de um pardieiro de 7 quartos na Aclimação. Dizem que anões são bem dotados, existem até filmes onde esses caras, com auxílio de banquinhos, fodem louras estonteantes em Moscou e Berlin. Mudou-se para o hotel do Raimundo e nunca mais me deu dinheiro ou notícias. Soube, bem depois, que ela morria de cócegas na sola dos pés.

Tuesday, March 31, 2009



PJ Harvey & John Parish - "A Woman A Man Walked By" (baxaê)

escutei apenas a primeira música, acabei de puxar. boa de foder.

o outro disco que Polly Jean lançou com John Parish, “Dance Hall At Louse Point”, uns 12 anos atrás, é bem experimental, nenhuma música se assemelha a outra, cheio de microfonias, barulhos estranhos e sussurros ao vento. casca grossa. a guria se esgoela numa canção chamada “Taut”, acho, que é de arrepiar os cabelos da nuca, rola até vontade de conferir se a porta está mesmo trancada, com medo de que alguma criatura apareça. lembro que estava andando numa rua em Pinheiros, isso no milênio passado, daí entrei numa loja de discos e sem querer achei o CD ali no meio, o escondi em outra seção para poder voltar com dinheiro para comprar depois. e voltei e comprei. daí alguém foi em casa e levou emprestado e nunca mais o vi. esse novo não precisa comprar.

e deve ser de bom de foder também.
"It’s Raining" – Irma Thomas

sem dúvida, uma música que pode mudar o meu dia.

Monday, March 30, 2009

acredite nos outros. é fácil.

eles fazem campanhas anti-tabagistas, mas esquecem de alertar que o caráter falho, o vacilo e a culpa brocham mais que o cigarro. ela me diz morra e eu estou cansado para isso agora, embora tenha preguiça de viver sob conselhos decorados de alguma revista. esses filhos da puta. são espertos e legais e tratam da mamãe natureza com hipoglós. andam de terno e carros com os vidros fechados no calor do verão. mastigam bem pra caralho. não sei por quê, mas prefiro armas a tortas. cicatrizes a franjas. pedras a buquês. suicidas a conquistas. diarréia é bem melhor que cagar duro. não sei por quê, cuidado, mas não vou com a tua cara. pose para fotos e dê entrevistas com cara de pastel. em pleno século 21. acredite em jornais e na internet. nos figurões desdentados. acredite que aquele pau ainda possa levantar. facilite. lembre. e não se esqueça daquela fala quente decorada da mesma revista. decore mentiras que não existem mais. excesso de afeto e medo. fale como se evacuasse. não seja de ninguém mas aceite o próximo se houver algo em troca. nasça para dar certo abaixo da linha do Equador, por favor. mantenha e procure contatos. fale duas vezes para ser escutado. beije como se evacuasse. nunca deixe a cidade ou de atender o telefone por medo do esquecimento. permaneça branco e ocupado. o preço de ser livre e existir para os outros. vale a pena. pode crer. 

Friday, March 27, 2009

sem fogo

era uma vez, numa dessas noites bem, bem escuras, eu andava pelas ruas do bairro. As copas das árvores cobriam as lâmpadas dos postes e o vento frio que soprava ajudava a formar sombras que mais pareciam espectros aleijados dançando na malha do asfalto. Isso dificultava minha busca por uma bituca qualquer para poder dar uns pegas num crivo. Eu tinha dezessete anos quando a encontrei plantada numa esquina. fumava com vigor. pálida como uma vela - de vestido esvoaçante e colorido - de macumba.  Eu tentei me aproximar hein. O grito dela acordou a vizinhança e os pombos nos fios de alta tensão. Credo. Cruz credo. Corri como quem rouba. Uns caras numa Kombi branca arremessavam jornais por sobre as cercas, nos quintais. Plah. Fiquei apavorado com os estalos. Plah. Plah. Eu estava em maus lençóis. O coração batendo na garganta. Um cheiro escroto subia do canal. Resolvi mijar nele. O pressentimento enorme de que alguém iria me atacar me aterrorizava. o berro dela ainda ecoava e fazia curvas. Um crivo. Meio. Achei um meio crivo menos que a metade numa rachadura. 

Wednesday, March 25, 2009

um poema, um peido

um poema, um peido

se existe algo que detesto

é gente

como transpira

conversa

e encosta

 

vão se foder

 

por mim,

conversava com os animais

 

sou burro

 

não sei falar.


"para meu amigo Adriano, o Ninguém"

Tuesday, March 24, 2009

fim da trilha/grande nada

Seus frascos de remédio no criado mudo ao lado direito da cama do hotel estão cada vez mais vazios. A espera de um novo desastre, o fim da trilha. Talvez isso que estamos sugando não seja amor. Sinto que eles ainda estão no meu encalço pelas ruas do bairro. Posso escutar as sirenes. Existe algo de errado dentro da minha cabeça. Todas essas encrencas escondidas debaixo do meu chapéu. E seus olhos que encaram a quina do teto parecem um vale após um incêndio. Silenciosa como uma doença, eu vejo você se mover lentamente de um lado pro outro. Às vezes você age como uma anciã, agarrada a esse cachimbo encardido o dia todo. Quando a chuva da manhã de veludo tamborila na janela, como moscas que não conseguem escapar, eu me imagino em outro lugar. Talvez você esteja absorta demais pensando no grande nada, no vazio daquela garrafa. Qual era mesmo o nome daquela enfermeira de olhos de metal? Nosso quarto 37 se parece com uma cabine, e como fede esse carpete. Meu coração é um cinzeiro. Meu dinheiro está quase acabando. Talvez devêssemos voltar a dormir em casa. Talvez devêssemos entrar num tratamento com metadona. Ainda temos muita coisa a aprender. Amaldiçoados seremos para sempre. É. Você ainda está aqui, mas já não tenho tanta certeza.
"The Breeze/My Baby Cries" - Bill Callahan (cover Kath Bloom)

Sunday, March 22, 2009

c`alma

todas as promessas têm prazo de validade ou podem ser recicladas 
assim como todos os fantasmas oscilam à noite 
não durmo nunca
abstenho
flutuo 
anestésico para cavalos sob as luzes do tráfego num final de tarde laranja
desviando de jornais e sacolas plásticas de supermercados nas calçadas 
nas janelas dos prédios 
onde nada reflete 
nos azulejos trincados 
nas faces de uma moeda enferrujada 
um milhão de coisas pela metade 

ou em partes falhas

só vejo você. 

Tuesday, March 17, 2009

Friday, March 13, 2009

Ela me traz o frio com seus braços cheios de hematomas e seus beijos ressecados. Ela é o meu anjo desorientado que me chama de Lúcifer, no escuro do carro numa estrada mal sinalizada. Ela empurra minha cabeça pra baixo quando vomito em banheiros de postos de gasolina . Ela abre a janela para gritar filho da puta pro céu. Diz que é uma forma de descarregar, eu não entendo. Ela sente medo demais e não sabe rezar. Nós rachamos a gasolina e dividimos desastres. Por mim, tá tudo bem. Acho que vou sair para dar uma volta, eu lhe digo, apoiado na porta do motel, e ela se transforma numa coisa delicada e esquecida, como flores num cemitério após o dia de finados. Não temos planos nem irmãos. Temos um fim próximo, numa curva mal feita, a toda.

Thursday, March 12, 2009

antes que eu morra


Tuesday, March 10, 2009

“Farewell Transmission” – Songs: Ohia

hoje



taí, um bom pretexto para conhecer a Daslu.
Como sempre, passo às tardes andando pelo bairro. E, olha, têm uns caras estranhos diariamente sentados ali naquela esquina, fumando cigarros demais, bebendo cervejas à beça e vendendo drogas batizadas pra rapaziada descontrolada que aparece de fora. Talvez eles tenham problemas. Ou eles inventam problemas. Assim conseguem, não é à toa, moedas para fazerem suas suadas intéras, que se transformam em poeira e fumaça. Não importunam ninguém, de certa forma, apenas a visão de um bando de marmanjos desbeiçados tomando uma cerveja na calçada numa tarde quente causa repulsa e ódio nos nobres cidadãos comuns, algo semelhante ao que os portugueses sentiram quando chegaram ao Brasil e encontraram os índios pelados nas redes armadas em palmeiras na orla. Os vagabundos fedem o fedor do verão. E, quando estão exaltados e efusivos, mais latem que dialogam. Contudo, não criam caso. Quando passo por lá, eles gritam:

- Ei! Ei, Carlinhos! Tem um cigarro ai, mano do caraio?

Saco meu maço, tão amassado quanto a cara do Gervásio, e ofereço pra geral. Depois o isqueiro roda e volta, após certa insistência minha. Nada de novo acontece. Em lugar nenhum. Bebemos a cerveja gelada e nunca falamos de ambições ou planos. Eles aparentam não ter nada a dizer sobre eles mesmo, quanto menos eu. Por isso, falamos mal dos outros, apenas para rir de toda essa papagaiada séria que as pessoas acreditam que podem fingir ser. Nada como se fingir de alguma coisa. Só assim mesmo para se dar bem na vida. Eu quero mesmo é que se foda. E creio que esses caras também.

Afinal, que vá todo mundo tomar no olho do buraco do cu.

Gervásio levanta a perna esquerda e peida. Ninguém ri.

- Acho que vai chover – ele diz sorrindo com todos seus dentes amarelados pela nicotina e pelo crack – hein, Carlinhos?

- Sei não.

- Porra, tá dando até trovão.

Monday, March 09, 2009

no Rio de Janeiro



com lançamento d`A Musa Chapada.

Thursday, March 05, 2009

aguardem


"Corredor Polonês" - Patife Band

Friday, February 27, 2009

não é para Bancoc nem Budapeste ou Massachusetts. eu não nasci na primavera nem para me esconder, mesmo assim, ei, eu vou fugir por um breve período de tempo, talvez algumas horas apenas, tempo suficiente para atravessar este túnel que liga nossos bairros. vou para onde a mentira se refugia, onde os cães não param de latir e é sempre noite, onde as luzes dos postes piscam como sirenes silenciosas, onde velhos mendigos me abraçam sem esperar nada me troca e dos bueiros uma fumaça branca sai. um sujeito, claramente emocionado, me abordou hoje no parque, me segurou pelo braço e me disse para manter a calma. todo mundo rouba, todo mundo engana, ele disse e se foi. eu fiquei ali parado, pasmo, sentado num banco de madeira, olhando para a ponta dos meus tênis, tentando me lembrar do que aconteceu naquela noite de sábado, quando evitei contato com qualquer tipo de seres humanos e me limitei à Céline. uma tristeza genuína me acertou. a temperatura virou. o vento balançava as copas das árvores e levantava algumas folhas secas do chão. a grade que separava o parque do mundo estava bem enferrujada, mas eu podia perceber que um dia ela fora azul. o ruído do tráfego aumentava lá do outro lado, atrás das casas de cor salmão. eu não queria perder a chuva. meu chapéu cheirava a enxofre, como aquele banheiro público onde, na ausência de giletes, apaguei bitucas de cigarros nos meus pulsos apenas para garantir boas marcas.

Sunday, February 22, 2009

vamulá


Nessa segunda e terça-feira de carnaval vai rolar rock and roll no Teatro X. A nossa banda "Saco de Ratos" vai tocar lá nos dois dias. Antes do nosso show deve rolar um set acústico com a Fernanda e oFlavinho da "Fábrica de Animais". E antes, durante e depois dos shows, Carcarah vai atacar de DJ mandando muito rock and roll pra todo mundo dançar. É pra ir até de manhã já que a maioria da rapaziada não precisa acordar cedo no dia seguinte.  

"
Bortolotto comanda o show que dura mais de duas horas e trouxe de volta o sentido sagrado para a noitada (rockeiro que é rockeiro não usa a palavra "balada"): desabafar

A banda devolveu ao rock autenticidade e elementos da sua essência, naquela que se transforma na melhor terça da cidade.
"

                              
  (Marcelo Rubens Paiva)

Apareçam.


Segunda e terça de rock no Teatro X

a partir das 22h - sem hora pra acabar

Ingressos : R$ 5,00

Banda Saco de Ratos

Mário Bortolotto : Vocal
Fábio Brum : Guitarra
Marcelo Watanabe : Guitarra
Fábio Pagotto : Contra-Baixo
Rick Vechione : Bateria

Set acústico com 
Fernanda D´Umbra : Vocal
Flávio Vajman : Gaita e guitarra

Discotecagem rock and Roll : Carlos Carah

O Teatro X fica na Rua Rui Barbosa, 399 - perto do Bradesco da Rui Barbosa

Fiquem a vontade para divulgarem em suas listas de e-mails. A gente vai achar bem bacana

Mário Bortolotto


Friday, February 20, 2009

fraude descartável

Já faz muito tempo desde o dia em que você partiu. Havia algumas formigas no prato esquecido numa manhã opaca de outono. Marcas do seu lábio na borda de um copo com restos de vinho. O cinzeiro transbordava com ajuda do vento. Ninguém deu a mínima na vizinhança. Mas eu me lembro perfeitamente. Que droga. Do final da tarde. Dos prédios e das janelas que limitavam nosso horizonte, e se destacavam nitidamente do céu que escurecia e abraçava tudo em sombras, me alertando que a noite seria longa, dolorosamente, eterna.

Thursday, February 19, 2009

Monday, February 16, 2009

cadê?


Saturday, February 14, 2009

O eco do seu soluço na escada de incêndio. Sua maquiagem escorrida fora de tom sob a aurora. Sua dor que endurece teu peito em silêncio e cheia de glória. Tanto tempo se passou. E nenhuma nova sensação. Talvez ainda exista um corrimão. Ou você possa passar por debaixo da catraca sem pedir perdão. Encare isso. Sem dúvidas. Caia fora desse quarto. Talvez se perca. Garanta uma arma. Finja escutar os outros. Nem tenha medo. Caia fora daqui.

Wednesday, February 11, 2009

Ike & Tina

o blog Doctor Mooney colocou à disposição "The Hunter", um dos melhores discos do casal sopapos Ike & Tina Turner. o blues e o R&B deslizam e rasgam faixa a faixa. esse albúm é uma desgraça de tão bom, um incêndio que se apaga com pauladas. passa lá e baixe tudo, depois queime um cd e coloque no carro, ou num cd player qualquer e pare de fazer o que você precisa fazer, pare de pensar demais, salve-se afundando na lama.

enderece e envie seus cartões postais. eu espero estar bem longe quando eles chegarem.

nada cai do céu. custa muita loucura. algo semelhante a gotas de sangue numa folha em branco. inesperado como um blecaute quando dentro do elevador, ou giletes sujas embaladas em celofane. um dia serei um suicida aposentado, quem sabe um rebelde adaptado. só espero não precisar da família nem dos amigos nem dos cães nem dos gatos.
há algo de muito errado nesse quarto escuro, que consome minha alma com talheres descartáveis e luvas plásticas quando chega a madrugada. quando chega a madrugada. e seu cheiro quente e fétido no ar. quando o vento abre e fecha a janela anunciando mais uma tempestade. quando mais um blecaute apaga a vizinhança. prefiro ficar à minha própria espreita para poder entender essa falta de vontade. a verdade que intimida. o refugo. sobre nunca colocar as coisas no lugar. sobre uma longa e escura noite. um silêncio absoluto. um sujeito atormentado, pensando longe demais.

Monday, February 09, 2009

Friday, February 06, 2009



Dan Auerbach, uma das metades do The Black Keys, lança na próxima segunda-feira “Keep It Hid”, seu primeiro trabalho solo. Eu já havia escutado “I Want Some More”, a segunda faixa desse álbum, um blues denso e distorcido, com a bateria marcada no ritmo de uma locomotiva no vale das sombras, uma música que pode te empurrar da beira do abismo ou te fazer tomar uns tragos a mais e encarar no braço aquele filho da puta encardido que não para de te olhar do outro lado do bar. Som para caras durões que mascam tabaco e rasgam as roupas das mulheres antes de fodê-las cuspindo palavrões em banheiros públicos. Bom, comecei a falar bosta de novo, o que importa é que o disco já está futucando o barbante da internet e você pode baixá-lo aqui, por enquanto, e é isso que estou fazendo agora.

Último brinde

Às vezes eu uivo pra lua e lembro do verso de Allen Ginsberg: “I saw the best minds of my generation destroyed by madness...”
Às vezes eu imito um velho bêbado conversando com seu piano.
Às vezes eu rio dos meus inimigos invisíveis que seguem atrás de mim na praia tentando apagar minhas pegadas na areia.
Às vezes eu olho pra cara vermelhona do sol e grito a plenos pulmões: é isso aí, meu chapa, continue brilhando, brilhe pra valer.
Às vezes eu sussurro versos indecentes no ouvido de Lady Solidão só pra vê-la excitada.
Às vezes eu recito diante do espelho trechos de poemas tristes que eu mesmo escrevi há mais de dez anos: “musas sádicas me acariciam / com unhas de gilete / lábios em carne-viva, mil beijos / de medusa — stripers que após a roupa / arrancam a própria pele.”
Às vezes eu escuto os pés do Tempo roçando de leve o assoalho de madeira do corredor e digo a ele: Eu sei que você está aí, meu velho, pode passar. Não precisa ser tão cuidadoso.
Às vezes eu sonho que sou um boxeador com a cara toda arrebentada caído no canto do ringue e uma garota branca como uma xícara de leite diz bem perto dos meus machucados: vamos lá, querido, não jogue a toalha, vá pra cima, você consegue.
Às vezes eu lembro do dia em que ganhei um triciclo do meu pai e saí pela rua pedalando a milhão, feliz como um garotinho que acabou de ver sua mãe voltando do hospital.
Às vezes eu tenho vontade de chorar mas faz muitos meses que não consigo. Desde maio do ano passado.


Ademir Assunção

Tuesday, February 03, 2009

semana

Hoje tem o Saco de Ratos Blues no Teatro X, a partir das 22hs.
É diversão garantida. eu apareço por lá toda terça-feira. E geralmente me comporto, ao contrário do pessoal.

Na sexta, dia 09/02, a Fábrica de Animais faz seu primeiro show do ano na Livraria da Esquina. Na mesmo dia, a banda curitibana Hillbilly Rawhide - que me foi apresentada por uma leitora desse espaço - se apresenta no CB.

Agora, no sábado, o Thee Butchers Orchestra toca no CB. Nem me lembro quando foi a última vez que esses caras se juntaram para uma putaria. Eu vou aparecer com um chicote de couro para dar umas lambadas nas costas dos indies sofredores e nos caras da banda.

Algo me diz que estarei esmerilhado na próxima segunda.

o Teatro X é na Rua Rui Barbosa, 399 - Bixiga Tel.: (11) 3283-2780.

A Livraria da Esquina fica na Rua do Bosque, 1254 - Barra Funda.

O CB fica ali na Barra Afunda, numa rua perto da estação Marechal Deodoro.
o começo do que viria a se chamar rock n roll.
prestenção no comecinho country da parada.

“Put your Cat clothes on” – Carl Perkins

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agora, isso aqui é mais sério:

Woody Guthrie - So long it's been good to know you




na próxima vez que eu me embebedar vou cantarolar essa canção pelas ruas.

Texas

Se eu pudesse dirigir pelo resto dos meus dias, talvez eu conseguisse me manter quieto. Quem sabe se eu arrumasse um lugar para onde ir com você, garota, para muito, muito longe, talvez eu conseguisse me acalmar um pouco. Apenas o seu silêncio me deixa tranqüilo e consegue juntar meus cacos. Você atrás do balcão tentando encontrar a freqüência certa da estação de rádio. Servindo os caminhoneiros falastrões empapados em suor ou fatiando a torta de limão segredo da casa. As crianças berronas arremessando batatas fritas com catchup pelo recinto. Sua paciência com as pessoas. Só o seu silêncio eu escuto. Pela janela vejo a rodovia ensolarada. A poeira no horizonte. Espero a noite. Quando posso te ajudar a colocar as cadeiras viradas sobre as mesas e recolher todo o lixo dos banheiros enquanto você passa desleixadamente o pano no chão. Depois eu acendo o néon da fachada da lanchonete e nos abraçamos rindo no estacionamento ermo. O vento que levanta seu cabelo. Um poste solitário que ilumina apenas alguns arbustos que nunca foram aparados. Você está muito bonita hoje. Sabe, ando tendo visões. Nós dois num lugar bem sossegado, com cães pulguentos e a aurora coberta pelo sereno prateado. Uma casa de madeira, ou palha, onde a gente possa chamar os amigos e ficar altos, tocando banjo a noite inteira. Não desligue o rádio ainda. Essa música, apesar da freqüência ruim, me remete aos prados resplandecentes das chácaras nas beiradas da rodovia que desce para o Sul. É pra lá que eu quero ir, com você, lógico. Não ria. Agradeça seu patrão por tudo, ou mande ele à merda, apenas pegue um desses sacos de lixo e coloque suas coisas dentro, vamos. Esqueça seus estudos e esses museus empoeirados. Vamos dirigir até encontrar um pedaço de terra onde possamos descansar das pessoas. Não ria dos meus devaneios. Na verdade você gosta das pessoas. Gosta desses macacos que aparecem em suas caminhonetes cintilantes e ficam olhando seu traseiro. Adora servir famílias em férias que vão para o interior. E ri de sujeitos como eu, que ficam aqui escorados no balcão com uma xícara de café morno imaginando uma vida ao seu lado. Você tenta encontrar sua estação favorita no rádio, com um pano de pratos no ombro, suas unhas vermelhas e sua botina carcomida pelo cascalho, seu velho e surrado vestido florido e seu chapéu de palha. Esqueça aquela casa perto do canal. Deixe para trás esse néon aceso na estrada escura. Traga isso tudo para perto de mim, antes que eu tenha que partir sozinho novamente. Eu sei, o tempo mata tudo que sinto. Eu ando triste e perdido em visões e delírios de um cara embalado pelo egoísmo e a angústia reluzente de um otimismo tolo, que cansou de contar todas as coisas que deixou passar e que te ama obsessivamente, como uma melodia antiga que não sai da minha cabeça. Talvez eu ainda possa dirigir pelo resto dos meus dias, se for preciso, para encontrar um lugar para morrer em silêncio.

Friday, January 16, 2009

Ontem fui à loja de discos Marché. É a melhor loja de vinis que freqüento, tanto pelas ofertas quanto pela qualidade da música e pelo estado dos discos. Ela fica escondida ali na rua Matheus Grou, no nº 634, com uma vendedora emburrada que parece passar os dias solitários trancada com uma porrada de bolachas em caixas de madeira que vão até o teto, isso em dois andares. É possível encontrar muitas raridades, basta fuçar com paciência. O ideal é ir sozinho mesmo, para ninguém te apressar. Ontem mesmo eu peguei um Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, 4 Charlie Parker, um Bo Diddley, 4 coletâneas de Rhythm & Blues duplas com coisas do The Drifters, Joe Tex, Ray Charles, e algumas coisas de soul e doces harmonias countries. Só papa-fina, mosca branca. Vale muito a pena, sobretudo porque além da caralhada de discos que você pode encontrar lá, eles ainda te dão 50% de desconto no valor final, assim, peguei 23 discos por 103 dinheiros. Que alegria. Voltei pra casa todo pimpão e passei o resto do dia curvado sobre a vitrola, envolto numa fumaça azul de cigarros, empunhando uma flanela laranja para lustrar minhas novas aquisições e escutando o som alto, bem alto.

Thursday, January 15, 2009

talarico

Meus amigos ligam preocupados com minha saúde. A verdade está mal contada. Calma, bonecas. Eu tô benzão. O doutor apenas me disse que meu fígado está um pouco debilitado. nada demais. Como meu final de ano foi agitado e com todos os anti-inflamatórios, antibióticos e jujubas que tomei durante e após a cirurgia que fiz pra diminuir o pau, o coitado arriou, o fígado. Isso não significa nada. Eu não sinto nada. Apenas um exame que me disse que peralá, rapaz. Preciso agora ficar 1 mês sem beber. Grande bosta, ficar sem beber não significa que estou doente, posso ficar como um pamonha ali no canto tomando um suco de caju e sorrindo pras pessoas, sem estar doente. Fingir que está tudo bem divertido, sem estar doente. Mas não pretendo fazer isso. Vou ficar em casa, agora tenho uma desculpa para mim mesmo. Assim, logo mais, refaço o exame e vejo se o figo melhorou, o que é bem provável, segundo o doutor, e depois, recuperado, posso varar noites por ai, diabólico, e beber até cair de cara no chão, ficar feião, boneco doido, tá ligado, magro? fuder com a tua vidinha de merda, meter a vara nessas bonecas do sistema, botar teus filhos na droga, certo, tru? 

Friday, January 09, 2009

revolt trio
Sem grandes imprevistos ou contratempos graves - a não ser algumas brigas, ressacas doentias e uma tentativa de assalto frustrada– e após rodarmos quase 5000 quilômetros, voltamos à Sampa anteontem à noite. Eu, Cabeça e Guizé conseguimos atravessar o Sul do Brasil e o Uruguai para conhecer Montevidéu. Foi um rolê do caralho. Com estradas sossegadas e outras que exigiam total concentração, o que terminava num desgaste absurdo no fim dos dias em que passávamos na estrada e nas paisagens em movimento. Deslizando pelas BRs e pelas rodovias uruguaias, paramos em Curitiba, Balneário Camburiú, Praia do Rosa, Rosário do Sul – onde ficamos num bangalô podre e cheio de moscas varejeiras ao lado de uma whiskeria fedorenta na beira da estrada -, Montevidéu, Las Palomas, Pelotas e Curitiba novamente.
a estrada

O sol tostou minha pele e hoje descamo como uma cobra, cheguei a ficar roxo, depois vermelho pimentão, hoje estou da cor do pecado, quase mameluco. Levamos um estoque de coisas que por pouco não acaba na primeira noite, quando ficamos rodando a pé pelo centro de Curitiba até voltarmos ao hotel mais barato da cidade para sermos praticamente expulsos pela bagunça e falta de senso.

Montevidéu

A parte mais interessante, sem dúvida, foi Montevidéu. Apesar da clara antipatia dos uruguajos para com os brasileiros e da desconfiança da gostosinha que trabalhava no hotel em que nos hospedamos e de toda a loucura e o delírio que passamos pelas ruas da Ciudad Vieja, tudo correu bem, embora alguns hematomas tenham surgido, claro.

Cidade Velha, Montevidéu
No primeiro dia do ano, com o céu completamente encoberto por nuvens negras e o vento minuano sujo soprando frio na carcaça e levantando o lixo acumulado, fiquei caminhando sem rumo por todas as ruas desertas da Cidade Velha. Um silêncio de cemitério. Um local carregado de histórias ancestrais, com casas muita antigas e ruas estreitas, pessoas com descendência indígena e tudo cercado pelo oceano cor de chumbo e revolto do Atlântico. Enquanto meus
compadres dormiam, eu caminhava, sozinho, sentindo nada, apenas a satisfação de ser um forasteiro num lugar estranho. Sentia-me num filme de Kieslowski com uma garrafa de vinho vagabundo e a câmera fotográfica nas mãos, sendo interpelado, por onde quer que vagasse, pelos mesmos mendigos, um deles que insistia em me vender uma porcaria de uma guitarrinha feita com arames e um alicate, um verdadeiro espectro. Depois fiquei sentado numa praça, com minhas roupas encardidas, like a rolling stone, minhas unhas imundas e meu cabelo crespo totalmente desgrenhado pelo vento, rambling man, com saudades não sabia do quê e o fôlego falho.
Depois passamos de carro por Punta Del Este, mas ficamos apenas observando, que nem crianças na vitrine de uma loja de doces, todos aqueles iates e porsches e as cocotas mais belas da América do Sul, gangues delas com seus cortes de cabelo arrojados e coxas lisas e macias como veludo. Em Las Palomas fomos beber num farol beira-mar, com o céu coberto de estrelas e nebulosas, quando fomos confundidos com molestadores de menores por um grupo de extermínio responsável pela segurança dos playboyzinhos uruguaios. Eram alguns brutamontes bicudos que nos seguiram por um tempo. Eu achei que fosse ser fuzilado por ali. Inclusive quando pensava equivocadamente que ninguém me observava mais e eu simulava uma ejaculação com uma garrafa de cerveja de 1 litro e gritava: motherfucker, baby! Algo bem headbanger boboca mesmo. A coisa piorou quando amanheceu. Como não havia lugar algum para se hospedar, dormimos no carro, o que deixou um cheiro escroto de humano podre na barca, enquanto isso, nas ruas, centenas de bêbados ricos e acéfalos tocavam o terror. A polícia nada fazia, parecia pensar: deixem esses moleques se divertirem agora no verão, depois, quando eles crescerem, vão cursar uma nobre faculdade para se tornarem adultos imbecis e se lembrarem desses tempos de loucurinha que tiveram nessa praia. Eu desejava mesmo era que todos se matassem ali, nada mais natural. Eu desci ali, de chinelos e uma bermuda toda furada, apavorado, olhando ao redor à procura de alguma arma que pudesse me defender de possíveis agressores. Brutal. Preferimos ir embora antes que qualquer encrenca nos farejasse.
Na volta, já em Curitiba, nós 3 fizemos mais do mesmo, e caminhamos pela cidade até amanhecer, onde conhecemos o Lovestory e o Amistosas genéricos da cidade, o NightStory e o Café Madrugada, respectivamente. Lugares fedorentos, da bandidagem e dos policiais civis de cavanhaque brigando com as bochechas para fazer cara de mau, das putas escandalosas e sebentas. Foi divertido, inclusive um acidente bisonho que presenciei na porta de um desses lugares. Voltamos pra Sampa e fomos matar a saudade dos amigos, só que não encontramos nenhum.

as fotos foram tiradas pelo Cabeça

Thursday, January 08, 2009

Eu não sei mais. Não sei mais nada. Sei apenas que existe algo de misterioso comigo. Alguma coisa dentro de mim que me força a caminhar pro lado contrário. Um grande vazio que me preenche e me assalta quando volto pra casa e fico imóvel olhando as paredes. Completamente só. Dissolvo-me em meu canto. Releio os poemas que me cortam como guilhotina num silêncio estilhaçante. Me olho no espelho e aceno um adeus. Um grande conforto. Às vezes saio por ai. Eu e meu sorriso enlatado. Fico observando as coisas e as pessoas e a cidade iluminada. Dirijo por toda a madrugada tentando fugir em círculos, pensando em saltar rumo ao desconhecido. Irremediavelmente perdido. Algo que me entusiasma e me apavora ao mesmo tempo. Às vezes alguns amigos vêm me visitar. Eles me contam sobre seus planos e projetos. E gesticulam bastante. Eu fico em silêncio até me sentir cansado. Chego a ficar constrangido. Depois peço que vão embora. Gosto mesmo da suavidade da solidão. Da serenidade que sinto quando estou inexplicavelmente triste. 

Wednesday, December 24, 2008

Merda. É natal. Porcaria. Pegar rabeira no trem errado sem ter certeza. Correr de policial com as calças arriadas após um belo cagalhão numa avenida. Acreditar em chances. E desejar a paz e a luz. Sabe qual é que é? Têm uma pá de filho da puta que trabalha e recebe para tomar conta dos outros. Outros. A vida pode ser tão simples sem os outros. Outros. Todos querem presentes. Lembro da primeira série. Bem moleque. novo no colégio. Tínhamos que desenhar alguma porcaria em crayon. Papai e mamãe. Te amo vocês. Mesmo. Feliz natal. Amo vocês. Os outros, odeio. Se existe algo que odeio, é gente. Sempre apanhei bastante. Nas ruas e em casa. Sempre bati bastante. Na crocodilagem. O estado ensina. Ser mau é necessário. Lembro da primeira escola. Algo semelhante à Funabem. Escola do Estado. Uniforme azul claro. O gordinho tentou me intimidar ali, no meio da aula de encaixe. Tava entrando numas. Vê se pode. Tapa na cara e tal. À tarde. Chovia. Acenderam as luzes da classe. Ele me ameaçava. Apontei o lápis na cara dele. Eles me amarraram. Me levaram pra uma sala e me cercaram. Queriam entender. Entender. O quê? Selvagem nasce. NASCE E MORRE. Desde bem moleque sempre tive certeza: serei mau. Lembro da Maria Eugênia. Putinha. Ela gostava do Denis. Bostinha. Boyzinho da calça jeans cortada. No futebol me fez falta e sorriu. Depois, no bebedouro, eu enfiei sua cara na quina. Sangue. Muito sangue. E pontos na promoção. Ri com todos os dentes da boca. Me levaram prum canto. Me cercaram. Intimaram. Eles diziam: esse não tem jeito. É mau. Deu errado. Elimina. Evita. e eu olhava no olho. Ainda olho. Olho. 

Tuesday, December 23, 2008

satisfier

As enchentes assolam Sampa. O tempo que muda. A coisa tá feia. do céu aos rios, dos rios ao oceano. Se nada grave acontecer, daqui 48 horas eu espero já estar na estrada para algum lugar. vou rumo ao Sul, para longe dos espectros de Santa Claus - como mosca vermelha, como Jesse Custer -, ainda sem planos ou trajetos. Somente enfiar as coisas no porta-malas e raspar o gato, sob o sol estalante e as chuvas de frente. penso nas praias de Santa Catarina e na cidade de Porto Alegre, penso nas estradas secundárias que rasgam o interior. Penso em cruzar as estradas desertas do Uruguai e circular sem voltar, apenas indo - mucha muchacha – you ain't so such a much - para bem longe daqui, para bem perto de se sentir velho. distante das festas & confraternizações. não vou para Jersey City, mas quem sabe não dou um pulo em Montevidéu. depois eu volto. estragado porém suave. Cavalgar é preciso.

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Ando um tanto podre este final de ano, talvez por causa da cirurgia que minou minha resistência, tão podre que fiz até um check up para conferir o que se passa dentro dessa carcaça de grilo. Fiquei num cagaço, naturalmente, em pegar meus resultados, mas tudo está nos trinques. Não tenho Hepatite C, nem colesterol alto, muito menos o temível HIV corre em meu sangue. estou apenas com alguma coisa inflamada na minha caixa torácica e piolhos.

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Aqui tem o primeiro disco do Bill Fay inteiro pra baixar, assim, de mão beijada.

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Aqui, na moral, esse tal de Eli “Paperboy” Reed e sua banda The True Lovers fazem soul music com pegada de nêgo doido, tipo um Al Green cheirado numas de roqueiro. Um dos melhores discos desse ano.
Eli "Paperboy" Reed and The True Lovers - "Roll With You" (via rapidshare)

Wednesday, December 17, 2008

capricho ou macumba

dia desses a gente tava falando do Alborghetti. dai fui assistir isso aqui. e sem querer, logo lembrei da coceira inglesa do Cabeça.
  

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E Blues na Galeria.

Monday, December 15, 2008

suma

Dezembro chuvoso em São Paulo. As ruas do centro ficam bem mais acolhedoras, as cores intensas e definidas como se alguém regulasse o contraste de um monitor, transformando toda a atmosfera num sonho atrás da janela. Durante o dia as pessoas caminham por ai sem preocupações graves, sem o pânico. As árvores balançam e escuto o farfalhar das folhas. E o céu volumoso e escuro dançando em explosões lá em cima do topo dos prédios como num prenúncio de que alguma merda vai acontecer. E geralmente acontece. Como vudu. Quando a noite cai. Quando ando por ai e me sinto cansado de tudo, chateado. Quando os loucos mostram os dentes e as laminas sangram. Os semáforos piscam numa mesma cor. Talvez eu apenas precise dar uma volta e respirar novos ares por um breve período de tempo. Tempo. Faz tempo que ando pelas ruas molhadas do centro da cidade de São Paulo. Estou cansado e repetitivo. Só preciso dar uma volta. Sentir tanto sua falta me deixa doente. Eu tenho quase certeza de que você fez vudu, macumba, ou algum tipo de trabalho para me atrapalhar. Você costumava me acarinhar como um cão. Sinto-me doente agora. E não é nada demais. Apenas mãos suadas e um zumbido agudo na cabeça. Vejo uma senhora carregando uma grande sacola de feira do outro lado da rua. Sinto muito por tudo que aconteceu entre nós. Ontem sonhei com uma estrada que circundava a serra beira mar. O carro minúsculo deslizando numa faixa negra de asfalto sob grandes montanhas com os topos cobertos por nuvens carregadas, como os prédios, mas as montanhas são mais imponentes. Acordei com as mãos suadas e uma melodia estranha na cabeça. O som do mar, a risada de um louco. Tenho certeza sobre esses trabalhos. Quase. Tem alguma coisa errada comigo. Como se estivesse sendo feito de idiota. É o vudu funcionando. Tarde demais.

Saturday, December 13, 2008

escuto música a madrugada inteira. passei a me levar mais a sério, mas evito fazer isso. fico ouvindo música a madrugada inteira. daí pesquiso coisas. minha curiosidade é gigantesca, sem pretensões, apenas coceira. coisa de babaca dependente. daí encontro um country boogie no El Diablo Tun Tun e fico quieto e curvado como um fanático, solitário e devoto. apenas escuto. madrugada. porra, e descubro que western swing e rhythm & blues podem me transformar numa pessoa melhor. e que todos esses idiotas que acreditam em cadernos culturais de grandes jornais que vão à puta que pariu. escuto um Joe Tex e acho que todos os problemas já não existem mais. e fico matutando sobre o fato do amor não ter nada a ver com felicidade. nunca. penso. penso em coisas que não me dizem respeito. fico na minha. tento. ao menos. nunca tive dúvidas quanto ao fato dos crioulos fazerem músicas bem melhor que os brancos. nem hesito, palhaço. não mexe comigo senão te meto a faca. sou raso, mas não sou comédia. sad days, lonely nights. dá uma olhada nisto antes de comer teu sucrilhos. esqueça. ando com uma vontade desgraçada de morrer num acidente. deus, tenha piedade. nunca te escutei. eu acredito. escuta aqui. não mexe comigo. certo?
isso é uma das coisas mais ridículas que eu já vi em toda minha vida inteira. quase morri de vergonha alheia. 

Thursday, December 11, 2008



O lançamento da Musa e a abertura da exposição me deixaram um trapo velho. Maior putaria do caralho: mulheres lindas e seminuas, palavrões comendo solto, gente bêbada e petulante, amigos feios e malvados, garrafas voando e explodindo e sorrisos para fotos. Não posso esquecer de deixar registrado aqui meus sinceros agradecimentos ao Marquinhos, do Mercearia São Pedro, à Márcia, do Espaço Parlapatões, ao Linguinha, ao Cabeça, ao Trovão e a Lu e ao Márião & Saco de Ratos Blues, ao Vanderley e seu Demônio Negro, ao Ademir Assunção e Antonio Vicente - sem vocês, creio que a festa teria sido uma vernissagem insossa com gente fazendo biquinho. E obrigado aos amigos presentes - nada como encher a cara bem acompanhado. Precisei de 2 dias de repouso e reclusão para conseguir voltar a falar. Ontem, enquanto o telefone se esgoelava atado ao carregador e longe do meu alcance, eu sentia a velha sensação de que algo bem escroto acontecia na madrugada embolorada, eu olhava pro carro ali, sendo lavado pela chuva e pensava numa pá de merda, mas alcancei um Colto Maltese que estava esquecido debaixo da mesa e li até apagar. Hoje estou me sentindo novo, pronto pra uma briga de gangue no fundo de uma rua escura, mesmo assim, acho melhor, ultimamente, beber um vinho tinto morno na companhia de ninguém.

Hoje também achei uma resenha da expo no Homem Nerd.

já o Guia da Folha disse que o Carlos Carah aborda a relação entre arte & drogas. Bom, acho que eles confundiram a exposição com o lançamento d’A Musa Chapada. Até ai normal, mas eu tenho nojinho das temíveis drogas.

Aqui uma musiquinha pro chicote estralar.
e vamos pra rua piranhar.

Thursday, December 04, 2008

BAIXOCALÃO @ QUEBRAMAR
[]
Nos próximos dias 5 e 6 de dezembro, a baixocalão junta-se à enorme lista de atrações do Festival Quebramar de Música Independente, peripécia em vias de ACONTECÊNCIA na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá.

No intervalo entre os shows de Macaco Bong (MT), Mopho (AL), Jorge Mautner (RJ) e outras 27 bandas florestais, uma VENENOSA SELETA de trabalhos dos artistas da galeria ABRILHANTA a festa piscando em um telão instalado nas redondezas do palco. Exposições, workshops e palestras complementam o evento, organizado numa JOINT-VENTURE entre o Coletivo Palafita e o Espaço Cubo.

A entrada é FRANCESA.

Participam da empreitada Glauber Shimabukuro (SP), Sandré Sarreta (RS), Victor eLgUY (SP), Diogo Rustoff (GO), Alex Senna (SP), Jotapepax (RS), Celso Gitahy (SP), Vânia Medeiros (BA), Fabiano Gummo (RS), Kael Kasabian (SP), Herbert Loureiro (AL), Paulo Ponte Souza (PA), BT Nóbrega (SP), Leonardo Malaquias (SP), Carlos Carah (SP), Dado Motta (SP), Rômolo D´Hipólito (SP), Mulheres Barbadas (SP), Lu Lapan (RJ), Andrea May (BA), Guilherme Caldas (PR) e Maurício Pierro (SP).

Só lembrando: dias 5 e 6 de dezembro de 2008, Unifap, Macapá, Amapá.
Entrada = zero rauls.
Estando por lá, prestigie.

via Cardoso.

Tuesday, December 02, 2008

ixi

Monday, December 01, 2008

sob encomenda

alguns dizem que são os faróis das carretas que vêm na direção contrária. outros, que são os animais que fogem das sombras. alguns temem a polícia ou a falta de sinalização. eu já discordo. fico apavorado mesmo é com o brilho da lua. nada é comparável àquele círculo prateado dependurado no firmamento, no escuro de uma estrada deserta, daquelas que todos evitam trafegar nas altas horas da madrugada. onde não há socorro. onde os andarilhos vagam. onde os cães, entre centenas de gerações, ainda não aprenderam a evitar. onde a lua impera sem parceria. e um carro ricocheteia nas crateras de uma dessas estradas secundárias federais e ali, dentro de um recipiente de aço, na cautela de não trincar nenhum dos molares, ou de um pedregulho largado de propósito no meio das faixas com o intuito de estraçalhar algumas rodas, alguém tenta escapar. a lua insiste. em silêncio. sempre. como uma senhora cansada na varanda. onde do pânico, que é algo que nunca se controla e sempre toma as rédeas, eu tento escapar. para não levantar suspeitas, arranco um dos fusíveis responsáveis pelos faróis, assim, meu maior temor se torna meu grande aliado, eu posso me guiar pelo breu noturno sob sua luz prateada. completamente apagado. nunca irão me encontrar. em terceira marcha, com o giro no talo, mantenho um olho na pista e outro no retrovisor. algo no porta-malas ainda respira com dificuldades, como um asmático trancado no porão. sob encomenda. pode-se dizer assim. até que acerto algo bem pesado com a lateral direita do Dodge Charger `74. o estrondo é tão forte que voam faíscas. o pneu estoura, tenho certeza pelo barulho. talvez a suspensão também tenha arriado, não garanto, pois não confiro. o veículo desliza para o lado contrário com violência, a borracha berra como se esfregasse o rosto de uma criança no cascalho. meu polegar esquerdo sai do lugar, mas consigo consertá-lo no calor. desço cambaleante e caio no mato seco que cerca a pista. não sei o que mais há ao redor. a lua lá, fitando tudo de braços cruzados. algo queima por dentro. escorre fogo pelas entranhas e pelos ouvidos. o rádio ligado numa estação errada. uma grande roubada.
O Largo da Batata à noite tem um clima bem noir. Dias atrás eu dei um pulo lá. fui procurar uma pessoa que não sabia aonde estava. apenas me dissera que era no Largo da Batata, num boteco com uma jukebox que tocava um forró sacana. já era bem tarde quando desliguei a ignição e deixei o carro deslizar até quase na esquina da Cardeal com a Cunha Gago. depois puxei o freio de mão e um cigarro. desci e tranquei o carro. caminhei rente ao muro e me encostei numa parede branca, debaixo de uma sombra formada pela luz do poste e pelo forro de alguma loja de macumba. apoiei minha breja no peitoral de uma janela e fiquei ali. haviam poucas pessoas nas ruas. elas eram enrugadas e sudoríparas como naqueles filmes. um grupo de 4 malucos passaram pela minha frente. eles estavam rindo de alguma coisa engraçadinha. eu não estava achando a menor graça. fazia tempo. eu esperava, foi quando lembrei da ficha do jukebox. o que ela fazia ali no meu bolso? comecei a me sentir como se estivesse numa história do Torpedo. desencostei e fui procurar outra lata. num boteco de azulejos azuis engordurados, perguntei se havia algo de errado com a máquina. Ixi, tá louco!, a mocinha de avental atrás do balcão disse, espantada hein - isso ai nunca funcionou. pois engoliu minha ficha, retruquei. a macacada toda riu. peguei uma nova lata e fui embora. voltei ao muro, às sombras. fiquei ali um bom tempo. jogando uma moeda para cima com ajuda do polegar. ela brilhava como lamina. uma moça baixa apareceu. de baton vermelho e lycra roxa. 

 - tá procurando alguma coisa? - ela perguntou com uma voz que parecia sair das entranhas do inferno. 
 - pode-se dizer que sim. 
 - o que você está fazendo aqui? 
 - acidente de percurso - respondi. 
 - E isso aqui, é pra mim? - ela arranca meu cigarro da boca e começa a tragá-lo, com um olhar bem de vagaba. 
 - devolve isso aqui, vagabunda - acelero, não tô pra palhaçada - tá achando o quê?
 - Calma, moço!
 - tô calmo.
 - você não gosta de chupar uma bucetinha?
 - você faz perguntas demais.
 - Eu sei.
 - eu não estou perguntando. estou afirmando isso.
 - credo! só achei que você estivesse procurando um programa.
 - não. dá licença.

fiquei ali mais um bom tempo. nem consigo me lembrar quanto. eu sabia que logo iria amanhecer. despertadores iriam tocar. e milhares de pessoas inundariam o terminal. fiquei ali mais um bom tempo. até que você apareceu. de vestido esvoaçante e um sorriso complicado no rosto. me fez perder o equilíbrio, mesmo encostado.

 - demorei muito?
 - égua!
 - hã?
 - nada. vamos embora.

e fomos assim.

 - gastou a ficha? - ela ainda perguntou depois.
 

Friday, November 21, 2008

eu relaxei e estava pensando
afinal
se fugir 
era uma boa idéia.

a primeira coisa que me lembro 
depois disso, 
foi que um bando de filhos da puta me seguravam. 

opa!

eles gritavam: 

calma calma

mas não calmei 

nem fudendo. 
escorreguei pelos braços. aquele monte de carne. 
escapei. escorri pra caralho. 
depois, relaxei. pensei e decidi, 
afinal, 
fugir é uma grande idéia. 

escutava apenas meus passos, 
e de fundo - antes das curvas -
alguns palavrões curtos ecoavam 
pelas paredes dos galpões. 

baixei a cabeça e continuei a correr. 
olhava meus sapatos 
no vice versa
minha respiração a falhar
foi me subindo um pânico pela culatra
eu suava como se estivesse derretendo
me dizia: te controla, parceiro, 
corre mais um pouco

vai 

então, encontrei uma garagem
lá não havia carro, 
nada guardado
apenas um grande vaso 

encostado na parede 
me acocorei
escutava risadinhas 
risadas de mulheres 
aquilo lixava meus nervos 

gelei

Tuesday, November 18, 2008

Severino aparece tarde. fedendo como de costume, inchado, com os olhos lacrimejantes e os ombros encolhidos, chega devagar depois que eu abro a porta e com sua voz pastosa pergunta: 

- tem um cigarro?
- claro. entra.

ele me conta que o pai do Alexandre morrera de AVC e que depois do enterro todos foram beber à sua memória. disso eu já sabia. seu Jeferson, o pai do Alexandre, era um grande cara. passavámos muitas madrugadas em sua casa jogando cartas e tomando conhaque Presidente. a molecada toda. ele era sempre o mais animado. creio que fazia isso numa forma de nos manter longe das ruas. mas ele sempre perdia. perto das 5 da manhã, seu Jeferson se levantava e começava a lavar a louça da pia. era o sinal para que cada um arrumasse seu canto e dormisse. eu sempre capotava sobre um tapete felpudo que ficava no espaço entre a mesinha de centro e o móvel da televisão.

- porra, um monte de gente continua morrendo - Severino diz, parece muito triste.
- é. a morte está sempre presente.
- mas o Tex Willer continua firme e forte - ele diz isso enquanto aponta o indicador para a janela aberta.
- é. 
- ele nunca envelhece...
- como está o Alexandre?
- ele queria saber de você. porra, creio que agora as coisas vão realmente fuder pro maluco. ele estava silencioso hoje, o tempo todo, talvez tentando pesar suas chances. tentei conversar, mas ele continuou quieto, dolorosamente sensível.

Alexandre é meu amigo desde à infância. crescemos juntos. seu pai tinha um Fiat 147. a gente conseguia abrir e ligar o carro com uma chave de fenda. aprendemos a dirigir nele, isso em 1986. de madrugada íamos pra Colina. lá havia um grande estacionamento ermo com árvores magricelas, onde casais trepavam em seus carros com os vidros embaçados. fazia sempre um frio danado, um vento que soprava pro leste. a gente ficava bebendo Presidente e fumando cigarros baratos, falavámos de bandas, das garotas, encostados no capô do carro e encolhidos dentro das jaquetas. cantavámos "fotografia 3 x 4" do Belchior com lágrimas nos olhos. naquele mesmo ano, sua mãe passaria cinco vezes pelo hospital, até morrer de ataque cardíaco de tanto fumar e beber. 

- você devia ter ido ao enterro.
- eu sei. perdi a hora.

pela janela, vejo a vizinha estendendo um lençol para servir de cortina. privacidade após o banho. pela jeito ela se deu bem hoje e voltou cedo. na noite passada, bêbado, fiz uma serenata. eu cantava que por ela eu poderia mudar, juro, tudo para ficar ao seu lado pelo resto minha da vida. nem me lembro quando fui dormir. acabei perdendo a hora.

queria socar uma bronha

tô quase bom hein. 
quase... naquelas 

cansa fazer nada. daí desenho um pouco, leio bastante - mas abandonei os jornais - e fumo bastante também, e durmo às vezes. sinto falta das ruas e dos amigos. não vejo a hora de ficar bom e conseguir dar uma bica na bunda de todos. fico com o computador um pouco e dou uma trabalhadinha de leve, encaminhando os passos para quando melhorar mesmo; depois descobro músicas estranhas, coisas do Tampa Red e do Ry Cooder, Merle Travis, pesquiso as primeiras gravações do Elvis pela Sun Records e descubro que "Put your Cats Clothes On", do Carl Perkins, pode estourar meus pontos.  descubro também que o álbum "Histoire de Melody Nelson", do Gainsbourg, pode me ajudar. minha cabeça está tranquila até. sinto-me tão saudável e tenho raiva disso, comi até bolo hoje. quero um garrafão de vinho e uma mesa de sinuca cercada de vagabundos. e que todos os comentaristas de futebol vão à merda, puxa vida. 

malvados